Anthropic negocia chip próprio com Samsung: o que muda na IA
Anthropic busca parceria com Samsung para criar processador próprio de inteligência artificial, seguindo movimento de OpenAI e Google para depender menos da Nvidia.
A corrida por independência no hardware de inteligência artificial ganhou mais um capítulo relevante. A Anthropic, dona do Claude e uma das maiores rivais da OpenAI, está em conversas com a Samsung para explorar a criação de um chip customizado voltado para IA. A informação, divulgada nesta semana, sinaliza que a empresa está levando a sério um plano que começou a tomar forma ainda em abril, quando surgiram os primeiros indícios de que a companhia estudava produzir seu próprio silício.
Os detalhes técnicos ainda estão em aberto. Segundo as informações disponíveis, a Anthropic ainda não definiu para qual função exata o chip será utilizado, como ele se encaixará na arquitetura dos servidores, nem qual será o nível de desempenho almejado. A empresa confirmou apenas que sua estratégia de computação continuará baseada em um stack diversificado de hardware, incluindo chips da Google, Amazon e Nvidia. Sobre a Samsung, não quis comentar além disso.
Por que as empresas de IA estão criando chips próprios
O movimento da Anthropic não acontece no vácuo. Existe uma tendência crescente entre as grandes empresas de IA de desenvolver processadores sob medida, e a lógica por trás disso é dupla: otimizar o desempenho para tarefas computacionais específicas e, sobretudo, reduzir a dependência da Nvidia, que domina o mercado de chips para inteligência artificial com folga.
A Nvidia controla algo entre 80% e 90% do mercado de GPUs usadas para treinar e rodar modelos de IA, segundo diferentes estimativas do setor. Isso dá à companhia de Jensen Huang um poder de precificação enorme. As GPUs H100 e H200 são vendidas por dezenas de milhares de dólares por unidade, e a demanda segue superando a oferta. Para empresas como a Anthropic, que gastam bilhões em computação, essa concentração representa risco estratégico e pressão financeira constante.
Como discutimos com frequência na cobertura de tecnologia do BlockTrends, a verticalização do hardware virou questão de sobrevivência competitiva para as empresas que estão na fronteira da IA.
OpenAI saiu na frente com o Jalapeño
O anúncio da Anthropic vem logo depois de um movimento relevante da OpenAI. Na semana passada, a rival de Sam Altman revelou uma parceria com a Broadcom para desenvolver o Jalapeño, um processador de inferência customizado. A OpenAI afirma que o chip entrega uma relação de desempenho por watt superior à dos concorrentes existentes no mercado.
Inferência é o processo pelo qual um modelo de IA já treinado processa novas entradas e gera respostas. É a fase que consome recursos toda vez que você usa o ChatGPT ou o Claude. Com o crescimento explosivo no número de usuários, otimizar essa etapa pode representar economias de centenas de milhões de dólares ao ano.
Google e Amazon também já possuem chips próprios. A Google desenvolveu suas TPUs (Tensor Processing Units), que alimentam tanto os modelos Gemini quanto os serviços oferecidos pelo Google Cloud. A Amazon projetou os chips Trainium e Inferentia, disponíveis na AWS. O padrão é claro: quem depende exclusivamente da Nvidia está ficando em desvantagem estrutural.
O papel da Samsung nessa equação
A escolha da Samsung como potencial parceira não é casual. A empresa sul-coreana já está profundamente integrada na cadeia de suprimentos de chips para IA. A Samsung é uma das principais fornecedoras de memória HBM (High Bandwidth Memory) usada nas GPUs da Nvidia, e atua na fabricação de componentes essenciais para o treinamento e execução de modelos de linguagem.
Além disso, Samsung e Nvidia estão construindo juntas uma fábrica de chips de IA na Coreia do Sul. A Samsung também mantém conversas com a Google sobre colaborações na produção de semicondutores. Ou seja, a empresa já opera no epicentro do ecossistema de hardware para inteligência artificial.
Para a Anthropic, a Samsung oferece capacidade de fabricação, experiência em semicondutores avançados e uma posição que não está diretamente atrelada a nenhum dos seus concorrentes diretos no mercado de modelos de IA. É uma parceria que faz sentido estratégico.
O que isso significa para o mercado de IA
O fato de praticamente todas as grandes empresas de IA estarem buscando alternativas à Nvidia conta uma história importante sobre o próximo ciclo do setor. A dominância da Nvidia no mercado de chips de IA é incontestável hoje, mas o cenário daqui a dois ou três anos pode ser muito diferente.
Não se trata de a Nvidia perder relevância da noite para o dia. A empresa continuará sendo fornecedora central para a maioria dos players. Mas a margem de lucro extraordinária que ela extrai da posição monopolística tende a ser pressionada à medida que alternativas customizadas se tornam viáveis.
Para os investidores que acompanham o setor de tecnologia, o recado é: a narrativa de “Nvidia como única vencedora da IA” está sendo desafiada por dentro, pelos próprios clientes. A transformação que a IA está gerando no mercado passa não só pelos modelos, mas pela infraestrutura física que os sustenta.
Anthropic ganha escala, mas precisa de eficiência
A Anthropic levantou mais de 13 bilhões de dólares em financiamento desde sua fundação. Seu modelo Claude compete diretamente com o GPT da OpenAI e o Gemini da Google. Mas escalar operações de IA generativa com hardware de terceiros é caro. Muito caro.
Desenvolver um chip próprio pode levar anos e custar bilhões, mas o retorno potencial em eficiência e controle da cadeia produtiva justifica o investimento. A Amazon, que é a maior investidora da Anthropic, já oferece seus chips Trainium como alternativa mais barata às GPUs da Nvidia dentro da AWS. É provável que a Anthropic busque um caminho que complemente essa infraestrutura, e não que a substitua.
O momento da negociação também não é coincidência. Com a OpenAI avançando no Jalapeño e a Google consolidando suas TPUs de nova geração, a Anthropic precisa sinalizar ao mercado que não ficará para trás na corrida pelo hardware. Mesmo que o chip ainda esteja em estágio conceitual, o simples fato de negociar com a Samsung já posiciona a empresa como participante séria nesse jogo.
O xadrez do hardware de IA está se redesenhando. E quem controlar o silício terá uma vantagem que vai muito além do software.
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