Finanças

Bolsas asiáticas desabam até 6,5% com sell-off de IA

Liquidação global de ações ligadas à inteligência artificial arrastou mercados asiáticos na sexta-feira. Taiwan liderou as perdas com queda de 6,47%.

Bolsas asiáticas desabam até 6,5% com sell-off de IA
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

A sexta-feira (17) foi de pânico nos mercados asiáticos. Uma onda de vendas concentrada em ações de semicondutores e empresas ligadas à inteligência artificial varreu as principais bolsas da região, com quedas que não se viam desde abril de 2025 em alguns índices. O epicentro foi Taiwan, mas o estrago se espalhou por Tóquio, Xangai e Hong Kong.

O movimento não surgiu do nada. Ele reflete um questionamento cada vez mais vocal entre investidores institucionais: a tese de IA justifica os valuations que o mercado precificou nos últimos dois anos? E, mais importante, o que acontece quando a maior fabricante de chips do mundo anuncia US$ 100 bilhões em novos investimentos e o mercado responde com uma queda de 7% em suas ações?

Taiwan liderou o tombo com TSMC em queda de 7,29%

O índice Taiex despencou 6,47%, fechando a 42.671 pontos. O gatilho imediato foi o anúncio da TSMC, maior fabricante de semicondutores por contrato do planeta, de que pretende investir mais US$ 100 bilhões para expandir capacidade nos Estados Unidos.

Em teoria, mais investimento deveria ser positivo. Na prática, o mercado leu o movimento de outra forma. Expandir fábricas nos EUA implica custos de produção significativamente maiores do que em Taiwan. A margem da TSMC, uma das mais altas do setor, pode ser comprimida justamente no momento em que investidores começam a questionar se a demanda por chips de IA será sustentável no ritmo atual.

A ação da TSMC caiu 7,29% em um único pregão. Para uma empresa que vale centenas de bilhões de dólares, isso representa uma destruição de valor expressiva. E o sinal é claro: o mercado está reavaliando se os gastos massivos em infraestrutura de IA terão retorno proporcional.

Tóquio e o contágio nos fabricantes de equipamentos

O Nikkei recuou 4,03%, fechando a 64.141 pontos. As perdas foram concentradas no setor de tecnologia. A Tokyo Electron, que fabrica equipamentos usados na produção de chips, caiu 8,17%. A Advantest, especializada em equipamentos de teste de semicondutores, cedeu 7,20%.

O caso mais emblemático foi o da SoftBank, que desabou 9,01%. O conglomerado de Masahiro Son tem apostado pesadamente em IA, com investimentos bilionários em startups e infraestrutura. Uma queda dessa magnitude sugere que o mercado está punindo justamente as empresas com maior exposição à tese.

Como já analisamos em matérias sobre o cenário macroeconômico global, a correlação entre mercados asiáticos e Wall Street tem se intensificado. A sessão negativa nas bolsas de Nova York na véspera, puxada por tecnologia, criou o ambiente perfeito para o sell-off asiático.

China registrou maior queda diária desde abril de 2025

Na China continental, o Xangai Composto caiu 3,05%, a 3.764 pontos. Mas o destaque negativo ficou com o Shenzhen Composto, que recuou 5,25% e registrou sua maior queda diária desde abril de 2025. Shenzhen, conhecida como o polo tecnológico chinês, concentra empresas de hardware, semicondutores e tecnologia, o que explica a intensidade do movimento.

Em Hong Kong, o Hang Seng perdeu 1,78%, fechando a 24.562 pontos. A queda menor reflete a composição do índice, que tem peso relevante de bancos e imobiliárias, setores menos expostos à tese de IA. Na Oceania, o S&P/ASX 200 australiano caiu 0,50%, a 8.796 pontos.

A Coreia do Sul, que tem sido o mercado mais volátil da região em meio às incertezas sobre IA, estava fechada por feriado. O pregão de reabertura será acompanhado de perto, considerando que a Samsung e a SK Hynix, gigantes de memória, são componentes centrais do índice Kospi.

O que está por trás da reavaliação da tese de IA

A pressão sobre ações de IA não começou agora. Há meses, o mercado debate se os valuations atingidos por fabricantes de chips, provedores de infraestrutura e empresas de software de IA são compatíveis com a realidade dos lucros.

O argumento otimista sempre foi que a demanda por processadores e memória de alta performance seria insaciável, sustentada pela corrida de big techs para treinar modelos cada vez maiores. E, de fato, os resultados trimestrais da Nvidia, da TSMC e de outras empresas do setor validaram parcialmente essa tese ao longo dos últimos trimestres.

Mas há sinais de fadiga. A taxa de crescimento da receita de data centers começou a desacelerar em algumas empresas. Clientes corporativos estão questionando o retorno sobre investimento de projetos de IA. E a escalada de tensões comerciais entre EUA e China adiciona uma camada de risco geopolítico que não existia quando a tese foi precificada.

Para quem acompanha o setor de tecnologia e seus reflexos no mercado financeiro, a dinâmica é familiar. Ciclos de hype tecnológico historicamente passam por fases de euforia, reavaliação e eventual maturação. A questão é se estamos entrando na fase de reavaliação ou se isso é apenas uma correção saudável dentro de uma tendência de alta estrutural.

O que isso significa para investidores brasileiros

O investidor brasileiro que tem exposição a ETFs de tecnologia global, BDRs de semicondutores ou fundos com alocação em Ásia precisa acompanhar de perto. A queda de 6,47% em Taiwan em um único dia é o tipo de evento que testa a convicção de qualquer tese de investimento.

Além disso, o sell-off asiático costuma reverberar nos pregões seguintes de Nova York e, por consequência, no Ibovespa. Empresas brasileiras expostas à cadeia de tecnologia e setores sensíveis ao apetite por risco global podem sentir o impacto nos próximos dias.

O dado mais relevante para acompanhar agora é a reação do mercado americano no pregão seguinte. Se Wall Street absorver a queda sem pânico, a leitura é de correção técnica. Se o contágio se aprofundar, especialmente em nomes como Nvidia e AMD, o cenário muda de patamar. O sell-off asiático colocou a pergunta no centro do debate: a revolução da IA já está no preço?

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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