Mag 7 ficam para trás: o que explica a rotação nas big techs
As sete gigantes da tecnologia sobem apenas 1,1% no ano, enquanto o setor de semicondutores caminha para seu melhor ano desde 1999. Entenda a rotação.
Durante anos, apostar nas sete maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos era quase sinônimo de apostar no próprio mercado de ações americano. As chamadas Magnificent Seven, formadas por Nvidia, Alphabet, Apple, Microsoft, Amazon, Meta e Tesla, concentram cerca de um terço do peso do S&P 500 e quase 37% do Nasdaq 100. Mas em 2026, algo mudou de forma significativa.
Enquanto o Nasdaq 100 acumula alta de quase 18% no ano e o S&P 500 avança 10%, o índice que agrupa as Mag 7 subiu apenas 1,1%. A correlação de 40 dias entre o grupo e o Nasdaq 100, que em abril ultrapassava 0,95, caiu para menos de 0,7, o menor nível desde 2017. Em termos práticos, as gigantes deixaram de ser o motor do mercado.
Por que os investidores estão abandonando as Mag 7
O ceticismo crescente tem um endereço claro: os gastos massivos com inteligência artificial. Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta estão acelerando seus investimentos de capital de forma agressiva, o que pressiona os fluxos de caixa sem que haja visibilidade concreta sobre o retorno desses aportes. Como destacou Brian Barbetta, co-chefe da equipe de tecnologia da Wellington Management, “o Mag 7 costumava ser um dos poucos lugares onde se podia obter rendimentos muito superiores aos do mercado de forma confiável. Agora, as pessoas estão mais focadas em motivos para não gostarem deles”.
O caso da Meta ilustra bem a frustração. Mark Zuckerberg teria admitido em reunião interna que o desenvolvimento do agente de IA da companhia “não acelerou da maneira esperada”. A empresa estaria até avaliando criar um negócio de infraestrutura em nuvem para vender capacidade computacional ociosa. Quando uma empresa precisa revender poder de processamento que comprou para si mesma, o mercado interpreta como sinal de alocação questionável de capital.
A Microsoft, por sua vez, acumula queda de 20% no ano, com junho representando seu pior mês desde 2000. A combinação de gastos agressivos com IA e a percepção de vulnerabilidade do seu negócio de software a novas tecnologias criou uma tempestade perfeita contra a ação. Para quem acompanha o mercado financeiro global, o movimento é revelador sobre como ciclos de investimento em infraestrutura podem destruir valor antes de criá-lo.
Os novos vencedores da corrida da IA
Se as big techs que financiam a infraestrutura de IA perdem brilho, quem fabrica os componentes dessa infraestrutura vive um momento de euforia. O Índice de Semicondutores da Bolsa de Filadélfia acumula alta de 82% em 2026, a caminho de seu melhor ano desde 1999, vindo do melhor trimestre da história. Fabricantes de chips de memória como Micron Technology e Sandisk estão no topo da lista.
O raciocínio é direto: enquanto Microsoft e Meta gastam dezenas de bilhões sem garantia de retorno, empresas como a Micron vendem os componentes que tornam essa corrida possível. Seus lucros crescem mais rápido, suas revisões de estimativas são mais positivas e o risco de execução é significativamente menor. É a velha lógica da corrida do ouro aplicada à era da inteligência artificial: quem vende picaretas costuma se dar melhor do que quem cava.
Os fluxos de capital confirmam a narrativa. Em junho, investidores retiraram 786 milhões de dólares do ETF Roundhill Magnificent Seven, o maior resgate já registrado no fundo. No mesmo período, o ETF Roundhill Memory recebeu 9,3 bilhões de dólares em aportes. Segundo estrategistas do Deutsche Bank, o posicionamento em big techs era “extremo” no final de maio, mas retornou a uma postura mais neutra.
Nvidia perde o posto de referência em IA
Talvez o dado mais surpreendente dessa rotação envolva a Nvidia, que durante dois anos foi praticamente sinônimo de investimento em inteligência artificial. Em 2026, a empresa acumula ganho de apenas 4,9%, tornando-se a terceira pior ação do índice de referência de semicondutores. O setor avança sem ela, algo impensável doze meses atrás.
Dentro do próprio grupo das Mag 7, o desempenho é desigual. Três ações sobem no ano, com a Alphabet liderando graças à percepção de que pode se tornar a grande vencedora na monetização de IA. As demais patinham ou recuam. A dispersão de resultados dentro do grupo é outro sinal de que tratar as sete como bloco homogêneo já não faz sentido.
Para quem investe em mercados globais, essa dinâmica tem implicações concretas. ETFs e fundos indexados ao S&P 500 continuam carregando exposição massiva a essas empresas. Se a rotação se aprofundar, o índice pode subir enquanto as maiores posições dos investidores brasileiros em bolsa americana ficam para trás. Como analisamos em matérias sobre correlação entre ativos globais, entender essas mudanças de liderança é fundamental para calibrar a alocação de portfólio.
A rotação veio para ficar?
Nem todos estão convencidos de que o movimento é permanente. Nikolaos Panigirtzoglou, estrategista do JPMorgan, argumenta que a lacuna entre big techs e semicondutores será reduzida à medida que os provedores de IA começarem a demonstrar melhorias concretas em monetização, receitas e lucros. Em algum momento, os trilhões investidos em infraestrutura precisam gerar retorno, e quando isso acontecer, a lógica se inverte novamente.
Por outro lado, sinais de desaceleração no próprio setor de semicondutores começam a aparecer. Após uma alta de 82%, a sustentabilidade do rali depende de demanda contínua por chips de memória em ritmo que justifique as avaliações atuais. Se o ciclo de gastos com IA arrefecer, mesmo os vendedores de picaretas sentirão o impacto.
O que o cenário atual deixa claro é que a narrativa de IA está longe de acabar, mas seus beneficiários estão mudando. O mercado está fazendo uma distinção que não fazia antes: entre quem gasta com IA e quem lucra com IA. Para o investidor, a lição é que concentração excessiva em qualquer grupo de ações, por mais dominante que pareça, carrega riscos que só ficam evidentes quando a maré vira.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.