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Bitcoin sobe 4% e descola do selloff de tech: o que explica

Bitcoin voltou aos US$ 61 mil enquanto ações de tecnologia despencavam na Ásia. O gatilho foi uma mudança de tom do Fed sobre inflação, mas o teste real vem com o payroll.

Bitcoin sobe 4% e descola do selloff de tech: o que explica
Foto: Rafael Minguet Delgado / Unsplash

O Bitcoin cruzou os US$ 61 mil na quinta-feira, com alta de 4,1% em 24 horas, recuperando terreno após uma liquidação que havia levado o ativo a US$ 58,2 mil no início da semana. O movimento chamou atenção não pelo número em si, mas pelo contexto em que aconteceu: enquanto o mercado de ações de tecnologia vivia um dia particularmente ruim, o cripto seguiu na contramão.

O gatilho foi uma fala de Kevin Warsh, dirigente do Federal Reserve, durante o fórum do Banco Central Europeu em Sintra, Portugal. Warsh afirmou que os riscos de inflação haviam diminuído, o primeiro comentário notavelmente mais suave desde que uma perspectiva hawkish em junho provocou semanas de saídas nos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos.

Por que o descolamento das techs importa

O cenário nas bolsas asiáticas era de pânico. O índice Kospi, da Coreia do Sul, caiu 7,9% após Samsung e SK Hynix perderem juntas US$ 290 bilhões em valor de mercado. Foi a segunda vez no mês que o índice cedeu sob pressão de preocupações com o setor de chips de inteligência artificial.

A Meta adicionou mais ruído ao anunciar planos de vender capacidade computacional excedente para clientes externos. O movimento reacendeu a pergunta que ronda o mercado desde o início do ano: a construção de infraestrutura de IA avançou rápido demais em relação à demanda real?

Historicamente, o Bitcoin tem correlação positiva com ativos de risco. Quando Nasdaq cai, o cripto costuma seguir. Mas nesta sessão, a leitura do mercado divergiu. A força relativa do Bitcoin frente ao selloff de chips é o tipo de comportamento que esteve ausente durante boa parte do trimestre, período em que o dinheiro migrou de forma consistente de cripto para a tese de inteligência artificial.

Essa rotação ajuda a explicar por que o Bitcoin acumulou um primeiro semestre fraco em termos de fluxo institucional, mesmo com a aprovação dos ETFs. Como analisamos em nosso acompanhamento sobre fluxos de ETFs de Bitcoin, as saídas foram persistentes após o tom mais duro do Fed em junho.

O sinal do Fed e o que muda para cripto

A fala de Warsh não representa uma mudança de política monetária. Mas em um mercado que opera por expectativas, o tom importa tanto quanto a decisão. Desde junho, quando o Fed sinalizou que manteria os juros elevados por mais tempo, investidores reduziram posição em ativos considerados de risco. O Bitcoin sentiu o impacto de forma direta.

Agora, com um dirigente reconhecendo que os riscos inflacionários diminuíram, a porta para cortes de juros se entreabriu novamente. Não é uma certeza, mas é uma mudança de probabilidade. E mercados de cripto são particularmente sensíveis a essas nuances.

O analista-chefe de mercado da FxPro, Alex Kuptsikevich, havia alertado no início da semana, quando o Bitcoin estava preso abaixo dos US$ 60 mil, que aquela era “uma consolidação perigosa para os otimistas”. Ele apontou US$ 40 mil como o próximo suporte real caso o piso cedesse. A recuperação para US$ 61 mil compra espaço, mas uma única sessão forte não apaga um semestre de perdas.

Payroll: o verdadeiro teste da semana

O relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll, é o próximo dado capaz de definir a direção. E o cenário é binário. Um número forte de criação de vagas dá ao Fed cobertura para manter a postura restritiva, o que pressiona o Bitcoin. Um número fraco reacende as apostas em cortes de juros, o que tende a beneficiar ativos de risco.

De qualquer forma, o payroll define o tom para julho. Se o dado confirmar o arrefecimento do mercado de trabalho que outros indicadores já sinalizam, a narrativa de flexibilização monetária ganha força. E isso pode ser o catalisador que o Bitcoin precisa para sustentar a recuperação além de um repique pontual.

Vale lembrar que, no mercado financeiro como um todo, os últimos meses foram de extrema seletividade. O dinheiro institucional foi para poucos ativos, basicamente as mega caps de tecnologia ligadas a IA, e saiu de praticamente todo o resto. Cripto, small caps, mercados emergentes, todos sofreram com esse efeito de concentração.

O que observar a partir de agora

Três elementos definem se essa alta do Bitcoin tem pernas para sustentar-se. Primeiro, o payroll de sexta-feira e sua leitura pelo mercado. Segundo, o fluxo dos ETFs de Bitcoin à vista nas próximas sessões, já que reversões de tendência costumam aparecer primeiro nesses instrumentos. Terceiro, se o descolamento em relação às ações de tecnologia se mantém ou foi apenas uma anomalia de uma sessão.

O primeiro semestre mostrou que o mercado cripto não está imune ao ciclo macro. Pelo contrário, a dependência das decisões do Fed é talvez maior do que nunca, dado o peso dos investidores institucionais após a entrada dos ETFs. A diferença é que agora o Bitcoin tem uma via de acesso mais direta ao capital tradicional, o que pode amplificar tanto as altas quanto as quedas.

Por ora, o sinal do Fed é positivo, mas não é definitivo. A recuperação para US$ 61 mil é um alívio, não uma virada. O mercado cripto precisa de mais do que uma frase em Sintra para reverter semanas de fluxo negativo.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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