ETFs de Bitcoin já perderam US$ 5,8 bi em saídas: o que explica a fuga
Fundos spot de Bitcoin nos EUA enfrentam a pior sequência de resgates da história. Venda da Strategy e movimento de Mt. Gox ampliam pressão vendedora.
Os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos enfrentam a maior onda de resgates desde que foram lançados em janeiro de 2024. Somente em maio, as saídas líquidas somaram US$ 2,4 bilhões. Adicionando os dados mais recentes de junho, que incluem o maior dia de vendas já registrado (US$ 3,4 bilhões em uma única sessão), o acumulado recente ultrapassa US$ 5,8 bilhões.
O Bitcoin recuou para a faixa de US$ 69 mil, nível que não visitava desde março. A combinação de fatores é incomum: uma venda massiva por parte de um dos maiores holders institucionais, movimentação suspeita de carteiras ligadas à Mt. Gox e rotação de capital para ações de inteligência artificial.
O que detonou a venda: Strategy e o efeito dominó
O estopim mais visível veio da Strategy, empresa de Michael Saylor que detém a maior posição corporativa em Bitcoin do mundo. A companhia anunciou vendas de parte de suas posições, algo que o mercado interpretou como um sinal de que até os maiores convictos estão realizando lucros.
O playbook da Strategy sempre foi simples: comprar Bitcoin com alavancagem, usar a valorização para levantar mais dívida e comprar mais. Mas em 2025, essa lógica está sendo testada. A dinâmica do mercado cripto mudou consideravelmente desde que os ETFs trouxeram um novo perfil de investidor, menos ideológico e mais sensível a volatilidade.
Quando Saylor vende, o varejo corre para a porta. O efeito dominó atingiu os ETFs de forma imediata: o iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, registrou saídas de mais de US$ 1 bilhão em uma única semana. O Fidelity Wise Origin Bitcoin Fund (FBTC) seguiu com resgates proporcionais.
Mt. Gox movimenta US$ 739 milhões e reacende fantasma de 2014
Paralelamente, dados da Arkham Intelligence mostraram que carteiras associadas à Mt. Gox movimentaram US$ 739 milhões em Bitcoin para dois endereços desconhecidos. A exchange japonesa, que colapsou em 2014 após o maior hack da história das criptomoedas, vem devolvendo fundos aos credores desde meados de 2024.
Cada movimentação gera pânico. A lógica é simples: credores que esperaram mais de uma década para receber seus Bitcoins têm alto incentivo para vender, especialmente com o ativo tendo valorizado milhares por cento desde então. Nem toda movimentação resulta em venda no mercado aberto, mas a incerteza já é suficiente para pressionar o preço.
O histórico mostra que movimentações anteriores da Mt. Gox antecederam correções de 5% a 15% no Bitcoin. O impacto tende a ser mais psicológico do que fundamental, mas em um mercado já fragilizado por saídas de ETFs, qualquer catalisador negativo ganha peso desproporcional.
A rotação para IA: dinheiro institucional tem destino novo
Um detalhe que poucos observadores estão conectando é que as saídas de ETFs de Bitcoin coincidem com entradas recordes em ações e ETFs ligados à inteligência artificial. Enquanto o IBIT perdia bilhões, o Invesco QQQ (que concentra big techs) e fundos temáticos de IA registravam entradas consistentes.
Isso não é coincidência. O investidor institucional americano opera com alocação tática. Quando o momentum muda, o capital migra rápido. O anúncio da Alphabet de captar US$ 80 bilhões para IA e os resultados fortes da Nvidia criaram uma narrativa concorrente que, por ora, está ganhando a disputa pela atenção (e pelo dinheiro) dos gestores.
Para o mercado cripto, essa rotação é um lembrete de que os ETFs trouxeram liquidez, mas também trouxeram correlação com dinâmicas que antes eram exclusivas de Wall Street. O Bitcoin, que historicamente se beneficiava de ser “descorrelacionado”, agora compete diretamente por alocação com ações de tecnologia.
O que os dados on-chain dizem sobre o fundo
Nem tudo é pessimismo. Dados da Glassnode indicam que holders de longo prazo (aqueles que mantêm Bitcoin há mais de 155 dias) seguem acumulando. A métrica de “supply in profit” mostra que cerca de 75% da oferta circulante ainda está no lucro, o que historicamente não é nível de capitulação.
O volume de Bitcoin em exchanges também caiu para o menor patamar em três anos, sinal de que boa parte dos detentores não pretende vender. O comportamento é consistente com fases de consolidação dentro de ciclos de alta, onde o dinheiro de curto prazo sai e o de longo prazo segura firme.
A faixa de US$ 65 mil a US$ 68 mil é apontada por analistas on-chain como zona de suporte relevante, onde grande volume de Bitcoin foi acumulado entre fevereiro e março. Se o preço perder esse nível, a próxima referência técnica fica em torno de US$ 58 mil, região do custo médio dos compradores de ETF no primeiro semestre de 2024.
O cenário para as próximas semanas
O mercado de Bitcoin vive uma fase delicada. A narrativa de adoção institucional via ETFs, que sustentou a alta de 2024, está sendo testada por saídas que provam que dinheiro institucional é rápido para entrar e igualmente rápido para sair.
Os próximos dados de inflação nos EUA e a decisão do Federal Reserve em junho devem definir se o Bitcoin encontra suporte nessa faixa ou se a correção se aprofunda. Um corte de juros, ainda que improvável no curto prazo, seria o catalisador mais óbvio para reverter o fluxo dos ETFs.
Até lá, o investidor de cripto precisa aceitar uma realidade nova: o Bitcoin de 2025 é um ativo que responde tanto à blockchain quanto ao S&P 500. E neste momento, Wall Street está olhando para outro lado.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.