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Citi prevê mercado de tokenização em US$ 5,5 tri até 2030

Relatório do Citi estima que a tokenização de ativos financeiros pode movimentar US$ 5,5 trilhões em cinco anos. O número coloca a tecnologia blockchain no centro do sistema financeiro tradicional.

Citi prevê mercado de tokenização em US$ 5,5 tri até 2030
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

O Citigroup publicou uma das projeções mais agressivas já feitas por um grande banco sobre tokenização de ativos financeiros. Segundo o relatório, o mercado de títulos tokenizados pode atingir US$ 5,5 trilhões até 2030. Se confirmado, o número representaria um salto de mais de 30 vezes em relação ao patamar atual e colocaria a infraestrutura blockchain no centro da engrenagem financeira global.

Não se trata de entusiasmo cripto. Trata-se de um banco com US$ 2,4 trilhões em ativos dizendo que a tecnologia por trás do Bitcoin terá papel estrutural no mercado de capitais. A diferença de tom é relevante: enquanto relatórios anteriores de Wall Street tratavam tokenização como experimento, o Citi agora fala em escala industrial.

O que exatamente está sendo tokenizado

Tokenização é o processo de representar ativos financeiros tradicionais, como títulos de dívida, ações, cotas de fundos e ativos imobiliários, em blockchains. Na prática, cada ativo ganha uma versão digital que pode ser negociada, transferida e liquidada em minutos, sem a necessidade de câmaras de compensação e custódia centralizadas.

O relatório do Citi aponta que títulos de renda fixa serão a categoria dominante. Isso inclui títulos do Tesouro americano, bonds corporativos e papéis de dívida soberana de outros países. Faz sentido: são ativos padronizados, com fluxos de caixa previsíveis e regulação bem estabelecida, ou seja, candidatos naturais para migração para blockchain.

Os números já começam a aparecer. Protocolos de Real World Assets (RWA) como Ondo Finance, Centrifuge e Maple ultrapassaram US$ 17 bilhões em valor total bloqueado em 2025. A BlackRock lançou seu fundo tokenizado BUIDL no ano passado e já captou mais de US$ 1,5 bilhão. O ritmo de crescimento está acelerando, não desacelerando.

Por que os bancos estão levando a sério agora

A mudança de postura de instituições como Citi, JPMorgan e Goldman Sachs tem explicação prática: custos. A infraestrutura financeira tradicional é cara. Liquidar uma operação de renda fixa leva entre um e três dias úteis, envolve múltiplos intermediários e gera custos operacionais significativos. Tokenização permite liquidação quase instantânea, operação 24 horas por dia e frações de custo.

Um estudo da consultoria Oliver Wyman estimou que a tokenização pode reduzir custos de back-office em até 80% para certas classes de ativos. Para bancos que gastam bilhões por ano em operações de custódia e compensação, essa economia é uma vantagem competitiva concreta.

Outro fator é o ambiente regulatório. A Europa avançou com o regime MiCA, que estabelece regras claras para ativos digitais. Os Estados Unidos caminham na mesma direção, com o GENIUS Act tramitando no Congresso e novos marcos para stablecoins e ativos tokenizados ganhando forma. A clareza regulatória reduz o risco jurídico e abre espaço para adoção institucional em larga escala.

O debate com o euro digital e a soberania monetária

A projeção do Citi chega em um momento de tensão entre diferentes visões sobre o futuro do dinheiro digital. Na mesma semana, Isabel Schnabel, diretora do Banco Central Europeu, declarou que o euro digital é essencial para contrabalançar os riscos que stablecoins representam à soberania monetária europeia.

O argumento do BCE é que stablecoins dolarizadas, como USDT e USDC, podem fragmentar o sistema monetário da zona do euro se ganharem adoção massiva em pagamentos e liquidação. A tokenização de títulos amplifica esse risco: se a maior parte dos ativos tokenizados for denominada em dólar e liquidada via stablecoins dolarizadas, a Europa perde influência sobre seu próprio sistema financeiro.

A Venezuela, como reportado por analistas de mercado, já serve como caso prático. Com sanções restringindo acesso ao sistema bancário internacional, stablecoins se tornaram infraestrutura financeira de fato no país. O que acontece em economias sob pressão hoje pode ser preview do que acontece em escala global amanhã.

O que muda para o investidor brasileiro

O Brasil não está à margem dessa discussão. O Banco Central brasileiro é um dos mais avançados do mundo em infraestrutura digital, com o Pix como exemplo de adoção massiva e o Drex (real digital) em fase de testes. O Drex foi desenhado especificamente para permitir tokenização de ativos financeiros em uma plataforma regulada.

Se a projeção do Citi se concretizar, investidores brasileiros poderão acessar títulos do Tesouro americano tokenizados, cotas de fundos internacionais e bonds corporativos globais com a mesma facilidade com que hoje compram CDBs em plataformas digitais. A barreira entre mercado local e global ficaria substancialmente menor.

O Coaf, órgão brasileiro de inteligência financeira, anunciou nesta semana debate com o Parlamento Europeu sobre regulação de criptoativos. Esse tipo de cooperação internacional é peça-chave para que a tokenização funcione em escala: sem harmonização regulatória, ativos tokenizados em uma jurisdição podem não ser reconhecidos em outra.

Os riscos que US$ 5,5 trilhões carregam

Projeções ambiciosas exigem ceticismo proporcional. O Citi trabalha com um cenário otimista de adoção, no qual regulação, tecnologia e demanda convergem. Mas existem gargalos reais. Interoperabilidade entre blockchains diferentes é um problema técnico não resolvido. Questões de custódia digital, em que falhas de segurança podem significar perdas irreversíveis, seguem como barreira de confiança para investidores institucionais conservadores.

Há também o risco de concentração. Se poucas plataformas dominarem a tokenização, o sistema financeiro trocaria intermediários tradicionais por novos gatekeepers digitais, sem ganho real de descentralização. O mercado de stablecoins, hoje dominado por Tether e Circle, já mostra essa dinâmica.

Ainda assim, quando um banco do porte do Citi coloca um número de US$ 5,5 trilhões em um relatório público, o sinal é inequívoco: tokenização deixou de ser tese e virou planejamento estratégico. Para quem acompanha o cruzamento entre finanças tradicionais e tecnologia blockchain, o próximo lustro promete ser o mais transformador desde a criação dos ETFs.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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