Tecnologia

SpaceX vale US$ 2,6 tri e ultrapassa Amazon brevemente

Empresa de Elon Musk alcançou brevemente o posto de segunda empresa mais valiosa do mundo. O salto expõe uma mudança estrutural no que o mercado considera valioso.

A SpaceX atingiu um valuation de US$ 2,6 trilhões em sua rodada mais recente de captação no mercado secundário, ultrapassando brevemente a Amazon como segunda empresa mais valiosa do mundo. O marco não é apenas um número. Ele redefine o que significa “empresa de tecnologia” em 2026 e levanta questões profundas sobre a concentração de riqueza em companhias de capital fechado.

Para efeito de comparação, a Amazon levou 27 anos como empresa pública, com escrutínio trimestral de balanço, para chegar ao patamar de US$ 2,5 trilhões. A SpaceX chegou ao mesmo valor sem nunca ter aberto capital na bolsa. Isso muda a dinâmica de poder entre mercado público e privado de maneiras que a maioria dos investidores ainda não processou.

Como uma empresa fechada vale mais que gigantes listadas

O valuation da SpaceX vem de rodadas no mercado secundário, onde investidores institucionais e fundos soberanos negociam participações entre si. Não há IPO, não há prospecto público, não há obrigação de divulgar balanço trimestral. A precificação depende inteiramente da confiança dos compradores na tese de longo prazo.

E a tese é robusta. A Starlink, divisão de internet via satélite, já ultrapassa US$ 12 bilhões em receita anualizada, atendendo mais de 5 milhões de assinantes em 100 países. O braço de lançamentos continua dominando o mercado global: segundo dados da Bryce Tech, a SpaceX concentrou cerca de 70% de toda a massa colocada em órbita no último ano. São duas empresas bilionárias dentro de uma só.

A questão é que investidores do mercado público não conseguem participar diretamente dessa valorização. Apenas fundos como Andreessen Horowitz, Fidelity e fundos soberanos do Oriente Médio têm acesso. O investidor comum fica de fora do maior case de valorização da década.

O efeito Musk e o risco de concentração

Elon Musk agora controla, direta ou indiretamente, empresas cujo valor combinado supera US$ 4 trilhões. Tesla, SpaceX, xAI, Neuralink e X formam um conglomerado sem precedentes na história do capitalismo moderno. Para contextualizar, o PIB da Alemanha em 2025 foi de aproximadamente US$ 4,5 trilhões.

Esse nível de concentração gera desconforto em reguladores. Como discutimos na cobertura sobre big techs, a relação entre governo americano e grandes empresas de tecnologia está cada vez mais tensa, com implicações que vão de contratos militares a disputas antitruste.

No caso da SpaceX, a dependência do governo dos EUA é recíproca. A NASA depende dos foguetes Falcon e Starship para seus programas lunares. O Pentágono depende da Starlink para comunicações militares. Essa interdependência cria uma blindagem regulatória que nenhuma outra empresa do setor privado possui.

O que a ultrapassagem da Amazon sinaliza para o mercado

A brevidade do momento é relevante. A SpaceX não sustentou o posto acima da Amazon por muito tempo, já que valuations de empresas privadas flutuam com cada transação no secundário. Mas o sinal é claro: o mercado está precificando infraestrutura espacial e conectividade global como mais valiosos do que e-commerce e computação em nuvem.

Isso tem consequências para a alocação de capital. Gestoras como a IP Capital, que recentemente rebalanceou sua carteira com 66% no exterior, estão buscando exposição indireta a empresas como SpaceX por meio de fundos de venture capital no mercado secundário.

Para o investidor brasileiro, a lição é mais ampla. O mercado americano está se bifurcando entre empresas públicas, que crescem a taxas de um dígito, e empresas privadas, que capturam a maior parte da valorização exponencial. Fundos como Fidelity e T. Rowe Price já reportam que suas cotas em SpaceX representam as posições de maior retorno nos últimos três anos.

O IPO que nunca chega

Musk já declarou publicamente que não pretende abrir capital da SpaceX enquanto a missão de colonização de Marte não estiver “no caminho certo”. Na prática, isso pode significar nunca, ou pelo menos não nesta década. A empresa não precisa de capital público: a combinação de receita crescente da Starlink e contratos governamentais bilionários garante caixa suficiente para financiar o desenvolvimento do Starship.

O resultado é que a SpaceX se tornou a maior empresa privada da história sem que o investidor médio tenha tido qualquer oportunidade de participação. É um caso emblemático de como a riqueza está migrando dos mercados abertos para os fechados, com implicações que reguladores, bolsas e gestoras de patrimônio terão que enfrentar nos próximos anos.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Jornalista especializado em tecnologia e inteligencia artificial. Cobre big techs, startups, IA generativa, ciberseguranca e transformacao digital para o portal BlockTrends.
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