Inadimplência pressiona bancos no 2T26: quem sai ganhando
Com 83,5 milhões de negativados e renda comprometida em 30%, o setor bancário entra no 2T26 sob pressão. Itaú e XP lideram as apostas do mercado.
O segundo trimestre de 2026 mal terminou e o mercado já sabe qual será o tema dominante nas teleconferências de resultados dos bancos brasileiros: a qualidade dos ativos. Dados do Banco Central apontam piora nas métricas de inadimplência até maio, e relatórios de grandes casas de análise convergem num diagnóstico preocupante. O Brasil é, neste momento, o mercado latino-americano com os sinais mais evidentes de deterioração do crédito.
Mas nem todo banco sofre da mesma forma. Enquanto os grandes incumbentes mostram resiliência, bancos digitais e novos entrantes enfrentam um cenário mais adverso. Essa distinção é o que separa vencedores de perdedores nesta temporada de balanços.
83,5 milhões de negativados e renda comprometida perto de 30%
Os números são pesados. O total de consumidores negativados no Brasil atingiu cerca de 83,5 milhões, segundo estimativas de mercado. O comprometimento da renda das famílias permanece próximo de 30%, um patamar historicamente elevado que reflete o acúmulo de endividamento num ambiente de juros altos por mais tempo.
Esse cenário se traduz diretamente em pressão sobre as linhas de crédito mais sensíveis ao ciclo econômico. Consignado privado e empréstimos pessoais são os segmentos que mais preocupam. Novos casos de crédito corporativo problemático também adicionam ruído às perspectivas do setor.
Para efeito de comparação, bancos de México, Peru e Colômbia apresentam indicadores de inadimplência, formação de novos créditos problemáticos e volumes de baixas contábeis significativamente menores do que os observados no Brasil. O custo de risco dos bancos brasileiros segue como um dos mais elevados da América Latina.
Itaú segue como aposta principal entre os bancões
Entre os grandes bancos tradicionais, o Itaú (ITUB4) continua sendo o nome mais citado como favorito por casas de análise de primeira linha. A expectativa é de mais um trimestre consistente, com deterioração limitada da inadimplência em relação aos concorrentes diretos.
As projeções apontam lucro de aproximadamente R$ 12,6 bilhões no segundo trimestre e ROE ao redor de 25%. Esse desempenho é sustentado por uma combinação de crescimento de receitas, controle rigoroso de custos e qualidade de crédito superior à média do setor. O preço-alvo projetado por analistas de mercado é de R$ 51 para dezembro de 2027.
O Santander Brasil (SANB11) aparece como outra aposta relevante entre os grandes bancos privados, com preço-alvo de R$ 44 e potencial de valorização expressivo em relação aos níveis atuais. O Bradesco (BBDC4), por sua vez, se beneficia de uma melhora gradual da lucratividade e de uma valuation considerada atrativa, com preço-alvo de R$ 24 e classificação de compra por parte de analistas.
O ponto comum entre esses três nomes é que, como destacamos em análises anteriores sobre o setor financeiro, os grandes incumbentes têm conseguido atravessar o período sem aumento relevante do custo de risco. A escala, a diversificação de carteira e o colchão de capital fazem diferença.
Nubank: Desenrola pode ser o catalisador
O Nubank (ROXO34) ocupa uma posição curiosa neste ciclo. Por um lado, sua forte exposição ao público de baixa e média renda o coloca no epicentro das preocupações com inadimplência. Por outro, é justamente essa exposição que pode transformá-lo em um dos principais beneficiários do programa Desenrola.
Analistas de mercado avaliam que o novo programa de renegociação de dívidas pode aliviar parte das pressões recentes sobre a inadimplência da fintech, com possível recuperação das margens ajustadas ao risco nos próximos trimestres. A recomendação de compra se mantém, com preço-alvo de US$ 16,90.
Já o Inter (INBR32) enfrenta um momento mais delicado. A instituição apresentou deterioração em praticamente todos os indicadores de qualidade de ativos no primeiro trimestre. Ainda assim, analistas argumentam que parte desse cenário já está precificada nas ações e mantêm recomendação de compra, com preço-alvo de US$ 9,40. É o típico caso em que o mercado tenta antecipar a inflexão antes que ela aconteça.
XP e BTG: a via defensiva no setor financeiro
Para quem busca exposição ao setor financeiro sem carregar o risco de crédito nos ombros, XP (XPBR31) e BTG Pactual (BPAC11) aparecem como alternativas mais defensivas. Ambas as companhias tendem a sofrer menos com as discussões sobre inadimplência, já que suas receitas dependem mais de mercado de capitais e gestão de patrimônio do que de concessão de crédito.
A XP é apontada como a principal escolha para o trimestre, com lucro projetado de R$ 1,35 bilhão e preço-alvo de US$ 25. O potencial de ganho de participação de mercado e a perspectiva de melhora no ambiente para investimentos à medida que o ciclo de juros avançar sustentam a tese. Embora a atividade de emissão de ações e dívida deva permanecer mais fraca no período, o impacto é considerado gerenciável.
O BTG projeta lucro de R$ 4,9 bilhões no segundo trimestre, com níveis elevados de rentabilidade. A diferença é que a visão de mercado é mais cautelosa: a recomendação é neutra, com preço-alvo de R$ 59. A leitura é que boa parte do valor já está no preço.
O que importa para o investidor neste ciclo
A temporada do 2T26 reforça uma tendência que vem se desenhando há trimestres: a separação cada vez mais nítida entre bancos que controlam seu custo de risco e aqueles que não conseguem. Em um país com 83,5 milhões de negativados e juros estruturalmente altos, essa capacidade de gestão é o que define quem entrega retorno sobre patrimônio de 25% e quem vê suas margens comprimidas.
Para o investidor, o recado é claro. Os bancões tradicionais, liderados pelo Itaú, seguem como porto mais seguro. As plataformas de mercado de capitais, como XP e BTG, oferecem uma via alternativa de exposição ao setor com menor risco de crédito. E os bancos digitais vivem um momento binário: o Desenrola pode ser o divisor de águas entre recuperação e aprofundamento da deterioração.
Os resultados começam a sair nas próximas semanas. Os números de inadimplência no segundo trimestre serão o dado mais observado pelo mercado. E a distância entre os vencedores e os perdedores do setor tende a ficar ainda mais evidente.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
Tags