Finanças

SpaceX levanta US$ 75 bi e redefine o mercado de IPOs

A SpaceX de Elon Musk captou US$ 75 bilhões em oferta secundária recorde, consolidando uma avaliação que supera a maioria das bolsas emergentes.

SpaceX levanta US$ 75 bi e redefine o mercado de IPOs
Foto: john mckenna / Unsplash

A SpaceX concluiu uma oferta secundária de ações que levantou US$ 75 bilhões, estabelecendo um marco sem precedentes no mercado de capitais global. A operação, que permite a funcionários e investidores iniciais venderem suas participações, elevou a avaliação da empresa de Elon Musk para algo em torno de US$ 350 bilhões. Para efeito de comparação, esse valor é superior ao PIB de países como Chile ou Finlândia.

O número impressiona não apenas pelo tamanho, mas pelo que revela sobre o estado atual do mercado de ofertas públicas. Enquanto o mercado tradicional de IPOs vive uma seca prolongada desde 2022, a SpaceX encontrou uma rota alternativa para gerar liquidez sem precisar abrir capital formalmente em bolsa.

Por que a SpaceX não faz um IPO tradicional

Musk já declarou publicamente, em diversas ocasiões, que não pretende levar a SpaceX a uma bolsa de valores enquanto a missão a Marte não se tornar “previsível”. Na prática, a empresa opera como uma companhia pública em termos de escala, mas sem as obrigações regulatórias e a pressão trimestral que acompanham a listagem.

O mecanismo usado é o de tender offers, rodadas periódicas em que ações existentes são negociadas entre partes em um mercado secundário estruturado. A última rodada atraiu fundos soberanos, endowments universitários e grandes gestoras de patrimônio. Segundo dados compilados pelo Brazil Journal, universidades americanas como Harvard, Stanford e MIT possuem participações relevantes na SpaceX por meio de seus fundos de dotação, e a valorização recente deve gerar retornos bilionários para essas instituições.

Esse modelo levanta uma discussão relevante para o mercado financeiro: as empresas de tecnologia mais valiosas do mundo estão cada vez mais confortáveis em permanecer privadas, restringindo o acesso de investidores comuns aos ganhos mais expressivos do ciclo.

O efeito cascata sobre o mercado de venture capital

A operação da SpaceX funciona como um termômetro para o apetite institucional por ativos privados de alta convicção. Desde a crise de liquidez que atingiu o venture capital entre 2022 e 2024, investidores institucionais reduziram drasticamente seus aportes em startups em estágio inicial. A exceção sempre foram os chamados “mega-rounds” de empresas já consolidadas.

Dados da PitchBook mostram que, no primeiro trimestre de 2025, apenas 12% do capital de venture capital nos Estados Unidos foi direcionado a rodadas seed e Series A. O restante se concentrou em estágios tardios, exatamente o perfil da SpaceX. Esse fenômeno cria um gargalo: há abundância de capital para empresas que já venceram, mas escassez para quem está começando.

Para investidores brasileiros, como analisamos em nossa cobertura de tecnologia, o recado é claro. A fronteira entre mercado público e privado está cada vez mais borrada, e os melhores retornos estão migrando para veículos que a maioria das pessoas físicas não consegue acessar.

Starlink é o motor financeiro por trás dos números

A avaliação estratosférica da SpaceX não se sustenta apenas em foguetes. A Starlink, divisão de internet via satélite, já opera com mais de 5 milhões de assinantes em mais de 100 países e se aproxima de uma receita anual recorrente estimada em US$ 12 bilhões. A divisão é lucrativa desde meados de 2024 e responde pela maior parte da geração de caixa da empresa.

É a Starlink que torna a SpaceX investível para fundos conservadores. Endowments universitários, que tipicamente alocam entre 10% e 20% de seus portfólios em alternativos, encontram na Starlink um perfil de receita recorrente que se assemelha mais a uma concessionária de telecomunicações do que a uma empresa aeroespacial.

Além disso, a vertical de lançamentos governamentais, incluindo contratos com a NASA e o Departamento de Defesa dos EUA, adiciona uma camada de previsibilidade que poucos concorrentes conseguem oferecer. A Blue Origin, de Jeff Bezos, ainda opera em escala significativamente menor.

O que isso significa para quem investe

A operação da SpaceX evidencia três tendências que impactam diretamente a alocação de portfólio em 2025. Primeiro, os mega-deals privados estão substituindo IPOs como evento de liquidez preferido pelas empresas de tecnologia. Segundo, o acesso a esses ativos permanece restrito a investidores qualificados e institucionais, ampliando a desigualdade de retorno entre classes de investidores.

Terceiro, e talvez mais relevante, a concentração de valor em poucas empresas privadas cria um risco sistêmico pouco discutido. Se uma parcela crescente da riqueza global está em ativos sem cotação pública diária, a volatilidade real do mercado pode ser maior do que os índices sugerem.

Para quem acompanha a convergência entre mercados tradicionais e digitais, a tokenização de ativos privados surge como uma possível solução para democratizar o acesso. Mas, por ora, quem não tem um ticket mínimo de sete dígitos em dólar fica de fora do foguete da SpaceX, tanto literal quanto financeiramente.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
Continue scrollando para a próxima matéria…