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Criptomoedas

Banco da Inglaterra alerta para risco de corrida em stablecoins

Presidente do BoE afirma que stablecoins podem sofrer corridas semelhantes às de bancos e antecipa disputa regulatória com os Estados Unidos.

Banco da Inglaterra alerta para risco de corrida em stablecoins
Foto: Andrea De Santis / Unsplash

Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra, fez um alerta direto nesta semana: stablecoins carregam risco real de corrida, semelhante ao que bancos tradicionais enfrentam em momentos de pânico. Mais do que isso, Bailey sinalizou que o Reino Unido se prepara para um embate regulatório com os Estados Unidos sobre como esses ativos devem ser supervisionados.

A declaração não surge no vazio. Enquanto Washington avança com o projeto de lei GENIUS Act para criar um marco regulatório federal para stablecoins, Londres enxerga lacunas que podem transformar esses instrumentos em vetores de instabilidade financeira global. O pano de fundo é um mercado de stablecoins que já ultrapassa US$ 230 bilhões em capitalização, com o USDT da Tether e o USDC da Circle dominando mais de 90% do volume.

O que Bailey está dizendo, na prática

O argumento central do presidente do BoE é estrutural. Stablecoins prometem paridade 1:1 com moedas fiduciárias, mas suas reservas nem sempre são compostas por ativos de liquidez imediata. Se um grande volume de detentores tentar resgatar ao mesmo tempo, o emissor pode não ter caixa para honrar todos os pedidos. É o mesmo mecanismo de uma corrida bancária clássica, só que sem a rede de segurança de um banco central atuando como emprestador de última instância.

Bailey foi além e apontou que a abordagem regulatória dos EUA pode criar assimetrias perigosas. O GENIUS Act, como explicamos em nossa cobertura sobre regulação cripto, foca em exigências de reserva e transparência para emissores americanos, mas não resolve o problema de stablecoins emitidas fora da jurisdição dos EUA que circulam livremente no mercado global.

A Venezuela como caso de teste involuntário

Enquanto reguladores debatem riscos teóricos, o mundo real já oferece evidências. A Venezuela se tornou um laboratório involuntário para stablecoins. Com sanções internacionais restringindo o acesso ao sistema bancário convencional, cidadãos e empresas venezuelanas migraram massivamente para USDT como meio de troca e reserva de valor.

Dados da Chainalysis mostram que a América Latina é a segunda região do mundo em adoção de stablecoins, com volumes que cresceram 40% nos últimos doze meses. Essa realidade cria um dilema para reguladores: restringir demais pode empurrar usuários para alternativas menos transparentes; regular de menos pode criar riscos sistêmicos.

Como analisamos em nossa seção de finanças, o Brasil também acompanha de perto esse debate. O Banco Central brasileiro já sinalizou que pretende incluir stablecoins no escopo regulatório do Drex, o real digital.

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EUA e Reino Unido em rota de colisão regulatória

O ponto mais relevante da fala de Bailey é a antecipação de um embate transatlântico. Os Estados Unidos querem que stablecoins lastreadas em dólar sejam a espinha dorsal do comércio digital global. O Reino Unido, historicamente alinhado com uma abordagem mais prudencial, teme que isso signifique exportar risco financeiro sem contrapartida regulatória.

Essa tensão não é nova. Após o colapso da TerraUSD em 2022, que evaporou US$ 40 bilhões em questão de dias, reguladores globais ficaram em alerta. A diferença é que agora o mercado amadureceu. Tether publica relatórios trimestrais de reservas atestados por empresas independentes, e a Circle obteve registro como instituição de pagamento em múltiplas jurisdições.

Mas Bailey argumenta que transparência voluntária não substitui supervisão obrigatória. E que, sem coordenação entre as maiores economias, o risco de arbitragem regulatória é inevitável. Emissores migrariam para a jurisdição mais permissiva, enquanto o risco permaneceria distribuído globalmente.

O que muda para o investidor brasileiro

Para quem opera com stablecoins no Brasil, o impacto prático ainda é indireto, mas crescente. A tendência global é de regulação mais rígida, o que pode significar requisitos mais severos de KYC em exchanges, limites para transferências internacionais via stablecoins e, eventualmente, exigências de reservas locais para emissores que operem no mercado brasileiro.

O Banco Central do Brasil tem acompanhado tanto a abordagem americana quanto a europeia, que já implementou o MiCA (Markets in Crypto-Assets) com regras específicas para stablecoins. A expectativa, conforme acompanhamos em nossas análises regulatórias, é que o Brasil adote um modelo híbrido a partir de 2026, integrando stablecoins ao arcabouço do Drex.

O alerta de Bailey não é alarmismo. É o reconhecimento de que stablecoins deixaram de ser um nicho cripto e se tornaram infraestrutura financeira. E infraestrutura financeira precisa de regras claras, ou o preço da omissão pode ser alto demais.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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