Circle perde 30% no ano: por que Wall Street desistiu da USDC
Morgan Stanley cortou o preço-alvo da Circle de US$ 106 para US$ 38 e rebaixou a ação. O problema central: a USDC está encolhendo e a concorrência cresce.
O rebaixamento que resume o problema estrutural da Circle
A Circle Internet, emissora da stablecoin USDC, acumula queda de cerca de 30% desde o início do ano. Na segunda-feira, o Morgan Stanley rebaixou a recomendação das ações de “equal-weight” para “underweight” e cortou o preço-alvo de US$ 106 para US$ 38. A ação caiu mais 6% após o relatório.
O analista James Faucette, responsável pela cobertura, foi direto: a contração da USDC expõe a sensibilidade da Circle à receita de reservas e aponta para uma migração forçada em direção a receitas de transação, que têm margens menores. Em termos práticos, o modelo de negócios que sustentou a empresa nos últimos dois anos está sob pressão de múltiplos lados.
O banco reduziu suas projeções de oferta de USDC em aproximadamente 33% para 2027 e 44% para 2028. Com isso, as estimativas de lucro por ação ficam cerca de 3% abaixo do consenso de mercado para 2027 e 20% abaixo para 2028. Não se trata de um ajuste marginal. É uma revisão estrutural da tese.
Por que a receita de reservas está ameaçada
A Circle ganha dinheiro principalmente com os rendimentos dos ativos que lastreiam a USDC, compostos majoritariamente por títulos do Tesouro americano e instrumentos de curtíssimo prazo. Quando os juros sobem, essa receita cresce. Quando caem, encolhe. Até aqui, nenhuma novidade.
O problema novo é que a competição agora vem de dentro do ecossistema. Fundos de money market tokenizados e depósitos tokenizados estão capturando parte do capital que antes ficava estacionado em stablecoins. A BlackRock, por exemplo, lançou dois novos produtos de mercado monetário baseados em blockchain justamente nesta segunda-feira, desenhados para atender tanto investidores tradicionais quanto a indústria de stablecoins.
Essa dinâmica é particularmente perigosa para a Circle. Quando um investidor institucional pode acessar rendimento de Treasuries via um token de money market da maior gestora do mundo, por que manter USDC sem rendimento? A proposta de valor da stablecoin como “dólar digital” fica enfraquecida quando alternativas tokenizadas oferecem o mesmo lastro com retorno direto ao detentor. Como analisamos em nossa cobertura do setor financeiro, a tokenização de ativos tradicionais está redesenhando a fronteira entre finanças legadas e cripto.
Pagamentos com IA e a aposta que não vingou
A Circle vinha apostando em “pagamentos agênticos”, ou seja, transações iniciadas por agentes de inteligência artificial. A ideia era posicionar a USDC como o trilho monetário para a economia autônoma de IA. No papel, faz sentido. Na prática, os números são desanimadores.
Segundo o Morgan Stanley, o volume de transações nessa frente caiu para cerca de US$ 41.900 por dia, com um ticket médio de aproximadamente US$ 0,24. São métricas que sugerem adoção comercial muito limitada. Para uma empresa avaliada em bilhões, uma vertical de receita que movimenta menos de US$ 42 mil diários é irrelevante do ponto de vista financeiro.
Isso não significa que pagamentos agênticos não tenham futuro. Significa que a Circle chegou cedo demais com execução insuficiente, ou que o mercado simplesmente ainda não existe em escala. Em ambos os cenários, não sustenta valuation.
O dilema do prisioneiro entre Circle e Coinbase
O rebaixamento do Morgan Stanley não foi isolado. O JPMorgan já havia cortado a recomendação anteriormente, argumentando que o acordo revisado da Circle com a exchange Hyperliquid enfraqueceu a economia da USDC. Mais relevante: o banco apontou um crescente “dilema do prisioneiro” entre Circle e Coinbase.
A lógica é a seguinte. Circle precisa da Coinbase para distribuir USDC. Coinbase precisa da USDC para gerar receita de custódia e trading. Mas à medida que ambas tentam expandir a distribuição da stablecoin, os incentivos financeiros se deterioram para as duas partes. É um jogo onde competir por market share corrói a rentabilidade de quem participa.
A chegada do Open USD, um novo modelo de stablecoin com governança compartilhada e economia de reservas distribuída, adiciona mais pressão. Como discutimos na nossa seção de criptomoedas, o mercado de stablecoins está entrando numa fase de fragmentação competitiva que pode redefinir quem captura valor nessa cadeia.
O que isso significa para quem acompanha o setor
A Circle virou pública como a grande aposta de Wall Street no mercado de stablecoins. A tese era simples: stablecoins são infraestrutura, USDC é a segunda maior, os juros altos garantem receita farta. Dois dos três pilares dessa tese estão rachando.
Os juros americanos, embora ainda elevados, já sinalizaram trajetória de queda no médio prazo. A participação de mercado da USDC não cresce com a velocidade projetada. E a concorrência, que antes era basicamente a Tether, agora inclui gestoras como BlackRock, modelos de governança aberta e produtos de rendimento tokenizado.
Para o investidor que acompanha o mercado financeiro global, o caso Circle é uma aula sobre risco de modelo de negócios. Uma empresa que depende de uma única fonte de receita (reservas) atrelada a uma variável macroeconômica (juros) e a uma dinâmica competitiva em transformação acelerada (tokenização) carrega vulnerabilidades em todas as frentes.
Com dois grandes bancos americanos pessimistas e um preço-alvo cortado em mais de 60%, o ônus da prova agora está com a Circle. Ela precisa demonstrar que consegue diversificar receitas, manter relevância da USDC e encontrar margens em transações. Até que faça isso, o mercado vai tratar a ação como o que os números sugerem: uma empresa cujo motor principal está desacelerando.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.