Criptomoedas

USDC domina 70% do volume de stablecoins e deixa USDT para trás

Dados da Visa mostram que o USDC da Circle respondeu por 70% do volume ajustado de stablecoins no primeiro semestre, enquanto o USDT da Tether caiu para 25%.

USDC domina 70% do volume de stablecoins e deixa USDT para trás
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

Em 2020, o USDT da Tether representava quase 90% de todo o volume ajustado de transações com stablecoins. O USDC da Circle mal passava de 10%. Seis anos depois, a relação se inverteu de forma estrutural. Dados do painel onchain da Visa mostram que o USDC respondeu por cerca de 70% do volume ajustado no primeiro semestre de 2026, contra apenas 25% do USDT.

A inversão não aconteceu da noite para o dia. Já em 2022, o USDC havia escalado para algo próximo de 45% do volume. Mas o salto recente tem raízes claras na adoção institucional, especificamente na preferência de bancos e instituições financeiras por uma stablecoin regulada e auditada como infraestrutura de pagamentos e liquidação.

Volume de stablecoins bate recorde em junho de 2026

Só em junho, o volume ajustado de transações com stablecoins atingiu US$ 1,79 trilhão, um recorde mensal. O número representa alta de 63% frente aos US$ 1,1 trilhão de maio e de 125% em relação aos US$ 795 bilhões de junho de 2025. Esses dados já excluem atividade de bots, transferências entre exchanges e outras transações que não refletem atividade econômica real.

No acumulado do primeiro semestre, o volume ajustado totalizou US$ 8,82 trilhões. Para efeito de comparação, todo o ano de 2024 registrou US$ 5,8 trilhões. O recorde anual pertence a 2025, com US$ 10,8 trilhões, mas o ritmo atual sugere que esse número será superado com folga até dezembro.

O crescimento exponencial reforça algo que já vem sendo acompanhado pela cobertura de criptomoedas da BlockTrends: stablecoins deixaram de ser apenas instrumentos de arbitragem em exchanges para se tornarem trilhos de pagamento com relevância sistêmica.

Por que o USDC ultrapassou o USDT em volume real

A explicação mais direta passa pela estratégia de distribuição da Circle. Enquanto a Tether historicamente dominou mercados emergentes e mesas de negociação cripto-nativas, a Circle apostou na conformidade regulatória como diferencial competitivo para atrair o sistema financeiro tradicional.

Essa aposta está colhendo resultados concretos. Grandes instituições como Standard Chartered e BNY passaram a utilizar o USDC em vez de construir infraestrutura própria para liquidação e operações de tesouraria. A decisão faz sentido econômico: integrar uma rede de stablecoin já estabelecida custa uma fração do desenvolvimento interno e entrega interoperabilidade imediata.

Essa movimentação reflete uma tendência mais ampla que analisamos na editoria de finanças: a infraestrutura cripto está sendo absorvida pelo sistema financeiro tradicional, não o contrário. Os bancos não estão entrando no mercado cripto. Estão usando ferramentas cripto para resolver problemas antigos de liquidação e pagamentos transfronteiriços.

O que a métrica de volume ajustado revela sobre adoção

Vale um parêntese sobre metodologia. A Visa calcula o volume ajustado removendo tudo que não constitui atividade econômica real: bots, transferências internas de exchanges, wash trading e movimentações de carteira para carteira sem contraparte comercial. Isso torna o indicador muito mais representativo do uso efetivo de stablecoins como meio de pagamento e liquidação.

Quando se olha o volume bruto, o USDT ainda domina, impulsionado pelo altíssimo giro em exchanges centralizadas, especialmente na Ásia. Mas o volume ajustado conta uma história diferente: a de que, no mundo dos pagamentos reais, da liquidação interbancária e das operações de tesouraria corporativa, o USDC se consolidou como padrão.

Essa distinção importa porque define quem captura o valor de longo prazo no mercado de stablecoins. Como discutimos em análises anteriores sobre tokenização, o verdadeiro prêmio está na camada de utilidade, não no volume especulativo.

O que isso significa para o investidor e o mercado

A ascensão do USDC como trilho preferencial do sistema financeiro tem implicações práticas. Para quem opera em DeFi, a liquidez e a composabilidade do USDC tendem a se aprofundar, especialmente em redes como Ethereum, Solana, Base e Arbitrum, onde a Circle já mantém emissão nativa.

Para o mercado mais amplo, a tendência sinaliza que a regulação favorável às stablecoins auditadas está funcionando como filtro de qualidade. A Circle publica atestações mensais de reservas com a Deloitte e mantém seus ativos em Treasuries e depósitos em bancos regulados nos Estados Unidos. Essa transparência, que durante anos foi vista como burocracia excessiva pelo mercado cripto-nativo, agora se converte em vantagem competitiva concreta.

A Tether, por sua vez, continua enormemente lucrativa e relevante, sobretudo em mercados onde a demanda por dólares digitais sem intermediário bancário é alta. Mas a fatia do volume real encolheu de 90% para 25% em seis anos. É uma mudança estrutural, não cíclica.

O semestre que redefiniu o mercado de stablecoins

Com US$ 8,82 trilhões movimentados em seis meses e adoção institucional acelerando, o primeiro semestre de 2026 consolidou as stablecoins como infraestrutura financeira, e não mais como nicho cripto. O fato de dois terços desse volume fluir pelo USDC indica que conformidade regulatória e transparência de reservas se tornaram os critérios decisivos para instituições que movimentam trilhões.

A pergunta que fica não é se stablecoins vão substituir trilhos tradicionais de pagamento. É quanto tempo levará até que os US$ 1,79 trilhão mensais de junho pareçam modestos.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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