China quebra monopólio da ASML em litografia de chips
Startup de Xangai com apoio estatal entrega primeiras máquinas de litografia ultravioleta neste ano. Ação da holandesa ASML caiu 6% em um só dia.
A ação da ASML, a empresa mais valiosa da Europa, caiu 6% em um único pregão após a revelação de que uma companhia chinesa baseada em Xangai começou a produzir máquinas de litografia ultravioleta profunda (DUV). A tecnologia era considerada um monopólio virtual da holandesa e é peça central na fabricação de chips avançados, incluindo os processadores que alimentam data centers de inteligência artificial.
Cinco unidades das máquinas chinesas devem entrar em operação até dezembro. Outras 20 estão previstas para 2027. A empresa, que não teve o nome revelado publicamente, conta com apoio direto do governo chinês e emprega engenheiros que passaram pela própria ASML.
O episódio reacende um debate que o mercado de semicondutores vem tratando com cautela há anos: até que ponto os embargos tecnológicos ocidentais conseguem frear a ambição industrial da China?
O que são as máquinas de litografia e por que importam
Máquinas de litografia são os equipamentos que imprimem padrões de circuitos microscópicos em wafers de silício, a etapa mais crítica da fabricação de semicondutores. Existem dois níveis principais dessa tecnologia: a litografia ultravioleta profunda (DUV) e a litografia ultravioleta extrema (EUV).
A DUV é usada para produzir chips de gerações intermediárias, ainda essenciais para a maioria dos eletrônicos do mundo. A EUV, por sua vez, é necessária para os processadores mais avançados, com transistores de 5 nanômetros ou menos. Cada máquina EUV custa mais de US$ 200 milhões, tem o tamanho de um ônibus e imprime circuitos com espessura equivalente a um milésimo de um fio de cabelo.
A ASML segue como a única empresa do planeta capaz de fabricar equipamentos EUV. Em 2025, a companhia entregou 327 sistemas de litografia somando todos os modelos, com faturamento total de 32,7 bilhões de euros. Mas é justamente na camada DUV que a China acaba de forçar uma brecha, como detalhamos em nossa cobertura sobre o setor de tecnologia.
A estratégia chinesa para driblar os embargos
Os Estados Unidos, com apoio de Holanda e Japão, impõem restrições crescentes à exportação de tecnologia de semicondutores para a China. A ASML não pode vender sistemas EUV ao mercado chinês. Nem mesmo os modelos DUV mais avançados podem ser exportados. Segundo dados compilados pela Bloomberg, a China é o terceiro maior mercado da holandesa, mas só recebe modelos com oito gerações de defasagem em relação ao estado da arte.
Esse cerco motivou Pequim a tratar a autossuficiência em semicondutores como questão de segurança nacional. Os investimentos estatais no setor se multiplicaram. Em 2024, a Semiconductor Manufacturing International Corporation (SMIC), maior fundição de chips da China, já havia iniciado testes com uma máquina DUV fabricada pela startup Yuliangsheng, também sediada em Xangai.
Agora, a produção em escala dessas máquinas marca uma transição relevante. Não se trata mais de laboratório ou protótipo. São equipamentos sendo entregues a clientes industriais. A guerra tecnológica entre EUA e China entrou em uma fase onde os embargos começam a gerar o efeito oposto do pretendido: aceleração do desenvolvimento doméstico chinês.
O CEO da ASML disse que levaria 15 anos. Levou bem menos
Em 2024, o CEO da ASML, Christophe Fouquet, declarou publicamente que os chineses levariam entre 15 e 20 anos para fabricar sistemas de litografia de ponta. A estimativa se referia especificamente à tecnologia EUV, que de fato permanece fora do alcance chinês. Mas no segmento DUV, a previsão se mostrou excessivamente otimista.
A velocidade do avanço chinês surpreendeu analistas. Fontes do setor indicam que uma firma chinesa já desenvolveu um protótipo funcional de máquina EUV, embora ainda distante de produção comercial. O conhecimento absorvido de engenheiros que trabalharam na ASML é apontado como um dos fatores que aceleraram o processo.
A ASML não comentou a notícia. Apesar da queda de 6% no dia, a ação ainda acumula alta de 54% no ano, o que mostra que o mercado, ao menos por enquanto, trata o evento mais como risco de longo prazo do que como ameaça imediata à dominância da companhia. A análise sobre como a corrida por IA impacta a cadeia de semicondutores ajuda a entender por que esse mercado segue atraente mesmo sob pressão competitiva.
O que muda para o mercado global de chips
No curto prazo, pouco. As máquinas DUV chinesas ainda não competem com os modelos mais avançados da ASML. A escala de produção é limitada e a qualidade precisa ser comprovada em operação industrial contínua. A ASML vendeu 327 sistemas apenas em 2025, um volume incomparável com 25 unidades chinesas previstas até o fim de 2027.
No médio e longo prazo, o cenário é diferente. A existência de uma alternativa doméstica permite que fundições chinesas como a SMIC reduzam a dependência de fornecedores estrangeiros para chips de gerações intermediárias. Isso tem implicações diretas para setores como telecomunicações, automotivo e eletrônicos de consumo, onde chips DUV ainda são amplamente utilizados.
Para investidores expostos ao setor de semicondutores, o recado é claro: o prêmio de monopólio que sustenta a valuação da ASML começou a ser questionado. Não porque a empresa vá perder relevância amanhã, mas porque a narrativa de que ninguém mais conseguiria fabricar essas máquinas acaba de sofrer sua primeira rachadura concreta.
A corrida por semicondutores se tornou um dos eixos centrais da geopolítica global. E, como acontece em toda corrida, quem aposta que o líder nunca será alcançado costuma se surpreender.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.