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Stablecoins perdem US$ 10 bi desde maio: o que isso sinaliza

O recuo de 3% no valor de mercado das stablecoins é o maior desde 2023, mas está longe do colapso de 26% visto em 2022. Entenda o que mudou no cenário.

Stablecoins perdem US$ 10 bi desde maio: o que isso sinaliza
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

O mercado de stablecoins registrou em junho a maior retração mensal em valor absoluto desde maio de 2022, quando o colapso do ecossistema Terra-Luna inaugurou o chamado inverno cripto. Foram US$ 7,7 bilhões a menos na capitalização total em um único mês. Desde o pico atingido em maio de 2026, a queda acumulada já alcança cerca de US$ 10 bilhões, segundo dados da RWA.xyz.

Em termos percentuais, porém, o recuo é de aproximadamente 3%, o maior desde 2023, mas incomparável com os 26% de destruição de valor observados durante o bear market de 2022. A diferença de escala importa. E muito.

USDT e USDC puxam a retração

Os dois maiores emissores de stablecoins responderam pela maior parte da queda. O USDT, da Tether, viu sua capitalização cair de cerca de US$ 190 bilhões em maio para US$ 184 bilhões, uma perda de US$ 6 bilhões. O USDC, da Circle, recuou de quase US$ 80 bilhões em março para aproximadamente US$ 73 bilhões, um encolhimento de US$ 7 bilhões.

São números expressivos isoladamente, mas que ganham outra dimensão quando comparados ao que aconteceu no ciclo anterior. Entre março de 2022 e setembro de 2023, a capitalização combinada das principais stablecoins despencou de US$ 166 bilhões para US$ 122 bilhões. O USDT caiu de US$ 78 bilhões para US$ 65 bilhões em poucos meses. O USDC sofreu ainda mais, derretendo de US$ 55 bilhões para menos de US$ 24 bilhões, agravado pela falência do Silicon Valley Bank em março de 2023.

Naquele período, o colapso do TerraUSD, a stablecoin algorítmica do projeto Terra-Luna, eliminou sozinho US$ 18 bilhões do mercado. Nada parecido está acontecendo agora.

Por que a queda importa para o mercado cripto

Stablecoins funcionam como a principal moeda de cotação para negociação de criptoativos e, cada vez mais, para pagamentos e liquidações. Quando a oferta agregada encolhe, a liquidez disponível no ecossistema cripto diminui. Menos liquidez significa menos combustível para sustentar ralis de preço.

O mercado de ativos digitais acumula três trimestres consecutivos de perdas no segundo trimestre de 2026, a sequência negativa mais longa desde o bear market de 2022. Parte do capital institucional migrou para ações de inteligência artificial, enquanto os ETFs de Bitcoin registraram a maior saída trimestral de recursos desde o seu lançamento. A retração nas stablecoins é, nesse contexto, mais sintoma do que causa.

Como analisamos anteriormente sobre os ciclos do mercado cripto, os períodos de contração na oferta de stablecoins historicamente coincidem com fases de consolidação ou queda nos preços dos criptoativos. A correlação não é perfeita, mas o padrão se repete.

Um recuo semelhante já aconteceu meses atrás

Entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, a oferta de stablecoins caiu cerca de US$ 9 bilhões antes de se recuperar e atingir nova máxima. Naquele mesmo intervalo, o bitcoin despencou de aproximadamente US$ 95 mil para US$ 60 mil, em uma das correções mais intensas do ciclo.

No quadro mais amplo, o mercado de stablecoins está essencialmente estagnado ao redor de US$ 300 bilhões desde outubro de 2025, quando o bitcoin atingiu a marca recorde de US$ 126 mil. Antes disso, o segmento havia mais que dobrado de tamanho em dois anos. A desaceleração coincide com um mercado que perdeu impulso comprador.

Novos concorrentes mudam a dinâmica

Parte da história não aparece nos números agregados. Enquanto USDT e USDC encolhem, emissores menores ganham terreno. O Global Dollar (USDG), emitido pela Paxos com apoio de um consórcio que inclui a Robinhood, ultrapassou US$ 3,2 bilhões em circulação. O USDGO, emitido pela Anchorage Digital em parceria com o grupo OSL de Hong Kong, quase dobrou para US$ 900 milhões.

Projetos como o OpenUSD, apoiado por um grupo de empresas de pagamentos e serviços financeiros, estão na fila para desafiar a hegemonia do duopólio Tether-Circle. O avanço regulatório, como a aprovação do GENIUS Act nos Estados Unidos, abriu espaço para novos participantes que miram não apenas o trading cripto, mas o mercado de pagamentos em escala global.

Essa fragmentação pode explicar parte do recuo nos números dos líderes sem que haja necessariamente uma fuga de capital do ecossistema como um todo. A evolução regulatória das stablecoins está redistribuindo participação de mercado, não apenas destruindo valor.

O que esperar daqui para frente

Analistas do mercado veem o recuo como parte da volatilidade normal de um segmento que segue em tendência de crescimento no longo prazo. Paul Howard, diretor sênior da firma de trading Wincent, afirmou que “flutuações de curto prazo na liquidez são normais e não mudam a visão de que stablecoins terão papel cada vez mais relevante no ecossistema de ativos digitais”.

As projeções dos grandes bancos globais reforçam esse ponto. O Citi revisou no ano passado sua estimativa para o mercado de stablecoins em 2030 para US$ 1,9 trilhão no cenário base e US$ 4 trilhões no cenário otimista. O Standard Chartered projeta US$ 2 trilhões já em 2028. Se qualquer uma dessas projeções se confirmar, o patamar atual de US$ 300 bilhões representaria menos de um sexto do potencial.

Para quem investe em cripto, o sinal é claro: a retração nas stablecoins tira um vento de cauda importante no curto prazo. Sem expansão na oferta de liquidez on-chain, os criptoativos precisam de catalisadores externos para retomar trajetória de alta. Enquanto isso, o mercado consolida perto das mínimas de 2026, à espera de um novo ciclo de entrada de capital.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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