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Ether cai o dobro do bitcoin: o que os chips dizem sobre cripto

Selloff em semicondutores na Ásia derrubou o mercado cripto na sexta. O ETH perdeu 4% contra 2% do BTC, e os dados on-chain ainda não confirmam reversão.

Ether cai o dobro do bitcoin: o que os chips dizem sobre cripto
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

A sexta-feira trouxe uma lição desconfortável para quem acredita que o mercado cripto se movimenta de forma independente das bolsas tradicionais. Uma liquidação agressiva nas ações de semicondutores na Ásia derrubou praticamente todos os ativos digitais relevantes, com o ether caindo o dobro do bitcoin. O gatilho não veio de nenhuma blockchain ou protocolo DeFi. Veio de fábricas de chips no Japão e em Taiwan.

O ETH recuou 4%, negociado a US$ 1.850, enquanto o bitcoin perdeu 2% e ficou na casa dos US$ 63.400. O token HYPE, da Hyperliquid, foi o mais punido: desabou 10% no dia e acumula queda de 12% na semana, o pior desempenho desde junho. Solana recuou 2%, XRP cedeu 2%, BNB perdeu 2% e até a dogecoin acompanhou o movimento negativo.

Semicondutores derrubaram tudo: entenda o contágio

O índice MSCI Asia Pacific recuou 3%, caminhando para o menor fechamento em dois meses. O Nikkei 225, principal índice do Japão, despencou 5% na pior sessão desde março. A Taiwan Semiconductor registrou a maior queda diária desde abril de 2025, e a japonesa Kioxia chegou a tombar 16% durante o pregão.

O movimento é um espelho invertido do que aconteceu na semana anterior. Na sexta-feira passada, o bitcoin subiu 4% no mesmo dia em que o Kospi sul-coreano saltou 8% e a SK Hynix precificou US$ 26,5 bilhões em ADRs nos Estados Unidos. O que alimentou o rali de chips alimentou o rali cripto. Agora, o mercado questiona se o rali de inteligência artificial foi longe demais, rápido demais. E a resposta está chegando pelo preço das ações de semicondutores, não por nenhum indicador on-chain.

Esse tipo de correlação não é novidade. Como já exploramos em análises anteriores sobre o mercado cripto, ativos de risco tendem a se mover juntos em momentos de aversão generalizada. A diferença desta vez é a intensidade: o ether caiu proporcionalmente mais que o próprio Nikkei.

ETFs de ether atraíram US$ 97 milhões, mas não seguraram o preço

O dado mais revelador da semana é que os ETFs spot de ether nos Estados Unidos captaram quase US$ 97 milhões nos três primeiros dias úteis, mais do que o total acumulado na semana anterior. Os fundos da BlackRock responderam por praticamente toda a entrada de capital.

Mesmo assim, essa demanda institucional não foi suficiente para impedir que o ether caísse mais forte que o bitcoin quando o sentimento mudou. A mesa de balcão (OTC) da Wintermute descreveu a semana como “consolidação abaixo da resistência, não continuação”, destacando que os volumes spot recuaram em vez de aumentar conforme os preços se aproximavam das máximas.

Isso sugere que o fluxo dos ETFs, por mais expressivo que seja em termos absolutos, ainda não tem escala para contrabalancear uma onda de venda macro. Quem acompanha o desempenho dos ETFs e sua influência no mercado financeiro sabe que fluxo institucional costuma ser mais lento e direcionado. Ele sustenta tendências de médio prazo, mas raramente segura quedas de curto prazo causadas por choques externos.

Métricas on-chain não confirmam reversão de tendência

Outro ponto de atenção: os indicadores on-chain da Glassnode ainda não confirmam uma reversão clara do ciclo. O índice Fear and Greed, que mede o sentimento do mercado cripto, permanece em 25, patamar classificado como “medo extremo”.

O bitcoin falhou duas vezes ao tentar romper os US$ 65.000 nesta semana. Esse nível funciona como uma resistência técnica relevante e, enquanto não for superado com volume, o mercado permanece em modo de espera. Como discutimos em nossas análises sobre o comportamento do bitcoin, falhas consecutivas em resistências costumam preceder movimentos de correção mais amplos ou longos períodos de lateralização.

Vale destacar que o bitcoin, mesmo caindo, foi o ativo que melhor se comportou entre as principais criptomoedas. A perda de 2% no dia e de apenas 1% na semana reforça a tese de que, em momentos de estresse, o BTC funciona como o “porto menos inseguro” dentro do universo cripto.

Petróleo sobe 12% na semana e reacende temor inflacionário

Enquanto os ativos de risco derretiam, o petróleo Brent fez o caminho oposto. A commodity saltou para cerca de US$ 85 o barril, acumulando alta de 12% na semana, o melhor desempenho semanal desde abril. O motivo: escalada das hostilidades envolvendo o Irã e redução do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo mundial.

Os ataques americanos contra o Irã já somam cinco dias consecutivos. Esse cenário geopolítico reacende preocupações inflacionárias que os dados econômicos de terça-feira, mais comportados, haviam ajudado a acalmar. Para o mercado cripto, inflação mais alta por mais tempo significa juros elevados por mais tempo, o que historicamente pressiona ativos sem geração de caixa.

Em paralelo, os volumes de negociação em exchanges centralizadas subiram pela primeira vez em cinco meses em junho. O volume spot avançou 15,3%, alcançando US$ 1,11 trilhão, enquanto os volumes de contratos perpétuos de ativos do mundo real (RWA) atingiram um recorde de US$ 311 bilhões. Esse aumento de atividade, como analisamos em nosso acompanhamento do setor financeiro, indica que os participantes do mercado estão mais ativos, mas não necessariamente mais otimistas.

O que isso significa para quem investe em cripto

A principal conclusão desta semana é que o mercado cripto segue preso entre dois vetores. De um lado, há fluxo institucional consistente (ETFs, volumes crescentes em exchanges). De outro, o ambiente macro não colabora: semicondutores em correção, petróleo em alta e sentimento de medo dominando.

O ether, apesar da queda de sexta, ainda é o único ativo relevante que termina a semana no positivo, com ganho de 4% em sete sessões. Mas a fragilidade revelada pela correlação com chips mostra que essa alta tem pouca convicção por trás.

Para o investidor, o cenário pede cautela. As métricas on-chain não sinalizam acumulação agressiva, o Fear and Greed está em território de medo extremo, e o bitcoin não consegue sustentar avanços acima de US$ 65.000. Não é momento de pânico, mas também não é momento de euforia. É momento de observar se o fluxo dos ETFs ganha tração suficiente para mudar o humor do mercado ou se a correção em semicondutores vai se aprofundar e arrastar tudo junto.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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