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SpaceX perde outro booster e ações caem: o dilema do Starship V3

SpaceX implantou os primeiros satélites Starlink V3, mas falhou novamente no pouso do Super Heavy. Ações caíram 2% no after-market e acumulam queda de 42% desde o IPO.

SpaceX perde outro booster e ações caem: o dilema do Starship V3
Foto: Forest Katsch / Unsplash

A SpaceX conseguiu implantar os primeiros satélites Starlink de terceira geração na sexta-feira, usando uma versão atualizada do Starship V3 em seu 13º voo de teste. Mas o que deveria ser uma demonstração de maturidade tecnológica virou mais um capítulo do dilema central da empresa: o foguete funciona pela metade.

O booster Super Heavy, estágio inferior do Starship responsável pelo impulso inicial, falhou novamente durante uma simulação de pouso no Golfo do México. É a segunda falha consecutiva desse componente na versão V3 do foguete. O booster não conseguiu reacender todos os motores necessários para a manobra de frenagem e explodiu ao atingir a água em velocidade acima da prevista.

As ações da SpaceX, que estrearam na bolsa em junho no maior IPO da história, caíram 2% no after-market após o incidente. O papel já acumula uma queda expressiva: saiu de um pico acima de 200 dólares por ação para 115 dólares no fechamento de sexta-feira, uma desvalorização superior a 42% em poucas semanas.

Por que a falha do Super Heavy importa tanto para o negócio

A questão vai muito além de engenharia aeroespacial. O Super Heavy não é apenas um foguete de lançamento. Ele é a peça-chave da equação econômica que sustenta o Starlink, a rede de internet via satélite que representa a única divisão lucrativa da SpaceX.

A própria empresa reconheceu, em seu prospecto de abertura de capital (S-1), que sem um Starship totalmente reutilizável, o progresso do Starlink aconteceria “em ritmo mais lento e custo mais alto”. A reutilização do booster é o que torna viável lançar 60 satélites V3 de uma só vez, com capacidade de downlink potencialmente 20 vezes superior à de um único lançamento do Falcon 9.

Sem essa reutilização, cada lançamento consome um booster inteiro. É como operar uma companhia aérea que descarta o avião após cada voo. A economia simplesmente não fecha, especialmente para uma empresa que precisa justificar uma avaliação de mercado que já foi substancialmente maior do que os níveis atuais de negociação.

O que funcionou no 13º voo e o que isso revela

Nem tudo foi fracasso. O estágio superior do Starship, chamado internamente de Ship, teve um desempenho notável. Diferentemente do primeiro voo V3 em maio, quando perdeu um motor durante a subida, desta vez o Ship operou sem falhas. Ele sobreviveu às forças extremas de reentrada atmosférica e executou um pouso simulado no Oceano Índico cerca de uma hora após a decolagem.

Um detalhe chamou atenção: ao tombar na água, o Ship não explodiu. Ficou flutuando, permitindo que a SpaceX usasse um drone para examinar de perto as placas do escudo térmico em sua parte inferior. Essa inspeção em tempo real é um avanço significativo para entender o desgaste dos materiais de proteção, um dos maiores desafios técnicos da engenharia de foguetes reutilizáveis.

Os satélites Starlink V3 também funcionaram conforme o planejado durante sua breve vida útil. Foram implantados com sucesso e a SpaceX conseguiu se comunicar com todos eles enquanto estavam no espaço. Porém, como o Starship ainda não consegue atingir a órbita terrestre, os satélites reentraram na atmosfera e se desintegraram cerca de 20 minutos após a implantação. Foi um teste, não uma operação comercial.

O histórico de falhas e a filosofia “fly, fail, fix”

O voo de sexta-feira quase não aconteceu. Pouco mais de uma semana antes, a SpaceX tentou realizar o mesmo lançamento, mas precisou abortar imediatamente após a ignição por conta de falhas em múltiplos motores. A empresa substituiu seis motores antes da nova tentativa.

Esse ciclo de tentativa, erro e correção rápida é a espinha dorsal da filosofia de desenvolvimento da SpaceX, resumida no mantra “fly, fail, fix”. O problema é que essa abordagem, celebrada quando a empresa era privada e não devia satisfações trimestrais, agora tem consequências visíveis no preço das ações. Na semana do lançamento abortado, o papel da SpaceX já havia recuado de forma relevante.

Para investidores, a pergunta central não é se a SpaceX vai resolver o problema do booster. Provavelmente vai. A questão é quanto tempo e capital isso exigirá, e se o mercado terá paciência para esperar. A transição de empresa privada com tolerância infinita a risco para companhia aberta com pressão por resultados é um teste tão complexo quanto o próprio Starship.

O que significa para o mercado de internet via satélite

O Starlink é hoje a aposta mais concreta de conectividade global por satélite em operação. Concorrentes como o Projeto Kuiper da Amazon ainda estão em fases iniciais de implantação. Cada atraso na cadeia de lançamento do Starship representa uma janela de oportunidade para competidores.

Os satélites V3 prometem uma revolução na capacidade da rede. Se a SpaceX conseguir lançá-los em escala usando o Starship reutilizável, a vantagem competitiva será praticamente intransponível. Mas o “se” é grande. Como apontamos em análises anteriores sobre grandes apostas tecnológicas, a distância entre protótipo funcional e operação comercial escalável costuma ser maior do que o otimismo do mercado sugere.

Os próximos meses serão decisivos. A SpaceX precisa demonstrar que consegue pousar e reutilizar o Super Heavy antes que a narrativa de inovação se transforme em narrativa de execução problemática. Para uma empresa que acaba de realizar o maior IPO da história, a margem para erros repetidos diminui a cada voo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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