Vale a pena ter stablecoins na carteira em 2025?
Stablecoins deixaram de ser só ponte entre exchanges e viraram instrumento financeiro. Veja quando faz sentido usá-las na carteira.
Por muito tempo, stablecoins foram tratadas como moeda de passagem. O investidor comprava USDT ou USDC para trocar por Bitcoin ou Ethereum e esquecia delas na sequência. Esse papel mudou. Em 2025, stablecoins acumulam mais de US$ 230 bilhões em valor de mercado e funcionam como infraestrutura financeira global, com casos de uso que vão de remessas internacionais a reserva de valor em economias instáveis.
A pergunta que investidores brasileiros fazem com frequência crescente é direta: vale a pena manter stablecoins na carteira? A resposta depende do objetivo, do perfil de risco e, principalmente, de entender o que stablecoins são e o que não são.
O que são stablecoins e por que cresceram tanto
Stablecoins são criptomoedas projetadas para manter paridade com um ativo de referência, geralmente o dólar americano. As duas maiores, USDT (Tether) e USDC (Circle), mantêm reservas em títulos do Tesouro dos EUA, depósitos bancários e outros ativos de alta liquidez para sustentar essa paridade.
O crescimento acelerou por dois motivos. Primeiro, a regulação avançou. O Congresso americano aprovou legislação específica para stablecoins, exigindo reservas auditáveis e licenças bancárias para emissores. Isso trouxe confiança institucional. Segundo, a utilidade prática se expandiu. Na Venezuela, stablecoins se tornaram instrumento de sobrevivência financeira sob sanções, funcionando como dólar digital onde o dólar físico é inacessível.
No Brasil, o cenário é diferente, mas igualmente relevante. Com o real oscilando e a taxa de juros em patamares elevados, ter uma parcela da carteira dolarizada via stablecoins se tornou uma alternativa ao câmbio tradicional.
Stablecoins vs dólar tradicional: custos e vantagens
Comprar dólar no Brasil envolve spread cambial, IOF e, no caso de contas internacionais, taxas de manutenção. Dependendo da corretora, o custo total pode chegar a 3% ou mais sobre o valor da operação. Stablecoins oferecem um caminho mais barato.
Nas principais exchanges brasileiras, como Mercado Bitcoin e Binance, é possível comprar USDT ou USDC com spread inferior a 0,5% e sem IOF na compra direta de cripto. A tokenização de ativos no Brasil também ampliou as opções: o Mercado Bitcoin liderou o primeiro trimestre com R$ 284 milhões em ativos tokenizados, incluindo produtos atrelados ao dólar.
A desvantagem é que stablecoins não pagam rendimento por si só. Diferente de um CDB em dólar ou de um fundo cambial, manter USDT parado numa carteira não gera retorno. É dinheiro parado, só que em dólar digital.
Como gerar rendimento com stablecoins
Existem três formas principais de obter retorno sobre stablecoins, cada uma com nível diferente de risco.
A primeira é via protocolos de empréstimo descentralizado (DeFi). Plataformas como Aave e Compound permitem depositar USDC e receber juros pagos por tomadores de empréstimo. As taxas variam entre 3% e 8% ao ano, dependendo da demanda. O risco é de smart contract: se houver falha no código do protocolo, os fundos podem ser perdidos.
A segunda é via exchanges centralizadas que oferecem produtos de rendimento. Binance Earn e Coinbase oferecem retornos de 2% a 5% ao ano sobre stablecoins, com liquidez diária. O risco aqui é de contraparte: se a exchange quebrar, o investidor pode perder acesso aos fundos.
A terceira é via Treasuries tokenizados. Produtos como o BUIDL da BlackRock e o USDY da Ondo Finance permitem exposição a títulos do Tesouro americano via blockchain, com rendimentos que acompanham a taxa de juros dos EUA. É a opção mais conservadora e a que mais se aproxima de um investimento tradicional em renda fixa americana.
Quando stablecoins fazem sentido na carteira
Stablecoins funcionam bem em três cenários específicos para o investidor brasileiro.
O primeiro é proteção cambial. Se a expectativa é de desvalorização do real, manter 10% a 20% da carteira em stablecoins oferece hedge cambial sem a burocracia de abrir conta no exterior. É mais simples do que comprar dólar físico e mais barato do que fundos cambiais com taxas de administração de 1% ao ano.
O segundo é reserva de oportunidade. Para quem opera no mercado cripto ativamente, manter stablecoins disponíveis permite aproveitar quedas bruscas de preço sem precisar converter reais, o que pode levar horas em dias de alta volatilidade.
O terceiro é remessas e pagamentos internacionais. Enviar USDC para alguém nos Estados Unidos custa centavos em redes como Solana ou Arbitrum e leva segundos. Uma transferência bancária internacional pelo sistema Swift pode custar R$ 150 ou mais e levar até três dias úteis.
Os riscos que ninguém pode ignorar
Stablecoins não são isentas de risco. A Tether, emissora do USDT, já enfrentou questionamentos sobre a composição real de suas reservas, embora auditorias recentes tenham mostrado respaldo adequado. A Circle, do USDC, é considerada mais transparente, mas teve um episódio de despeg temporário durante a crise do Silicon Valley Bank em março de 2023, quando US$ 3,3 bilhões de suas reservas ficaram presos no banco.
Há também o risco regulatório no Brasil. A Receita Federal exige declaração de criptoativos acima de R$ 5 mil, e operações acima de R$ 35 mil por mês em exchanges nacionais são reportadas automaticamente. Ganhos de capital com stablecoins, mesmo que sejam apenas variação cambial, estão sujeitos a tributação de 15% a 22,5%.
Por fim, existe o risco de autocustódia. Manter stablecoins em carteiras próprias exige conhecimento técnico sobre segurança digital. Perder a chave privada significa perder os fundos permanentemente, sem banco central ou seguro garantidor para recorrer.
Stablecoins não substituem investimentos tradicionais. Mas como instrumento de dolarização, liquidez e eficiência em transações, conquistaram um espaço legítimo na carteira de investidores que entendem tanto seus benefícios quanto suas limitações.