Bitcoin a US$ 38 mil? O que o ciclo de quatro anos diz sobre a queda atual
Relatório institucional aponta que queda de 54% do Bitcoin não é suficiente para encerrar o ciclo. Padrão histórico sugere fundo próximo de US$ 38 mil em outubro.
O Bitcoin é negociado na faixa dos US$ 64.150 após acumular uma queda de 54,3% em relação ao topo histórico. Para boa parte do mercado, o tombo já parecia suficiente para caracterizar o fundo do ciclo. Mas um relatório da NYDIG, empresa especializada em serviços financeiros institucionais com foco em Bitcoin, argumenta que a história conta outra coisa.
Segundo a análise, o modelo do ciclo de quatro anos, que se repetiu com notável consistência em 2014, 2018 e 2022, aponta para uma mínima entre US$ 38 mil e US$ 39 mil no início de outubro. O padrão exigiria uma queda de aproximadamente 70% e cerca de 370 dias de retração. Atualmente, o mercado estaria no dia 268 desse processo.
Ou seja: se a lógica dos ciclos anteriores prevalecer, o Bitcoin ainda teria cerca de 100 dias de pressão vendedora pela frente. E uma queda adicional de quase 40% em relação aos níveis atuais.
Por que 54% de queda pode não ser o suficiente
Nos dois ciclos anteriores, o Bitcoin registrou quedas de pico a vale na ordem de 77% (2018) e 83% (2014). Em 2022, o recuo foi de cerca de 77%, com o fundo em novembro daquele ano. Há um padrão de fundos progressivamente menos profundos, o que tornaria uma queda de 70% a expectativa mais provável para o ciclo atual.
O relatório destaca que muitos analistas apostavam que o ciclo de quatro anos não se repetiria desta vez. A chegada dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos e a adoção institucional crescente eram apontados como fatores que mudariam a dinâmica. A realidade, porém, tem sido diferente, como temos acompanhado na cobertura de criptomoedas do portal.
Os ETFs de Bitcoin registraram saídas líquidas de US$ 4,9 bilhões no segundo trimestre de 2026. Em vez de funcionar como colchão de demanda, os fundos se tornaram um canal adicional de pressão vendedora. O mercado à vista também mostra fraqueza, com pouca entrada de capital novo.
Strategy virou vendedora e mudou a narrativa
Um dos pontos mais relevantes do relatório é a mudança de postura da Strategy, a empresa de Michael Saylor que se tornou sinônimo de acumulação agressiva de Bitcoin. A companhia, que chegou a ser o maior motor de demanda institucional, realizou duas vendas recentes de parte de suas reservas.
A NYDIG observa que as chamadas DATs (empresas de tesouraria de criptomoedas) passaram coletivamente de compradoras líquidas a vendedoras líquidas no trimestre. Esse é um dado que importa porque, como analisamos anteriormente sobre reservas estratégicas, a tese de acumulação corporativa era um dos pilares da narrativa de alta para este ciclo.
Se a empresa que prometia “nunca vender” está vendendo, o sinal é claro: a pressão de caixa e as condições macroeconômicas pesam mais do que convicções públicas.
Política monetária e liquidez: o pano de fundo macro
O desempenho do Bitcoin no primeiro semestre de 2026 ficou próximo ao do ouro. Segundo a análise da NYDIG, isso se deve às expectativas de uma política monetária mais restritiva, mesmo diante da alta nas bolsas e de avanços regulatórios no setor cripto.
A nomeação de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve foi inicialmente vista como positiva para o mercado de ativos digitais. Warsh é considerado simpático ao Bitcoin. Mas desde que assumiu, a criptomoeda caiu da faixa dos US$ 80 mil para os US$ 60 mil. A interpretação é que o compromisso de Warsh com o combate à inflação pesou mais do que qualquer inclinação pessoal favorável a ativos de risco.
As stablecoins, termômetro de liquidez no mercado cripto, contraíram cerca de US$ 11 bilhões no período. Menos dólares digitais circulando significa menos capital disponível para comprar Bitcoin no mercado à vista, como detalhamos nesta análise sobre o papel das stablecoins.
O que define o próximo capítulo: Clarity Act e janela legislativa
O relatório identifica a aprovação do Clarity Act como o fator potencialmente mais relevante para o Bitcoin no segundo semestre. O projeto de lei busca criar um arcabouço regulatório claro para criptomoedas nos Estados Unidos, algo que o mercado demanda há anos.
O problema é o calendário. A janela legislativa efetiva do Senado americano vai de 13 de julho a 7 de agosto, seguida por um recesso até 14 de setembro. Depois disso, a política eleitoral de meio de mandato tende a travar qualquer projeto controverso até novembro.
Se o Clarity Act não avançar nessa janela curta, o mercado perde um dos poucos catalisadores positivos no horizonte. E o modelo de ciclo de quatro anos ganha mais argumentos.
Riscos adicionais: liquidações e computação quântica
A NYDIG alerta para a combinação de open interest elevado nos mercados de derivativos com funding rates positivos. Na prática, isso significa que muitos traders estão posicionados na compra com alavancagem. Se a demanda no mercado à vista continuar fraca, o risco de um movimento de queda impulsionado por liquidações em cascata cresce consideravelmente.
Outro ponto levantado, ainda que de prazo mais longo, são os avanços na computação quântica. O risco imediato para a criptografia do Bitcoin é considerado limitado, mas a discussão tende a ganhar corpo conforme a tecnologia evolui, adicionando uma camada de incerteza narrativa ao mercado.
Conflitos geopolíticos no Oriente Médio e a postura do Fed em relação à liquidez global completam o quadro. Nenhum desses fatores isoladamente define o preço do Bitcoin, mas juntos formam um ambiente que historicamente não favorece ativos de risco. Para quem acompanha o mercado, o modelo de ciclo de quatro anos é mais do que uma curiosidade estatística. É um lembrete de que, em cripto, a história nem sempre rima, mas costuma repetir a cadência.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.