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Telegram quer levar carteira cripto a 1 bilhão de pessoas

Pavel Durov promete lançar carteira nativa da Gram no Telegram até setembro. Se funcionar, será a maior distribuição de autocustódia cripto da história.

Telegram quer levar carteira cripto a 1 bilhão de pessoas
Foto: Leeloo The First / Unsplash

Pavel Durov fez uma promessa ambiciosa na terça-feira (21): integrar uma carteira de criptomoedas de autocustódia diretamente em todos os aplicativos do Telegram até o final do verão no hemisfério norte, o que significa, na prática, até setembro. Se cumprir o cronograma, será a maior distribuição de infraestrutura cripto de autocustódia já realizada, alcançando potencialmente mais de 1 bilhão de usuários ativos do mensageiro.

O anúncio não é apenas um movimento de produto. É uma aposta de que a fricção entre o usuário comum e as criptomoedas pode ser eliminada por completo quando a carteira já vem embutida no aplicativo que a pessoa já usa todos os dias. Sem download extra, sem configuração complexa, sem custódia de terceiros.

O que muda com uma carteira nativa no Telegram

O Telegram já tem mais de 1 bilhão de usuários mensais. A maioria nunca interagiu com uma carteira cripto. Integrar essa funcionalidade de forma nativa no app significa que, ao abrir o Telegram, o usuário já teria acesso a transações em criptomoeda sem precisar baixar outro aplicativo ou criar conta em uma exchange.

Durov descreveu o projeto como uma carteira de autocustódia, o que significa que o próprio usuário controla suas chaves privadas, sem intermediários. Essa é uma diferença fundamental em relação a exchanges centralizadas, onde a empresa guarda os fundos. A promessa inclui transações instantâneas e sem taxas, embora os detalhes técnicos sobre como isso será viabilizado ainda não tenham sido divulgados.

O conceito não é exatamente novo. O Telegram já oferece funcionalidades cripto por meio de bots e da TON Space, uma carteira integrada lançada anteriormente. Mas a proposta agora é tornar isso nativo, parte do aplicativo principal, não um complemento opcional. A diferença é de escala e de experiência de uso, como temos acompanhado na cobertura de tecnologia do portal.

A Gram e o rebranding que acompanha a estratégia

A carteira será centrada na Gram, criptomoeda que até pouco tempo se chamava Toncoin (TON). A mudança de nome faz parte de uma reorganização mais ampla: o Telegram assumiu controle direto do projeto, rebatizou o token e implementou melhorias de velocidade na rede.

O nome “Gram” não é aleatório. Era a denominação original do token que Durov tentou lançar em 2018, antes de ser barrado pela SEC americana em 2020. Naquela época, a oferta inicial de tokens (ICO) arrecadou US$ 1,7 bilhão de investidores, mas foi considerada uma oferta irregular de valores mobiliários. Após a proibição, a comunidade independente levou o projeto adiante com o nome TON, até o Telegram retomar as rédeas recentemente.

A Gram tem hoje um valor de mercado de aproximadamente US$ 4 bilhões, posicionando-se como a 21ª maior criptomoeda do mercado, à frente de projetos consolidados como Litecoin e Hedera. O anúncio da carteira fez o token subir 5,6% em 24 horas. Em maio, a moeda já havia registrado alta significativa quando o Telegram se tornou o maior validador da rede.

O ponto central é que, diferentemente de outras criptomoedas que precisam conquistar usuários do zero, a Gram já nasce com uma base potencial de mais de 1 bilhão de pessoas. Esse é, possivelmente, o maior diferencial competitivo do projeto, como discutimos frequentemente na editoria de criptomoedas.

Os desafios que Durov não mencionou

O anúncio é intencionalmente vago em pontos cruciais. Durov não esclareceu se a carteira dará suporte apenas à Gram ou se incluirá outras redes, como Bitcoin e Ethereum. Para uma ferramenta que se propõe a ser a “maior implementação de autocustódia da história”, limitar-se a um único token seria uma restrição significativa.

Há também a questão regulatória. Durov enfrentou problemas legais na França em 2024, sendo detido por questões relacionadas a moderação de conteúdo e atividades ilícitas na plataforma. Adicionar uma camada financeira nativa ao Telegram levanta questões sobre conformidade com regulações de combate à lavagem de dinheiro (AML) e conheça-seu-cliente (KYC) em dezenas de jurisdições diferentes.

A promessa de “sem taxas” também precisa ser contextualizada. Redes blockchain têm custos operacionais. Se não há taxas para o usuário, alguém está absorvendo esse custo. O modelo de sustentabilidade dessa operação ainda não foi explicado.

Outro fator é a experiência de autocustódia em si. A gestão de chaves privadas é notoriamente difícil para usuários não técnicos. Perder a chave significa perder o acesso aos fundos, sem recurso. Como o Telegram pretende tornar isso seguro e intuitivo para centenas de milhões de pessoas que nunca usaram cripto é, talvez, o maior desafio técnico e de design do projeto.

Por que isso importa além do Telegram

O movimento de Durov se insere numa tendência mais ampla: grandes plataformas de tecnologia integrando funcionalidades financeiras diretamente em seus produtos. A Meta tentou algo semelhante com o projeto Libra (depois rebatizado para Diem), mas recuou diante de pressão regulatória em 2022. O X (antigo Twitter) de Elon Musk também sinalizou interesse em pagamentos e serviços financeiros, como analisamos na cobertura de finanças.

A diferença é que o Telegram opera com uma estrutura corporativa mais enxuta e menos exposta à pressão de reguladores americanos. A empresa está sediada em Dubai, e Durov historicamente se posiciona como defensor da privacidade e da descentralização.

Se a carteira realmente alcançar escala, o impacto sobre o ecossistema cripto seria substancial. Hoje, a MetaMask, uma das carteiras de autocustódia mais populares, tem cerca de 30 milhões de usuários ativos mensais. O Telegram estaria, em tese, multiplicando essa base por mais de 30 vezes.

O ceticismo é justificável. Anúncios grandiosos no setor cripto frequentemente resultam em entregas menores. Mas a combinação de base de usuários massiva, integração nativa e o histórico de Durov em construir produtos de comunicação de escala global faz desse projeto um dos mais relevantes a se acompanhar nos próximos meses. A execução dirá se é revolução ou apenas mais uma promessa ambiciosa no universo cripto.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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