Reino Unido reúne BlackRock e JP Morgan em força-tarefa de tokenização
Governo britânico lança iniciativa com mais de 50 gigantes financeiros para tokenizar mercados atacadistas. Estimativa aponta impacto de US$ 88 trilhões até 2035.
O Tesouro britânico acaba de montar o que pode ser a maior coalizão institucional já formada em torno da tokenização de ativos financeiros. Mais de 50 instituições, entre elas BlackRock, Goldman Sachs, HSBC, JP Morgan, Morgan Stanley e UBS, integram uma força-tarefa dedicada a levar a tecnologia para os mercados atacadistas do Reino Unido.
O grupo, apoiado pela City of London Corporation, terá um ano para desenvolver casos de uso reais em mercados financeiros britânicos. O foco inicial será o chamado repo tokenizado, operação compromissada que movimenta trilhões diariamente no sistema financeiro global e que funciona como espinha dorsal da liquidez entre instituições.
A iniciativa é liderada por Chris Woolard, veterano de oito anos à frente da Financial Conduct Authority (FCA) e agora nomeado pelo Tesouro como “Campeão de Mercados Digitais Atacadistas”. Seu primeiro relatório foi endereçado diretamente ao próximo Chanceler do Exchequer, sinalizando que o tema é tratado como política de Estado.
Por que o Reino Unido está correndo atrás da tokenização
Os números do relatório de Woolard ajudam a explicar a urgência. A previsão é de que a tokenização gere até 33 bilhões de libras (cerca de US$ 44 bilhões) em aumento de produção econômica anual e 14 bilhões de libras em receita tributária adicional até 2035. Para uma economia que busca se reposicionar após o Brexit, esses valores não são triviais.
O cenário global reforça a aposta. Segundo estimativa da Boston Consulting Group (BCG), o mercado de ativos reais tokenizados (RWA) pode alcançar US$ 88 trilhões até 2035. Para se ter dimensão, o mercado combinado de criptomoedas e stablecoins hoje gira em torno de US$ 3 trilhões. Estamos falando de uma expansão da ordem de 30 vezes sobre a base atual.
Woolard foi direto ao descrever o desafio. Mercados tokenizados são “um jogo de rede”, e a posição do Reino Unido nesse jogo não está garantida. “Como todo jogo de rede, é uma corrida, e o Reino Unido precisa se mover na velocidade dos jogadores mais ágeis se quiser ter participação no desenvolvimento da abordagem para mercados internacionais”, afirmou no relatório.
Como discutimos em nossa cobertura sobre o avanço da tokenização globalmente, a disputa entre jurisdições para atrair a infraestrutura de ativos digitais está se intensificando. Estados Unidos e União Europeia também avançam com seus próprios marcos regulatórios e pilotos institucionais.
O gargalo que pode travar tudo: infraestrutura de pagamentos
Reunir nomes como BlackRock e Goldman Sachs numa mesa não resolve automaticamente o problema mais complexo da tokenização: a infraestrutura que conecta esses ativos ao sistema financeiro existente.
Kirit Bhatia, diretor de ativos digitais da Banking Circle, apontou o desafio central. Ativos tokenizados precisam ser financiados, liquidados, usados como colateral e transferidos entre diferentes redes. “Mercados tokenizados vão precisar de infraestrutura de pagamento que suporte liquidação em tempo real, movimentação transfronteiriça, múltiplas formas de dinheiro regulado e interoperabilidade entre stablecoins, depósitos tokenizados e trilhos fiduciários existentes”, explicou.
O alerta é relevante: sem essa camada de conexão, ativos digitais correm o risco de serem “mais rápidos nas bordas, mas ainda limitados pela estrutura legada por baixo”. Esse é o paradoxo que o mercado financeiro tradicional enfrenta ao tentar incorporar blockchain sem reconstruir toda a sua base operacional.
No repo tradicional, uma instituição empresta títulos em troca de dinheiro por prazo curto, geralmente overnight. A tokenização promete reduzir o tempo de liquidação, eliminar intermediários e permitir operações 24 horas por dia, sete dias por semana. Mas isso exige que todos os participantes da cadeia operem sobre padrões compatíveis.
O que muda na prática para o mercado de ativos reais
O momento é favorável para a tese de tokenização. Os volumes de negociação em exchanges centralizadas subiram pela primeira vez em cinco meses em junho, com o mercado spot avançando 15,3%, para US$ 1,11 trilhão. Os volumes de contratos perpétuos atrelados a ativos reais (RWA) atingiram recorde de US$ 311 bilhões, indicando que a demanda institucional por exposição a esse segmento está crescendo rapidamente.
A iniciativa britânica se diferencia de esforços anteriores por três motivos. Primeiro, o envolvimento direto do Tesouro Nacional, e não apenas do regulador. Segundo, a presença simultânea dos maiores gestores, bancos de investimento e custodiantes do mundo. Terceiro, o foco em casos de uso concretos com prazo definido, não em documentos conceituais.
Para o investidor que acompanha o universo cripto e de ativos digitais, o recado é claro: a tokenização deixou de ser uma narrativa de nicho. Quando BlackRock, Goldman Sachs e JP Morgan sentam na mesma mesa com o governo de uma das maiores praças financeiras do mundo para discutir implementação real, o mercado de RWA está entrando em uma fase diferente.
O que isso significa para quem investe
A corrida entre jurisdições para atrair a infraestrutura de tokenização tem implicações diretas para a alocação de capital nos próximos anos. Se o Reino Unido conseguir criar um ambiente regulatório funcional para repos tokenizados, outras classes de ativos tendem a seguir: títulos de dívida, ações, fundos imobiliários e commodities.
A estimativa de US$ 88 trilhões da BCG pode parecer ambiciosa, mas considera que praticamente qualquer ativo financeiro pode ser representado em blockchain. O tamanho do mercado global de renda fixa sozinho supera US$ 130 trilhões. A questão não é se a tokenização vai acontecer, mas onde e sob quais regras.
Para o Brasil, que tem avançado com iniciativas do Banco Central como o Drex, a movimentação britânica serve como referência e pressão competitiva. Praças financeiras que definirem os padrões técnicos e regulatórios primeiro terão vantagem desproporcional num mercado que, por natureza, premia efeitos de rede.
A força-tarefa britânica tem um ano para apresentar resultados. Nesse prazo, veremos se a tokenização de mercados atacadistas sai do PowerPoint para o sistema financeiro real.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.