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Haddad ataca Selic a 14,25%: o que muda no debate fiscal

Ex-ministro da Fazenda critica manutenção da Selic elevada e diz que juros, não o gasto público, são o principal fator de endividamento do Estado brasileiro.

Haddad ataca Selic a 14,25%: o que muda no debate fiscal
Foto: Daniel Dan / Unsplash

Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, reabriu nesta sexta-feira um debate que divide economistas há décadas: quem é o vilão das contas públicas brasileiras, o gasto ou o juro? Para Haddad, a resposta é clara. A Selic a 14,25% ao ano, segundo ele, “cria um problema desnecessário” e é o principal motor do endividamento do Estado.

A declaração foi feita durante entrevista ao programa No Osso, do grupo Derrubando Muros. Haddad afirmou que a taxa básica não precisava ter chegado a 15% no ano passado e que o Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de cortes antes. São, nas palavras dele, suas duas principais objeções à condução da política monetária.

“Você não tem como fazer um superávit primário que compense essa taxa de juros. Vai matar as pessoas para pagar essa taxa de juros”, disse o ex-ministro. A frase sintetiza um argumento que ganha força em setores do governo e de parte do mercado: com o custo da dívida consumindo parcela crescente do Orçamento, o esforço fiscal se torna insuficiente por definição.

O peso dos juros sobre a dívida pública brasileira

Os números ajudam a entender o ponto de Haddad, ainda que não resolvam a discussão. Com a Selic em 14,25%, o custo nominal da dívida pública brasileira ultrapassa R$ 900 bilhões anuais, segundo estimativas do Tesouro Nacional. Para efeito de comparação, todo o orçamento federal com saúde gira em torno de R$ 200 bilhões. Em termos de PIB, a despesa com juros nominais já supera 7%, patamar que coloca o Brasil entre os países que mais gastam com serviço da dívida no mundo.

O argumento fiscal, porém, tem outra face. Economistas ligados ao mercado financeiro e ao próprio Banco Central sustentam que a Selic elevada é consequência, não causa, do desequilíbrio fiscal. Nessa leitura, a expansão de gastos públicos e a percepção de risco fiscal pressionam as expectativas de inflação, forçando o BC a manter juros restritivos por mais tempo. Como explicamos nesta análise sobre o cenário macroeconômico brasileiro, a relação entre política fiscal e monetária é circular, e atribuir culpa a um único fator costuma simplificar a dinâmica real.

Superávit prometido e o contexto histórico

Haddad também destacou que, pela primeira vez em muitos anos, o presidente Lula encaminhará ao Congresso uma proposta de Orçamento com superávit primário ao fim do mandato. Segundo o ex-ministro, isso não ocorre desde o segundo governo Lula. Os mandatos de Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro não deixaram previsões orçamentárias superavitárias para seus sucessores.

O dado merece contexto. O Brasil registrou superávits primários consistentes entre 2003 e 2013, período que coincidiu com o boom de commodities e permitiu a redução da relação dívida/PIB. A partir de 2014, com a recessão e a política de desonerações do governo Dilma, o país entrou em uma sequência de déficits primários que só foi interrompida pontualmente. O arcabouço fiscal aprovado em 2023 tentou restabelecer uma trajetória de equilíbrio, mas o cumprimento das metas tem sido questionado por analistas que acompanham a execução orçamentária de perto.

Para Haddad, a continuidade do saneamento fiscal iniciado entre 2023 e 2026, período em que ele comandou a Fazenda, poderá “permitir uma mudança radical na política monetária após as eleições”. Em outras palavras: se o governo entregar resultados fiscais razoáveis, o próximo ciclo de Selic poderá ser estruturalmente mais baixo.

O que o mercado pensa sobre a tese de Haddad

A reação do mercado a declarações como essa tende a ser cética. A curva de juros futuros, principal termômetro das expectativas, segue precificando Selic acima de 13% para o fim do ano, segundo dados da B3. O boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com economistas, projeta inflação acima da meta para os próximos 12 meses, o que teoricamente justifica a manutenção de juros restritivos.

Há, contudo, uma parcela relevante de gestores e economistas que concorda parcialmente com Haddad. O argumento é que o Banco Central pode ter errado no timing, mantendo juros elevados por tempo excessivo e gerando um custo fiscal que retroalimenta o próprio problema que tenta resolver. Essa visão ganhou adeptos após o ciclo de aperto monetário que levou a Selic a 15%, considerado por alguns analistas como excessivo diante dos indicadores de atividade econômica à época.

O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, já havia levantado tese semelhante em artigos acadêmicos: juros altos demais podem, paradoxalmente, piorar a dinâmica fiscal e inflacionária ao elevar o custo da dívida e reduzir o crescimento econômico. A discussão está longe de ter consenso, mas o fato de um ex-ministro da Fazenda e provável candidato a governador de São Paulo adotá-la como bandeira política mostra que o tema ganhou tração fora dos departamentos de economia.

E daí? O que isso significa para quem investe

Para o investidor, a declaração de Haddad importa menos pelo conteúdo técnico e mais pelo sinal político. Se o PT levar a bandeira anti-Selic alta para a campanha de 2026, o debate sobre autonomia do Banco Central voltará ao centro da disputa eleitoral. Isso pode gerar volatilidade adicional nos ativos brasileiros, especialmente nos juros longos e no câmbio.

No curto prazo, nada muda. O Banco Central segue operando de forma autônoma, e o Copom decide a Selic com base em modelos técnicos, não em pressão política. Mas o investidor atento sabe que a política monetária não existe em um vácuo. O próximo presidente do BC será indicado pelo governo eleito em 2026, e o tom do debate atual antecipa o tipo de pressão que a instituição pode enfrentar.

Enquanto isso, a renda fixa brasileira segue oferecendo retornos reais acima de 7% ao ano em títulos longos do Tesouro, um patamar que atrai capital estrangeiro e remunera bem o investidor local. A pergunta que o mercado se faz é até quando esses retornos serão sustentáveis, e se o custo para a economia real já não ultrapassou o benefício de manter a inflação sob controle.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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