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Cartas de Pokémon viram febre em plataformas cripto de apostas

Plataformas cripto de abertura de pacotes de Pokémon explodiram em popularidade, movimentando milhões de dólares com mecânicas que reguladores podem classificar como jogos de azar.

Cartas de Pokémon viram febre em plataformas cripto de apostas
Foto: Caleb Oquendo / Unsplash

Existe algo irresistível em abrir um pacote lacrado de cartas Pokémon. A incerteza, a dopamina da possibilidade de encontrar uma carta rara, a satisfação visual do momento. Agora imagine esse ritual amplificado por transmissões ao vivo, mecânicas de cassino e pagamentos em criptomoedas. É exatamente isso que uma nova geração de plataformas está fazendo, e o mercado está respondendo com milhões de dólares em volume.

Plataformas como Lootmon, Pokéslabs e PokeRev transformaram a abertura de pacotes de cartas colecionáveis em um espetáculo digital que mistura nostalgia com a adrenalina de jogos de azar. Os usuários pagam, muitas vezes com criptomoedas, para assistir alguém abrir pacotes reais em transmissão ao vivo. Se a carta revelada for valiosa, o comprador pode ficar com ela ou vendê-la de volta à plataforma por um valor em dinheiro. Se não for, o dinheiro se foi.

Como funcionam as plataformas de abertura de pacotes cripto

O modelo é engenhosamente simples. O usuário escolhe um pacote disponível na plataforma, paga um valor fixo (que pode variar de US$ 5 a centenas de dólares) e assiste à abertura em tempo real via câmera. A carta revelada passa por uma avaliação baseada em preços de mercado. Se valer mais do que o preço pago, o usuário lucra. Se valer menos, fica com uma carta de menor expressão ou simplesmente absorve o prejuízo.

A Lootmon, uma das maiores do segmento, processou mais de US$ 70 milhões em transações desde seu lançamento, segundo dados compilados pelo Decrypt. A plataforma aceita pagamentos em Ethereum e Solana, além de métodos tradicionais. O volume disparou em 2026, acompanhando tanto a alta dos mercados cripto quanto o ressurgimento da nostalgia por colecionáveis dos anos 1990 e 2000.

Esse modelo se conecta a uma tendência mais ampla no ecossistema cripto, onde a fronteira entre entretenimento digital e especulação financeira fica cada vez mais difusa.

A linha tênue entre colecionismo e jogo de azar

A questão central que paira sobre esse mercado é regulatória. Na prática, pagar por um resultado incerto com expectativa de retorno financeiro é a definição textual de aposta. Nos Estados Unidos, o debate ganhou tração depois que a Federal Trade Commission começou a examinar modelos de “loot box” em videogames. Plataformas de abertura de pacotes físicos com componente financeiro representam uma extensão natural dessa discussão.

No Reino Unido, a Gambling Commission já sinalizou que modelos de pacotes aleatórios podem se enquadrar nas leis de jogos de azar quando envolvem prêmios com valor monetário. Austrália e Bélgica adotaram posições ainda mais restritivas.

O uso de criptomoedas adiciona outra camada de complexidade. Ao aceitar pagamentos em cripto, essas plataformas operam frequentemente fora do radar de reguladores financeiros tradicionais. Não há exigência de KYC (verificação de identidade) em muitas delas, o que levanta preocupações sobre acesso de menores de idade, dado que o público-alvo natural de Pokémon inclui adolescentes e jovens adultos.

Como já analisamos em matérias sobre regulação de novos produtos financeiros, a velocidade de inovação nesses mercados supera consistentemente a capacidade de resposta dos órgãos reguladores.

Por que Pokémon e por que agora

O mercado de cartas colecionáveis Pokémon vive um segundo renascimento. Após o boom pandêmico de 2020-2021, quando cartas raras chegaram a ser leiloadas por centenas de milhares de dólares, o mercado corrigiu. Mas a partir de 2025, os preços voltaram a subir de forma consistente. Um Charizard holográfico da primeira edição, que chegou a valer US$ 420 mil em 2022, recuou para cerca de US$ 200 mil e agora está novamente na faixa de US$ 300 mil, segundo dados da plataforma de referência PSA.

