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Porto Sudeste: o M&A de US$ 5 bi que atrai BlackRock e Vale

Mubadala e Trafigura vendem o Porto Sudeste em negócio estimado em US$ 5 bi. BlackRock, Vale, Gerdau e Stonepeak disputam o ativo de infraestrutura no Rio.

Porto Sudeste: o M&A de US$ 5 bi que atrai BlackRock e Vale
Foto: Wolfgang Weiser / Unsplash

Um terminal portuário que nasceu da ambição de Eike Batista e sobreviveu à derrocada do empresário está prestes a protagonizar uma das maiores transações de infraestrutura do Brasil nos últimos anos. O Porto Sudeste, localizado em Itaguaí, na Baía de Sepetiba, caminha para ser vendido em um negócio da ordem de US$ 5 bilhões, atraindo alguns dos maiores nomes do mercado global de investimentos.

Os atuais controladores, o fundo soberano de Abu Dhabi Mubadala Capital e a trading suíça Trafigura, já recebem propostas vinculantes ainda neste mês. Do outro lado da mesa, dois consórcios disputam o ativo: de um lado, a Global Infrastructure Partners (GIP), controlada pela BlackRock, aliada a Vale e Gerdau; do outro, a gestora americana Stonepeak, com a australiana M Resources.

A transação está sendo assessorada por Goldman Sachs, UBS e Bradesco BBI. O valor envolvido a coloca entre os maiores negócios de fusões e aquisições do setor de infraestrutura no país em 2025.

Por que o Porto Sudeste vale US$ 5 bilhões

O terminal tem capacidade total para movimentar até 50 milhões de toneladas por ano em granéis sólidos e líquidos. Hoje, opera com aproximadamente metade dessa capacidade. Mesmo assim, a expectativa é que o porto gere mais de US$ 300 milhões em EBITDA neste ano, o que sustenta o múltiplo implícito na faixa de 15 a 17 vezes o lucro operacional.

O carro-chefe da operação é o minério de ferro. O porto está conectado a Minas Gerais por meio da Ferrovia do Aço, uma vantagem logística difícil de replicar. Para produtoras como Vale e Gerdau, garantir acesso a essa rota de escoamento é uma questão estratégica, não apenas financeira.

Além disso, o Porto Sudeste está investindo na ampliação de sua capacidade operacional para atender o setor de petróleo e gás, o que adiciona uma camada de diversificação ao ativo. Como detalhamos em nossa cobertura de finanças e investimentos, ativos de infraestrutura com múltiplas verticais de receita tendem a atrair múltiplos mais elevados.

Quem está na disputa e o que cada grupo quer

O primeiro consórcio reúne três nomes de peso. A GIP, adquirida pela BlackRock em 2024, já tem presença consolidada no Brasil. A gestora ampliou seus investimentos no país com participações na Aligned (data centers) e na Aliança, geradora de energia renovável na qual se tornou sócia da própria Vale. Também opera no setor de energia renovável por meio da Atlas Renewable, com usinas eólicas e solares na América Latina.

Para a Vale, a lógica é garantir flexibilidade logística. A companhia já é a maior produtora de minério de ferro do mundo, e controlar rotas alternativas de escoamento é parte da estratégia de otimização de custos. A Gerdau, por sua vez, busca integração vertical: assegurar que sua matéria-prima chegue ao mercado sem gargalos.

Do outro lado, a Stonepeak, gestora americana com US$ 88 bilhões sob gestão e foco exclusivo em infraestrutura e ativos reais, já demonstrou apetite pelo Brasil. Em janeiro, a empresa anunciou a compra de 25% da participação da CMA CGM no Tecon Santos, parte de uma transação global de US$ 2,4 bilhões envolvendo dez terminais portuários. A parceria com a M Resources, que atua em commodities na Austrália, sugere um modelo de operação voltado ao mercado transpacífico de minério.

O apetite estrangeiro por infraestrutura brasileira

A disputa pelo Porto Sudeste não é um caso isolado. O Brasil vive um ciclo de entrada massiva de capital estrangeiro em ativos de infraestrutura. Rodovias, ferrovias, portos e energia renovável estão no radar de fundos soberanos, gestoras de private equity e grandes corporações internacionais.

Os motivos são conhecidos: retornos atrativos em dólar, escala de mercado e uma agenda regulatória que, apesar das críticas, tem avançado em marcos de saneamento, ferrovias e portos. Como analisamos em nossa seção de finanças, o fluxo de investimento direto estrangeiro para infraestrutura no Brasil atingiu patamares recordes nos últimos trimestres.

A presença da BlackRock, por meio da GIP, é simbólica. A maior gestora de ativos do mundo, com mais de US$ 10 trilhões sob gestão, está sinalizando que o risco-país brasileiro é aceitável para apostas de longo prazo em ativos reais. Isso tende a puxar outros investidores institucionais para o mercado.

De Eike Batista ao Mubadala: a trajetória do ativo

O Porto Sudeste foi concebido originalmente para escoar a produção da MMX, mineradora do grupo EBX de Eike Batista. Com a implosão do conglomerado em 2013, o ativo ficou nas mãos do Mubadala Capital em uma operação de troca de dívida por participação acionária.

A Trafigura entrou no projeto para alavancar os investimentos necessários à inauguração, que aconteceu em 2015. Ao longo de uma década, as duas empresas investiram na operação, ampliaram a ocupação do terminal e transformaram o que era um projeto problemático em um ativo gerador de caixa relevante.

Agora, com o EBITDA acima de US$ 300 milhões e perspectivas de crescimento via petróleo e gás, decidiram realizar o ganho. A decisão de vender em 2025, em um momento de forte demanda global por infraestrutura logística, parece calculada para maximizar o retorno.

O que muda para o investidor brasileiro

Se o consórcio liderado pela GIP, Vale e Gerdau levar o ativo, o impacto mais direto será sobre a cadeia de mineração e logística brasileira. A Vale ganharia mais controle sobre sua cadeia de distribuição, o que pode pressionar concorrentes menores. Para acionistas da Gerdau, o movimento reforça a tese de integração vertical que o mercado vem precificando.

Para o investidor que acompanha oportunidades em infraestrutura, o recado é claro: o Brasil está no mapa dos grandes alocadores globais. Transações como essa validam a tese de que ativos reais no país oferecem retornos competitivos frente a mercados desenvolvidos, especialmente em um cenário de juros globais ainda elevados.

As propostas vinculantes devem chegar até o final deste mês. O desfecho dessa disputa vai dizer muito sobre o próximo ciclo de investimentos em infraestrutura no país.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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