Finanças

Nasdaq cai 2% na semana: o que a venda de chips sinaliza

Venda generalizada de ações de semicondutores derrubou o Nasdaq em 2% na semana. Entenda o que está por trás da rotação e como ela afeta o cenário de investimentos.

Nasdaq cai 2% na semana: o que a venda de chips sinaliza
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

Os três principais índices de Wall Street encerraram a semana com perdas, mas o destaque negativo ficou com o Nasdaq, que recuou mais de 2% nos cinco pregões encerrados nesta sexta-feira. O Dow Jones perdeu 0,5% e o S&P 500 caiu 0,7%, em um movimento que revela menos pânico generalizado e mais uma rotação setorial concentrada nas ações de tecnologia, especialmente fabricantes de chips.

O gatilho imediato foi o balanço da Intel, que divulgou os resultados do segundo trimestre de 2026 e viu suas ações despencarem quase 8% no pregão regular, apesar de ter superado expectativas de receita. O paradoxo entre números sólidos e queda acentuada resume bem o que está acontecendo neste ciclo: o mercado já precificou a tese de inteligência artificial e agora cobra retorno sobre os bilhões investidos.

Por que a Intel caiu mesmo com resultados acima do esperado

A Intel projetou receita para o terceiro trimestre acima do consenso de analistas e revisou para cima a estimativa de gastos de capital, de US$ 18 bilhões para US$ 20 bilhões em 2026. A melhora nas perspectivas reflete a adoção crescente de suas unidades de processamento central (CPUs) para data centers voltados à infraestrutura de inteligência artificial.

Mas é justamente esse aumento de capex que assustou os investidores. A lógica é simples: gastar mais agora significa comprimir margens no curto prazo, sem garantia de que o retorno virá na velocidade que o mercado exige. Não é a primeira vez que isso acontece neste ciclo. Como analisamos em outras coberturas sobre o mercado financeiro, empresas de tecnologia que elevam agressivamente seus investimentos em IA têm enfrentado reações duras dos investidores.

A queda da Intel arrastou consigo o setor de semicondutores como um todo, amplificando um movimento de venda que já vinha se desenhando ao longo da semana.

O ciclo de IA entrou em fase de questionamento

É importante colocar esse movimento em perspectiva. Desde o início do ciclo de euforia com inteligência artificial generativa, as ações de empresas ligadas a semicondutores e infraestrutura de data centers foram as grandes vencedoras. Nvidia, AMD, TSMC e a própria Intel surfaram ondas consecutivas de valorização.

Agora, o mercado está entrando em uma fase diferente. Os investidores querem ver receita concreta gerada pela IA, não apenas promessas de demanda futura. E quando uma empresa como a Intel anuncia que vai gastar US$ 2 bilhões a mais do que o previsto, a pergunta inevitável surge: quando esse investimento se paga?

Essa dinâmica não é inédita. No ciclo das empresas de telecomunicação nos anos 2000, bilhões foram investidos em infraestrutura de fibra óptica antes que houvesse demanda suficiente para justificar os gastos. Muitas dessas empresas quebraram. Não estamos dizendo que o mesmo acontecerá com os fabricantes de chips, mas a cautela com o setor de tecnologia não é irracional.

Petróleo recua apesar de tensões geopolíticas

Outro dado relevante da semana foi o comportamento do petróleo. Mesmo com a escalada de tensões no Oriente Médio, onde os Estados Unidos mantêm operações militares em território iraniano e o Irã realiza ataques a países aliados dos americanos, a commodity fechou em queda expressiva.

O contrato mais líquido do Brent, referência internacional, recuou 3,88% e fechou a US$ 96,78 o barril. O WTI americano caiu 2,74%, para US$ 91,68. O movimento foi impulsionado por notícias de que o Paquistão, com mediação da China, tenta retomar negociações diplomáticas entre EUA e Irã.

Porém, fontes iranianas e iraquianas indicaram que Teerã rejeitou uma nova proposta de cessar-fogo americana, alegando que o acordo não abordava a questão do controle do Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial.

O recuo do petróleo apesar desse cenário geopolítico tenso sugere que o mercado está precificando uma resolução diplomática como cenário base, o que pode se revelar otimista demais. Se as negociações fracassarem, a commodity pode voltar a testar patamares acima de US$ 100 rapidamente, com impactos diretos sobre a inflação global.

O que o investidor brasileiro deve observar

Para quem investe no Brasil, a semana em Wall Street traz duas lições práticas. Primeiro: a rotação setorial nos EUA pode abrir oportunidades em ações de tecnologia que foram excessivamente penalizadas. Quando o mercado vende indiscriminadamente um setor, empresas com fundamentos sólidos acabam sendo arrastadas junto com as mais frágeis.

Segundo: o comportamento do petróleo tem efeito direto sobre a Petrobras e sobre as expectativas de inflação no Brasil. Com o barril do Brent ainda próximo de US$ 97, a pressão sobre combustíveis domésticos continua relevante. Como discutimos em nossas análises sobre o cenário macroeconômico, o preço do petróleo é uma variável que o Banco Central monitora de perto para calibrar a política monetária.

Além disso, 23,1% das exportações brasileiras aos EUA estão sujeitas a novas tarifas, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. Esse dado, combinado com a volatilidade em Wall Street e as tensões geopolíticas, forma um cenário que exige atenção redobrada na alocação de portfólio.

Semana que vem: o que está no radar

O mercado entrará na próxima semana ainda digerindo a temporada de balanços do segundo trimestre. Mais empresas de tecnologia devem reportar resultados, e a tendência de aumento nos gastos com IA será o fio condutor das reações. Se outras companhias seguirem o caminho da Intel e elevarem seus investimentos de capital, o Nasdaq pode continuar pressionado.

No campo geopolítico, qualquer evolução nas negociações entre EUA e Irã será determinante para a direção do petróleo. E, por consequência, para as expectativas inflacionárias globais que ditam o ritmo dos bancos centrais.

O cenário não é de crise, mas de recalibragem. Depois de meses de otimismo quase irrestrito com a tese de inteligência artificial, o mercado está fazendo a pergunta que sempre faz em algum momento: quanto vale, de fato, essa promessa?

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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