Essa recuperação coincide com fatores estruturais. A geração que cresceu com Pokémon nos anos 1990 agora tem entre 30 e 40 anos e poder aquisitivo para alimentar a nostalgia. Ao mesmo tempo, criadores de conteúdo no YouTube e Twitch transformaram aberturas de pacotes em entretenimento mainstream. Logan Paul comprou uma caixa selada de primeira edição por US$ 3,5 milhões em 2021 e abriu ao vivo para milhões de espectadores. O formato virou um gênero próprio de conteúdo.

As plataformas cripto identificaram essa demanda e a industrializaram. Em vez de depender de um influenciador específico, qualquer pessoa pode participar da experiência de abrir pacotes remotamente, a qualquer hora, de qualquer lugar do mundo.

O papel das criptomoedas nesse ecossistema

Cripto não é apenas um método de pagamento nessas plataformas. É parte da infraestrutura. Algumas delas utilizam contratos inteligentes para garantir transparência no processo de abertura, registrando em blockchain qual carta foi revelada e qual era a probabilidade estatística daquele resultado. Isso resolve parcialmente o problema de confiança que existia em modelos anteriores de “mystery box” online, que frequentemente eram fraudulentos.

Outras plataformas vão além e tokenizam as próprias cartas, permitindo que os usuários negociem frações de cartas raras como se fossem ativos financeiros. Um Pikachu Illustrator, avaliado em mais de US$ 5 milhões, pode ser fracionado em milhares de tokens, cada um representando uma parcela de propriedade. É o mesmo conceito que já vimos aplicado a ativos do mundo real em protocolos de tokenização.

O volume mensal combinado dessas plataformas ultrapassou US$ 50 milhões em junho de 2026, um crescimento de mais de 300% em relação ao mesmo período do ano anterior. Boa parte desse capital vem de carteiras cripto, o que dificulta o rastreamento por autoridades fiscais.

Riscos que o investidor precisa conhecer

Por mais atraente que seja a mecânica, os riscos são significativos. Primeiro, a assimetria de informação: as plataformas conhecem exatamente a composição dos pacotes e as probabilidades de cada carta. O usuário, não. Segundo, a liquidez das cartas físicas é imprevisível. Uma carta avaliada em US$ 500 hoje pode valer metade em seis meses se o mercado colecionável corrigir novamente.

Terceiro, e talvez mais importante, existe o risco regulatório. Se autoridades como a SEC ou a CVM classificarem essas plataformas como operadoras de jogos de azar ou como ofertantes de valores mobiliários não registrados, os usuários podem perder acesso a fundos ou enfrentar consequências legais dependendo da jurisdição.

No Brasil, a legislação sobre jogos de azar online ainda está em consolidação. A Lei 14.790/2023 regulamentou apostas esportivas, mas modelos híbridos como abertura de pacotes com criptomoedas permanecem em uma zona cinzenta que o Ministério da Fazenda ainda não endereçou de forma específica.

Nostalgia como ativo financeiro

O fenômeno das cartas Pokémon em plataformas cripto é um sintoma de algo maior: a transformação da nostalgia em classe de ativo. Cartas colecionáveis, videogames retrô, tênis vintage e memorabilia cultural estão sendo financeirizados em velocidade sem precedentes. A infraestrutura cripto, com sua capacidade de fracionar propriedade, automatizar transações e operar globalmente sem intermediários, é o veículo perfeito para essa tendência.

A pergunta que fica é se os reguladores vão tratar esse mercado como entretenimento, como investimento ou como jogo de azar. A resposta provavelmente será: depende da jurisdição. E essa incerteza, por si só, já é um risco que vale mais do que qualquer carta rara escondida em um pacote lacrado.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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