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Baleias compraram US$ 16,7 bi em bitcoin enquanto ETFs sangravam

Grandes detentores de bitcoin compraram 270 mil BTC em duas semanas, no mesmo período em que ETFs à vista nos EUA tiveram a pior saída mensal da história.

Baleias compraram US$ 16,7 bi em bitcoin enquanto ETFs sangravam
Foto: ema reynares / Unsplash

US$ 16,7 bilhões em duas semanas: o que as baleias estão vendo que os ETFs não

O mercado de bitcoin vive um daqueles momentos que dividem opiniões na mesa de operações. De um lado, investidores institucionais norte-americanos retiraram US$ 4,06 bilhões dos ETFs de bitcoin à vista em junho, o pior mês desde o início das listagens. Do outro, grandes carteiras acumularam mais de 270 mil BTC no mesmo intervalo de duas semanas, o equivalente a US$ 16,7 bilhões ao preço atual.

O movimento não é sutil. É o tipo de divergência que analistas de ciclos de mercado conhecem bem: quem opera no curto prazo liquida posições, enquanto quem acumula para o longo prazo aproveita a pressão vendedora para comprar mais barato.

Até então, os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos vinham sendo o grande motor de demanda do ativo. Em 2025, esses produtos atraíram bilhões e ajudaram a sustentar a valorização. Mas o cenário mudou. As saídas de junho superaram o recorde anterior, de US$ 3,56 bilhões registrado em fevereiro de 2025, e jogaram o saldo acumulado dos fundos para o negativo pela primeira vez em 2026. Na quinta-feira, houve uma entrada pontual de US$ 221 milhões, insuficiente para reverter o quadro.

O padrão que aparece perto de fundos de ciclo

A simultaneidade entre venda institucional e acumulação por grandes detentores é um padrão já documentado em ciclos anteriores do bitcoin. Em momentos como a capitulação de junho de 2022 e o fundo de março de 2020, baleias aumentaram posições enquanto o mercado vendia. Quem comprou nesses momentos capturou a maior parte da recuperação subsequente.

Os dados reforçam que a compra recente não partiu de mesas de operações tradicionais. O prêmio spot, um indicador que mede a intensidade da demanda de compradores norte-americanos, permaneceu negativo durante todo o período. Isso sugere que a acumulação veio de carteiras fora do circuito institucional convencional, possivelmente de investidores de alto patrimônio, fundos soberanos ou entidades que operam diretamente on-chain.

Como explicamos em nossa cobertura contínua do mercado cripto, distinguir quem está comprando é tão importante quanto saber o volume. Nesse caso, o perfil do comprador sinaliza convicção de longo prazo, não especulação de curto prazo.

Solana se destaca, mas nem toda altcoin segue o roteiro

Enquanto o bitcoin tocava mínimas de 21 meses, a Solana seguiu caminho oposto. O SOL subiu cerca de 15% desde o início de junho, impulsionado por atualizações de protocolo e um salto de 120% nas transferências on-chain de ativos tokenizados do mundo real, que alcançaram US$ 8,53 bilhões.

Analistas classificam essa divisão como “familiar”. Altcoins tendem a cair primeiro e a se recuperar primeiro nos ciclos do bitcoin. Mas o padrão não é universal. Tokens de redes layer-2, como o Optimism, negociam próximos de mínimas históricas. O motivo é concreto: a Base, rede da Coinbase, abandonou a tecnologia compartilhada do Optimism, removendo o argumento de captura de taxas que sustentava a tese de valor desses tokens.

Esse é um lembrete de que a narrativa tecnológica por trás de cada projeto pode mudar rápido. Investidores que compraram layer-2 como proxy de crescimento do Ethereum agora enfrentam uma revisão de tese forçada pela própria evolução do ecossistema.

Inflação nos EUA: o dado que pode virar a chave

O pano de fundo macroeconômico é o que torna esse momento especialmente tenso. A inflação de maio nos Estados Unidos veio em 4,2%, acima do que o mercado considerava confortável. Juros altos por mais tempo são kryptonita para ativos de risco, e o bitcoin sentiu isso ao longo de todo junho.

Mas há sinais de que o discurso pode estar mudando. O governador do Fed, Kevin Warsh, comentou no fórum de Sintra do BCE que os riscos inflacionários já começaram a ceder. A declaração deu um pequeno alívio a ativos de risco. Um próximo dado de inflação mais brando teria potencial para alterar as expectativas de trajetória de juros antes da reunião do Fed, o que beneficiaria diretamente o bitcoin e o mercado cripto como um todo.

Como analisamos em nossa avaliação sobre política monetária e bitcoin, a correlação entre expectativas de juros e preço do BTC se tornou uma das relações mais consistentes deste ciclo. O dado de inflação que sai nas próximas semanas pode ser o catalisador que faltava para definir a direção do segundo semestre.

O que isso significa para quem investe

O cenário atual cria uma leitura dupla. No curto prazo, a saída recorde dos ETFs pressiona o preço e gera manchetes negativas. No médio e longo prazo, a acumulação massiva por baleias replica um comportamento historicamente associado a fundos de ciclo.

Não se trata de prever para onde o preço vai. Trata-se de entender o que cada tipo de participante está fazendo e por quê. Investidores institucionais reagiram ao ambiente macro adverso liquidando posições via ETFs, que são instrumentos líquidos e de fácil saída. Grandes detentores, com horizonte mais longo, fizeram o oposto.

O próximo capítulo depende menos do mercado cripto em si e mais do que acontece na economia americana. Se a inflação der sinais de arrefecimento e o Fed sinalizar alguma flexibilização, o fluxo institucional tende a retornar. E quem acumulou durante a sangria de junho estará posicionado para capturar essa reversão.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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