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Apple e Broadcom renovam acordo de chips até 2031: o que muda

Acordo garante fornecimento de componentes sem fio e 5G por mais cinco anos. Entenda por que a Apple aposta em contratos longos com fabricantes de chips.

Apple e Broadcom renovam acordo de chips até 2031: o que muda
Foto: Tima Miroshnichenko / Unsplash

O que Apple e Broadcom acabaram de acertar

A Broadcom confirmou nesta segunda-feira a extensão de sua parceria com a Apple até 2031 para desenvolvimento e fornecimento de chips personalizados. O acordo cobre componentes de radiofrequência usados nos iPhones para conexão com redes celulares, além de chips de conectividade Wi-Fi e Bluetooth.

As ações da Broadcom subiam quase 4% nas negociações de pré-abertura após o anúncio. A reação do mercado não surpreende: a Apple responde por cerca de 20% da receita anual da fabricante de chips, o que faz da dona do iPhone uma das clientes mais relevantes do portfólio da Broadcom.

O novo contrato estende uma relação que já dura anos. Em 2023, as duas companhias haviam firmado um acordo avaliado em bilhões de dólares focado especificamente no desenvolvimento e fabricação de componentes de radiofrequência 5G. A renovação até 2031 amplia o escopo e o horizonte dessa colaboração.

Por que a Apple não fabrica tudo sozinha

A Apple é conhecida por internalizar competências. Desde 2020, a empresa vem substituindo processadores Intel por chips próprios da linha M nos Macs. Mais recentemente, desenvolveu o modem C1, seu primeiro chip de conectividade celular projetado internamente, reduzindo a dependência histórica da Qualcomm.

Mas existe uma diferença importante entre projetar processadores e dominar a cadeia de componentes de radiofrequência. Chips RF exigem expertise específica em engenharia analógica, um campo onde a Broadcom acumula décadas de vantagem competitiva. Não é o tipo de capacidade que se replica em dois ou três anos.

A decisão de estender o acordo até 2031 sugere que a Apple reconhece essa realidade. Mesmo com o modem C1 em produção, a empresa ainda depende da Broadcom para os componentes sem fio e de radiofrequência que permitem ao iPhone se conectar a redes 5G, Wi-Fi 7 e Bluetooth de última geração. Como abordamos na editoria de tecnologia do portal, a verticalização tem limites práticos, mesmo para empresas com o caixa da Apple.

A estratégia de contratos longos na cadeia de semicondutores

O acordo com a Broadcom faz parte de um padrão mais amplo. Nos últimos anos, a Apple firmou compromissos de longo prazo com diversos fabricantes de chips e componentes. O objetivo é garantir previsibilidade de fornecimento numa indústria que, desde 2020, vive ciclos de escassez e gargalos logísticos.

A pandemia expôs a fragilidade das cadeias globais de semicondutores. Montadoras, fabricantes de eletrônicos e até empresas de data centers enfrentaram meses de atrasos por falta de chips básicos. A Apple, apesar de seu poder de compra, não ficou imune. A escassez de componentes atrasou o lançamento de produtos e limitou volumes de produção em trimestres críticos.

Desde então, a lógica mudou. Contratos de cinco a dez anos se tornaram a norma entre grandes compradores e fornecedores de chips. A lógica financeira é dupla: o comprador garante acesso prioritário à capacidade de produção, e o fabricante ganha visibilidade de receita para justificar investimentos em novas fábricas e linhas de produção.

Para a Broadcom, reter a Apple como cliente de longo prazo é existencial. Perder 20% da receita anual de uma vez destruiria margens e forçaria uma reestruturação dolorosa. O acordo até 2031 remove esse risco do horizonte.

O papel dos chips personalizados na era da inferência de IA

Há outro fator por trás da renovação que merece atenção. O crescimento acelerado da inferência de inteligência artificial, o processo pelo qual modelos respondem em tempo real às consultas dos usuários, está transformando a demanda por chips especializados.

A Apple integrou recursos de IA generativa ao ecossistema do iPhone e do Mac ao longo dos últimos dois anos. Parte dessa computação acontece na nuvem, mas a tendência é rodar cada vez mais inferência diretamente no dispositivo, no chamado “edge computing”. Isso exige chips de conectividade mais rápidos e eficientes para garantir que o processamento local e a comunicação com servidores remotos funcionem sem latência perceptível.

A Broadcom é uma das poucas empresas no mundo com capacidade de desenvolver esses componentes sob medida, integrando conectividade sem fio de alta performance com requisitos específicos de eficiência energética que dispositivos móveis exigem. Como já analisamos sobre o futuro da computação com IA, a disputa por chips personalizados está se intensificando e deve continuar nos próximos anos.

O que isso significa para o investidor

Para quem acompanha o setor de semicondutores, o acordo reforça duas teses. Primeira: fabricantes de chips especializados com relacionamentos profundos junto a grandes clientes têm vantagem competitiva difícil de replicar. A Broadcom não é apenas uma fornecedora, é uma parceira de engenharia da Apple.

Segunda: a verticalização total na indústria de chips é um mito. Mesmo a empresa mais rica do planeta continua dependendo de parceiros para componentes críticos. Isso sustenta a relevância de empresas como Broadcom, TSMC e outras que dominam nichos específicos da cadeia.

A reação de quase 4% nas ações da Broadcom no pré-mercado mostra que o mercado enxerga valor concreto na previsibilidade de receita que um contrato desse porte oferece. Para a Apple, o benefício é menos visível no curto prazo, mas a garantia de acesso a componentes de ponta até 2031 reduz um dos maiores riscos operacionais da companhia.

Na prática, o acordo confirma que a guerra por semicondutores não se trava apenas nas fábricas, mas nos contratos de longo prazo que garantem acesso à capacidade produtiva antes mesmo de ela existir.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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