Google perde talentos-chave de IA para a Anthropic: o que está em jogo
Saída de nomes centrais do Gemini expõe fragilidade do Google na guerra por talentos de IA e levanta dúvidas sobre sua competitividade no setor.
Em menos de uma semana, o Google perdeu quatro pesquisadores de alto calibre para concorrentes diretos na corrida da inteligência artificial. Jonas Adler e Alexander Pritzel, considerados contribuintes centrais no desenvolvimento do modelo Gemini, devem migrar para a Anthropic, criadora do Claude. A debandada se soma às saídas do Nobel John Jumper, também rumo à Anthropic, e de Noam Shazeer, coautor do paper que deu origem à arquitetura transformer, que seguiu para a OpenAI.
Não se trata de uma rotação natural de mercado. É um sinal estrutural de que o Google, apesar de ter praticamente inventado a IA moderna, enfrenta dificuldades crescentes para reter o capital humano que sustenta sua relevância na área. E o momento não poderia ser pior: a Anthropic negocia uma abertura de capital com valuation de 965 bilhões de dólares, enquanto a OpenAI também se prepara para um IPO. Quem entra agora nessas startups carrega consigo a promessa de um ganho patrimonial que nenhum bônus de Big Tech consegue replicar.
Por que os melhores pesquisadores estão saindo do Google
A explicação mais imediata é financeira, mas não é a única. Startups pré-IPO oferecem equity com potencial de valorização exponencial. Para um pesquisador sênior que já recebe milhões em compensação total no Google, a diferença salarial é marginal. O que muda é a perspectiva de multiplicação de patrimônio ao entrar antes de uma listagem pública.
Existe, porém, uma camada mais sutil. Segundo fontes próximas ao processo, ao menos uma das saídas foi precedida por decisões internas de realocação de recursos computacionais. No caso de Shazeer, a capacidade de processamento destinada a um de seus projetos foi transferida para uma equipe em Londres, dentro do DeepMind. A mudança visava centralizar esforços de pré-treinamento, a fase em que modelos aprendem a partir de grandes volumes de dados. Para um pesquisador do calibre de Shazeer, perder acesso a compute é o equivalente a um cirurgião ficar sem sala de operação.
Esse tipo de disputa interna por recursos é comum em organizações do porte da Alphabet, como já exploramos em análises sobre a dinâmica das Big Techs. Mas no cenário atual, onde cada ciclo de treinamento pode definir a liderança do setor, a burocracia corporativa vira uma desvantagem competitiva real.
O efeito cascata dentro do DeepMind
As saídas não são eventos isolados. Dados da gestora de venture capital SignalFire, referentes a 2025, mostram que engenheiros do DeepMind têm quase 11 vezes mais probabilidade de migrar para a Anthropic do que o contrário. Essa assimetria é brutal e sugere que o fluxo de talentos é praticamente unidirecional.
Jumper, que ganhou o Nobel por usar IA para prever o enovelamento de proteínas, levou consigo parte de sua equipe. Adler e Pritzel, que trabalharam com ele nessa pesquisa, são os mais recentes a seguir o mesmo caminho. Outros membros do grupo já haviam migrado para a Isomorphic Labs, empresa derivada da Alphabet focada em medicamentos desenvolvidos com inteligência artificial.
Demis Hassabis, CEO do DeepMind, tentou minimizar o impacto durante um evento em Cannes. “Há muito movimento de talentos entre todos os principais laboratórios, e nós ficamos com uma fatia justa dos melhores talentos”, afirmou. A frase, embora tecnicamente correta, ignora o dado central: a direção do fluxo. Quando os movimentos são sistematicamente de saída, o tamanho absoluto do banco de pesquisadores se torna menos relevante do que a qualidade de quem está partindo.
Anthropic e OpenAI como ímãs de talento pré-IPO
A Anthropic levantou recentemente uma rodada que a avaliou em 965 bilhões de dólares, superando a própria OpenAI em valuation. A empresa considera abrir capital ainda no segundo semestre de 2026. Para pesquisadores que ingressam agora, o potencial de valorização do equity é o principal atrativo, como discutimos ao analisar a competição entre os grandes laboratórios de IA.
A trajetória de Shazeer ilustra bem a dinâmica. Ele deixou o Google em 2021 para fundar a Character.AI, retornou em 2024 por meio de um acordo de licenciamento que avaliou sua startup em 2,5 bilhões de dólares, e agora sai novamente para a OpenAI. Cada movimento foi motivado por uma combinação de autonomia técnica e incentivo econômico que o Google, preso à sua estrutura corporativa, não conseguiu igualar.
Vale notar que Shazeer estava desenvolvendo uma nova arquitetura de IA dentro do Google, ainda baseada no transformer, que vinha apresentando resultados promissores. O fato de ele ter abandonado esse projeto para ir à OpenAI sugere que os incentivos da concorrência foram substanciais o suficiente para superar o apego ao próprio trabalho.
O que isso significa para a corrida da IA
A perda de talentos do Google não acontece no vácuo. Ela ocorre num momento em que a Anthropic também enfrenta questões regulatórias, tendo desativado seus modelos mais avançados, Mythos 5 e Fable 5, em resposta a diretrizes de controle de exportação do governo americano. Ou seja, a empresa está absorvendo os melhores cérebros do Google ao mesmo tempo em que navega restrições operacionais significativas.
Para o mercado de tecnologia como um todo, o cenário reforça uma tendência que vem se consolidando: a concentração de talento de ponta em startups capitalizadas por venture capital, em detrimento das grandes corporações que originalmente desenvolveram a tecnologia. O Google publicou o paper “Attention Is All You Need” em 2017, que deu origem ao transformer. Quase uma década depois, os autores desse paper estão espalhados por concorrentes.
Pesquisadores no Reino Unido, onde fica a liderança do DeepMind, estão sujeitos a longos acordos de não concorrência que podem ser executados sob a legislação britânica. Jumper, por exemplo, provavelmente só começaria a trabalhar na Anthropic em 2027. Mas a sinalização já está dada, e o impacto no moral interno do DeepMind é imediato.
A questão central não é se o Google consegue contratar novos talentos. É se a velocidade de reposição acompanha a velocidade de saída, e se os substitutos têm o mesmo nível de contribuição. Numa indústria onde a diferença entre o primeiro e o segundo colocado pode valer centenas de bilhões de dólares em receita, cada pesquisador perdido é um risco estratégico concreto.