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Bitcoin entre os 10% mais descontados da história: hora de comprar?

Com queda superior a 50% da máxima histórica, indicadores on-chain colocam o bitcoin em zona rara de desconto. Entenda o que está por trás da correção e por que os fundamentos seguem intactos.

Bitcoin entre os 10% mais descontados da história: hora de comprar?
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O bitcoin acumula uma queda superior a 25% em 2026 e negocia mais de 50% abaixo da máxima histórica de US$ 126 mil, registrada em outubro de 2025. Números que, isoladamente, assustam. Mas um relatório recente do BTG Pactual apresenta uma leitura diferente: segundo os analistas do banco, o ativo está entre os 10% dos momentos mais descontados de toda a sua série histórica, considerando um conjunto de indicadores on-chain e técnicos.

A conclusão não é de que o fundo já chegou. A leitura é mais sutil. O que os dados sugerem é uma divergência rara entre preço e fundamentos, algo que, historicamente, precedeu retornos mais atrativos para quem acumulou o ativo com paciência.

Três forças que derrubaram o preço do bitcoin

A correção do bitcoin não aconteceu no vácuo. De acordo com a análise, três fatores combinados explicam boa parte da pressão vendedora dos últimos meses.

O primeiro foi a migração massiva de capital para o setor de inteligência artificial. O avanço acelerado da IA fez investidores concentrarem recursos em ações de tecnologia, reduzindo a alocação em ativos alternativos. E o efeito não atingiu apenas criptoativos. O IGV, maior ETF de software do segmento, recuou cerca de 37% das máximas. ETFs de ouro e prata também sofreram resgates relevantes, com quedas de aproximadamente 30% e 50%, respectivamente. Como já analisamos em matérias anteriores sobre a dinâmica do mercado cripto, o bitcoin raramente cai sozinho em ciclos de aversão a risco.

O segundo fator foi o enfraquecimento dos compradores recorrentes. Os ETFs de bitcoin nos Estados Unidos, que acumularam US$ 35,2 bilhões em entradas em 2024 e mais US$ 21,4 bilhões em 2025, viram o fluxo se inverter com força. Somente em junho de 2026, os resgates líquidos atingiram US$ 4,51 bilhões, o maior volume mensal da história. No acumulado do primeiro semestre, as retiradas somaram US$ 5,46 bilhões.

Empresas que compravam bitcoin para suas tesourarias também reduziram o ritmo. A queda das ações dessas companhias dificultou novas captações, e os instrumentos de financiamento preferenciais passaram a negociar abaixo do valor de referência. Como detalhamos em nossa cobertura de finanças, o ciclo vicioso entre preço do ativo e capacidade de captação é um dos mecanismos mais subestimados do mercado.

O terceiro vetor é o cenário macroeconômico. Com a perspectiva de juros mais elevados nos Estados Unidos, o custo de oportunidade de manter ativos que não geram fluxo de caixa aumentou consideravelmente. Bitcoin, ouro e prata foram todos pressionados pela mesma lógica.

Por que os fundamentos permanecem intactos

O ponto central da análise é que nenhum dos três fatores que explicam a queda diz respeito à estrutura do bitcoin ou do mercado de ativos digitais. Os pilares da tese de investimento seguem de pé.

O argumento estrutural mais robusto continua sendo o risco de perda gradual do poder de compra das moedas fiduciárias. Desde 2008, e de forma mais acentuada após 2020, a resposta padrão a choques econômicos tem envolvido redução artificial de juros, expansão da base monetária e aumento dos balanços de bancos centrais. São medidas que podem estabilizar a economia no curto prazo, mas que reforçam a preocupação com a preservação do poder de compra no longo prazo.

A tese também se conecta ao ambiente geopolítico recente. O congelamento de cerca de US$ 300 bilhões em reservas russas e as restrições ao Irã demonstraram que ativos podem ser bloqueados dependendo da jurisdição de custódia. Esse debate adicionou uma camada geopolítica à tese monetária do bitcoin.

Não à toa, governos começaram a levar o ativo a sério. Os Estados Unidos formalizaram a criação de uma reserva estratégica com status de ativo de segurança nacional. El Salvador mantém política de acumulação desde 2021. Paquistão, Butão e República Tcheca já anunciaram ou discutem iniciativas semelhantes, em estágios distintos de maturidade. Para quem acompanha o tema de regulação e adoção institucional de criptomoedas, o padrão é claro: a infraestrutura avança independentemente do preço.

A infraestrutura cresce enquanto o preço cai

Outro dado que reforça a desconexão entre preço e fundamentos: o mercado de stablecoins atingiu aproximadamente US$ 311,5 bilhões em valor de mercado, alta de cerca de 23% em 12 meses. A tokenização de ativos reais também segue em expansão.

Esse tipo de crescimento estrutural durante uma correção severa de preços é um sinal que investidores experientes aprenderam a observar. Quando a infraestrutura se fortalece enquanto o preço cai, a divergência tende a se resolver em favor de quem acumulou.

A recomendação dos analistas é clara em um ponto: não se trata de tentar identificar o fundo exato. O momento favorece acumulação gradual, não aposta concentrada em um ponto de inflexão. A diferença é relevante. Quem tenta acertar o fundo exato frequentemente erra. Quem acumula de forma disciplinada em zonas historicamente descontadas costuma capturar o grosso do movimento de recuperação.

O que o investidor deve observar daqui para frente

Três variáveis merecem atenção nas próximas semanas. A primeira é o fluxo dos ETFs americanos. Se os resgates desacelerarem, o pior da pressão vendedora pode ter ficado para trás. A segunda é o comportamento do dólar e dos juros americanos. Qualquer sinalização de corte de juros pelo Federal Reserve tende a beneficiar ativos escassos como o bitcoin. A terceira é a continuidade da adoção institucional e soberana, que funciona como um piso estrutural para o preço no longo prazo.

A história do bitcoin é marcada por correções brutais seguidas de recuperações que surpreenderam até os otimistas. Não há garantia de que dessa vez será igual. Mas os indicadores que sustentam a tese de acumulação estão entre os mais favoráveis já registrados. Para quem tem horizonte de longo prazo e tolerância à volatilidade, ignorar esse tipo de dado pode custar caro.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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