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Bitcoin estável após venda de US$ 216 mi: o que dizem os derivativos

Bitcoin absorveu a maior venda de BTC da Strategy sem perder os US$ 63 mil. Dados de derivativos sugerem que o mercado pode estar precificando o pior cenário.

Bitcoin estável após venda de US$ 216 mi: o que dizem os derivativos
Foto: DS stories / Unsplash

O bitcoin tentou romper os US$ 64 mil na madrugada de terça-feira, recuou e se acomodou na faixa dos US$ 63.170. O movimento, aparentemente irrelevante em termos de variação diária, carrega uma informação mais interessante do que o preço em si: o mercado absorveu a maior venda de BTC já realizada pela Strategy sem quebrar a estrutura de recuperação iniciada após a mínima de US$ 58 mil no fim de junho.

A Strategy vendeu 3.588 bitcoins por aproximadamente US$ 216 milhões, a operação mais expressiva desde que a empresa abandonou sua postura declarada de nunca vender. E o mercado simplesmente não se importou.

O que a venda da Strategy revela sobre a liquidez atual

Quando uma empresa que construiu parte de sua identidade corporativa em torno do acúmulo de bitcoin decide liquidar uma posição relevante, o natural seria esperar pressão vendedora. Mas o contexto importa mais do que o fato isolado.

O bitcoin encerrou o primeiro semestre com queda de aproximadamente 20%, incluindo o primeiro fechamento semanal abaixo da média móvel de 200 semanas desde 2023. Para quem acompanha o mercado cripto, essa média é tratada como uma linha divisória entre ciclos de alta e de baixa de longo prazo.

A queda até US$ 58 mil representou uma mínima de 21 meses. O fato de o preço ter se recuperado para a faixa dos US$ 63 mil, acumulando alta de 6% na semana, mesmo diante de uma venda institucional relevante, sugere que a pressão vendedora encontrou demanda suficiente para ser absorvida.

CME e opções apontam para exaustão vendedora

Yusuf Fakhro, sócio da ARP Digital, ofereceu uma leitura menos óbvia da situação. Segundo ele, o interesse em aberto nos futuros de bitcoin da CME atingiu a mínima de 32 meses, e a estrutura a termo está no nível mais comprimido desde o início de 2023.

Traduzindo: os grandes participantes institucionais praticamente saíram do mercado. E quando a participação institucional encolhe dessa forma, historicamente o que se segue é uma redistribuição de posições que antecede movimentos direcionais relevantes.

O dado mais revelador, no entanto, vem do mercado de opções. O skew de seis meses, que mede quanto os traders estão dispostos a pagar por proteção contra queda, disparou para o quarto nível mais alto já registrado. Os únicos paralelos foram junho e novembro de 2022, ambos períodos que antecederam fundos relevantes de ciclo.

Como Fakhro colocou, quando o seguro contra queda fica caro demais, é porque o mercado já está pagando para se proteger de algo que pode já ter sido precificado. É o tipo de dinâmica que investidores de mercados tradicionais reconhecem bem: pessimismo extremo tende a ser mais indicador de fundo do que de início de derrocada.

O risco geopolítico que pode mudar a equação

Enquanto os derivativos sugerem exaustão vendedora, o cenário macro adicionou uma variável nova. Um navio carregado de gás natural liquefeito foi atingido por um projétil na região do Estreito de Hormuz, perto da costa de Omã. O Brent reagiu com alta de 0,6%, para US$ 72,45 o barril.

Esse tipo de evento não é abstrato para o mercado cripto. Os choques energéticos ligados ao conflito com o Irã foram um dos principais motores de venda de ativos de risco no primeiro semestre. A trégua firmada no fim de junho havia aliviado essa pressão, mas um novo incidente coloca em xeque a durabilidade do acordo.

Na Ásia, as bolsas refletiram o nervosismo. O Kospi da Coreia do Sul caiu 6,7%, puxado por ações de tecnologia. A Samsung recuou 8,3% mesmo após reportar salto nos lucros trimestrais. O descolamento é notável: durante boa parte do ano, a fraqueza das ações de IA e semicondutores arrastou o mercado cripto junto. Nesta semana, pela primeira vez, bitcoin e ações de tecnologia se moveram em direções opostas.

Recuperação ou armadilha: o que precisa acontecer

O ether se manteve próximo de US$ 1.770, com alta de 11,6% na semana. XRP e Solana também preservaram ganhos semanais, cotados a US$ 1,13 e US$ 80, respectivamente. O conjunto do mercado mostrou estabilidade diária após liderar a recuperação nos dias anteriores.

A questão central agora é se a recuperação a partir dos US$ 58 mil se transforma em uma base sólida ou se evapora. Dois fatores serão determinantes nas próximas semanas.

O primeiro é o fluxo de ETFs de bitcoin à vista. Se os fundos negociados em bolsa nos Estados Unidos voltarem a registrar entradas líquidas consistentes, isso reforça a tese de que o mercado encontrou um piso. O segundo é o cenário geopolítico no Oriente Médio. Uma escalada no Estreito de Hormuz teria impacto direto nos preços de energia e, por consequência, no apetite por risco globalmente.

Os dados de derivativos pintam um quadro que favorece quem está posicionado para uma reversão. Mas a história do bitcoin também ensina que os sinais de fundo mais convincentes só são confirmados em retrospectiva. O que é possível afirmar, com os dados disponíveis, é que a estrutura do mercado mudou. O pessimismo deixou de ser uma tendência em formação e se tornou a posição dominante. E posições dominantes, por definição, tendem a estar mais perto do fim do que do começo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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