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Sam Bankman-Fried pede perdão a Trump: o que está em jogo

Fundador da FTX faz pedido formal de clemência ao presidente americano. Entenda o contexto político e o que isso significa para o mercado cripto.

Sam Bankman-Fried pede perdão a Trump: o que está em jogo
Foto: dp singh Bhullar / Unsplash

Sam Bankman-Fried, o fundador da FTX condenado a 25 anos de prisão por fraude bilionária, formalizou um pedido de perdão presidencial a Donald Trump. A notícia, confirmada por fontes próximas ao processo e reportada pelo CoinDesk, transforma o caso mais emblemático do mercado cripto nos últimos anos em uma questão diretamente política.

O movimento não é exatamente uma surpresa. Desde o início da campanha de Trump, rumores sobre uma possível clemência já circulavam nos bastidores de Washington. Mas a formalização do pedido eleva o debate a outro patamar e coloca investidores, reguladores e legisladores em posição de espera.

O contexto político por trás do pedido de SBF

A relação entre o setor cripto e a Casa Branca mudou de forma drástica desde a eleição de Trump. O presidente adotou uma postura abertamente favorável a ativos digitais, nomeou reguladores simpáticos ao setor e chegou a lançar seu próprio token. A indústria, por sua vez, retribuiu com doações de campanha sem precedentes.

Bankman-Fried, porém, fez o oposto. Antes da queda da FTX em novembro de 2022, ele era o maior doador político do setor e direcionava recursos predominantemente a candidatos democratas. Segundo documentos judiciais, mais de US$ 40 milhões foram destinados a comitês do Partido Democrata, o que tornaria, em tese, o pedido de perdão a um presidente republicano algo improvável.

Mas a política americana raramente segue a lógica linear. Como analisamos em matérias anteriores sobre a relação entre cripto e regulação nos EUA, Trump tem usado o setor de ativos digitais como moeda de troca legislativa. Conceder um perdão a SBF poderia ser lido como um gesto de “virada de página” para a indústria, sinalizando que o passado ficou para trás.

O que aconteceu com SBF e por que o caso ainda importa

Para quem acompanha o mercado cripto, o colapso da FTX continua sendo o divisor de águas da última década. Em novembro de 2022, a exchange revelou um buraco de US$ 8 bilhões nos fundos de clientes. Bankman-Fried foi preso, julgado e condenado em março de 2024 por sete acusações de fraude, conspiração e lavagem de dinheiro.

Os credores da FTX já estão em estágio avançado de recebimento. A massa falida recuperou mais do que o passivo original em dólares, graças em parte à valorização dos ativos cripto desde o colapso. Clientes com créditos de até US$ 50 mil receberam cerca de 119% do valor nominal, segundo dados do plano de recuperação aprovado pela Justiça de Delaware.

Esse dado é relevante porque pode ser usado como argumento pelo próprio SBF: se os credores foram compensados, a justificativa de “dano irreparável” perde força retórica. Não é um argumento jurídico sólido, segundo especialistas em direito penal americano, mas é um argumento político.

Quais são as chances reais de um perdão presidencial

Analistas de Washington divergem sobre a probabilidade. Há precedentes de perdões controversos, como o de Marc Rich concedido por Bill Clinton em 2001 e, mais recentemente, os perdões em massa que Trump concedeu a condenados do 6 de janeiro. O mecanismo existe e não depende de aprovação legislativa.

Porém, conceder clemência a SBF teria custos políticos consideráveis. A condenação foi amplamente celebrada tanto por republicanos quanto por democratas. Investidores de varejo que perderam dinheiro na FTX formam um grupo vocal e organizado. E o Departamento de Justiça, que investiu recursos significativos no caso, dificilmente ficaria em silêncio.

Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, a equipe jurídica de Trump já estaria “avaliando o pedido” sem compromisso, o que pode significar qualquer coisa entre uma análise real e uma gaveta burocrática. A Casa Branca não comentou oficialmente.

O impacto para o mercado cripto brasileiro

Para investidores brasileiros, o desfecho importa menos pelo destino pessoal de SBF e mais pelo sinal regulatório. Se Trump conceder o perdão, a mensagem implícita será de que fraudes cripto podem ser “absorvidas” pelo sistema político, o que poderia enfraquecer esforços regulatórios em outros países, incluindo o Brasil.

O mercado de criptomoedas no Brasil tem avançado em marcos regulatórios próprios, com o Banco Central definindo regras para exchanges e a CVM delimitando o que é valor mobiliário digital. Mas o precedente americano sempre influencia o tom das discussões locais.

Há também a dimensão de confiança institucional. Exchanges reguladas no Brasil, como Mercado Bitcoin e Foxbit, investiram pesado em compliance justamente para se distanciar da imagem deixada pela FTX. Um perdão a SBF poderia gerar ruído nesse processo de legitimação.

O que observar nas próximas semanas

O pedido formal abre um prazo informal de análise que pode se arrastar por meses. Historicamente, perdões presidenciais americanos são concedidos no fim de mandato ou em momentos de distração midiática. Com as tensões geopolíticas entre Israel e Irã dominando as manchetes, como temos acompanhado nos mercados financeiros, o timing pode ser calculado.

Para o investidor, o mais relevante é acompanhar a reação do Congresso. Se houver resistência bipartidária forte, o perdão se torna politicamente inviável. Se o silêncio predominar, a janela se abre. Enquanto isso, o Bitcoin segue acima de US$ 63 mil e o mercado parece mais preocupado com juros e geopolítica do que com o destino de um fundador preso.

O caso SBF é, no fundo, um teste de estresse para a maturidade institucional do setor cripto. Se um perdão presidencial for possível para uma fraude de US$ 8 bilhões, a pergunta inevitável será: qual o limite real da accountability nesse mercado?

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Renato Moura

Sobre o autor

Renato Moura

Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.

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