A armadilha geopolítica do Irã: como as negociações de Trump criam risco econômico global em 2025
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Irã, Trump e o risco que o mercado ainda não precificou

Trump diz que acordo com Irã pode sair em dias, mas o histórico de negociações frustradas sugere um risco que investidores estão subestimando.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira que um acordo nuclear com o Irã pode ser fechado “em dois ou três dias”. A declaração, feita durante coletiva na Casa Branca, empurrou o preço do petróleo Brent para baixo de US$ 61 o barril no overnight asiático. Mas o mercado pode estar celebrando cedo demais.

A história recente das negociações americanas com Teerã é um cemitério de otimismo prematuro. Em 2018, Trump abandonou o acordo nuclear de Obama. Em 2022, as conversas em Viena desmoronaram. E agora, com uma nova rodada de sanções endurecidas e um Irã cada vez mais próximo da Rússia e da China, as variáveis são ainda mais complexas.

O que está realmente em jogo nas negociações com o Irã

O ponto central não é apenas o programa nuclear iraniano. É o redesenho das alianças energéticas globais. O Irã possui as quartas maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com cerca de 209 bilhões de barris, segundo dados da OPEP. Com as sanções em vigor, o país exporta algo entre 1,3 e 1,5 milhão de barris por dia, bem abaixo da sua capacidade de 3,8 milhões.

Um acordo bem-sucedido jogaria mais de 2 milhões de barris diários no mercado global num momento em que a OPEP+ já enfrenta pressão para cortar produção. O efeito cascata seria sentido em toda a cadeia: petroquímicos, fretes, fertilizantes e, naturalmente, inflação.

Para investidores brasileiros, o impacto seria direto. O mercado financeiro doméstico tem forte exposição a commodities energéticas, e a Petrobras compõe mais de 12% do Ibovespa. Uma queda sustentada no Brent abaixo de US$ 55 mudaria completamente as projeções de dividendos da estatal.

Por que o mercado está subestimando o risco de fracasso

A precificação atual do petróleo sugere que traders estão atribuindo probabilidade relevante a um acordo. Mas os sinais vindos de Teerã são ambíguos. O líder supremo Ali Khamenei condicionou qualquer negociação ao levantamento total das sanções, algo que o Congresso americano dificilmente aprovaria sem contrapartidas verificáveis.

Existe ainda o fator Israel. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já declarou publicamente que qualquer acordo que não desmonte por completo o programa de enriquecimento de urânio iraniano seria “inaceitável”. A pressão israelense sobre a política externa americana não pode ser ignorada nesta equação.

O cenário mais provável, segundo analistas ouvidos pela Bloomberg, é uma extensão das negociações por meses, possivelmente sem resultado concreto. Isso manteria o Irã num limbo: sancionado o suficiente para limitar exportações, mas não isolado o bastante para ceder nas condições americanas.

O efeito dominó nas economias emergentes

Para países como o Brasil, a incerteza iraniana é uma faca de dois gumes. De um lado, o petróleo mais barato favorece a inflação doméstica e abre espaço para juros menores. Do outro, a instabilidade geopolítica no Oriente Médio historicamente provoca fuga de capital de emergentes para ativos considerados seguros, como Treasuries americanas e ouro.

Nos últimos 12 meses, o índice VIX reagiu em média com alta de 8,2% a cada escalada retórica envolvendo o Irã. O dólar, por sua vez, tende a se fortalecer nesses episódios, pressionando moedas como o real.

Vale lembrar que a balança comercial entre EUA e China, cujos dados saem nesta terça-feira, também está no radar. Uma deterioração simultânea nas frentes comercial e geopolítica criaria um ambiente de aversão ao risco difícil de sustentar para bolsas emergentes.

O que o investidor deveria monitorar agora

Três indicadores merecem atenção nas próximas semanas. Primeiro, o spread entre o Brent e o WTI: se alargar acima de US$ 5, é sinal de que o mercado está precificando risco de disrupção no Oriente Médio. Segundo, o posicionamento de fundos em contratos futuros de petróleo, divulgado semanalmente pela CFTC. Terceiro, qualquer movimentação da marinha americana no Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 21% do petróleo consumido globalmente.

Trump tem um histórico de usar declarações otimistas como ferramenta de negociação. Em 2019, anunciou um acordo comercial “fase 1” com a China que levou meses para se materializar em algo concreto. O mercado aprendeu a reagir com cautela, mas a memória é curta.

O risco assimétrico está claro: se o acordo avançar, o petróleo cai mais 10-15% e há ajuste gradual. Se fracassar e a retórica escalar, a alta pode ser de 25-30% em semanas. Para quem investe, ignorar essa assimetria é apostar contra a história.

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Renato Moura

Sobre o autor

Renato Moura

Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.

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