Banco da Inglaterra alerta sobre risco de corrida em stablecoins
Presidente do BoE diz que stablecoins podem sofrer corridas como bancos tradicionais e antecipa embate regulatório com os Estados Unidos sobre regras globais.
Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra, usou um discurso nesta semana para fazer o alerta mais direto de um banqueiro central sobre o risco sistêmico das stablecoins. Segundo ele, esses ativos digitais atrelados a moedas fiduciárias podem sofrer corridas semelhantes às de bancos tradicionais, algo que o colapso da TerraUSD em 2022 já demonstrou em escala menor.
O ponto central de Bailey não é novo, mas o tom é. Ele falou abertamente em um “embate” regulatório com os Estados Unidos sobre como supervisionar stablecoins que operam em múltiplas jurisdições. Enquanto Washington avança com o GENIUS Act, que busca criar regras federais para emissores americanos, Londres quer garantir que moedas como USDT e USDC, amplamente usadas por cidadãos britânicos, sigam padrões de reserva e transparência compatíveis com as exigências do Reino Unido.
Por que stablecoins preocupam bancos centrais
Stablecoins somam mais de US$ 230 bilhões em capitalização de mercado. A Tether (USDT) sozinha movimenta diariamente volumes que superam os de muitas bolsas de valores. Esse crescimento transformou o que era uma ferramenta de nicho em infraestrutura financeira relevante, especialmente em mercados emergentes.
O problema, segundo Bailey, é que a promessa de paridade 1:1 com o dólar depende da qualidade e liquidez das reservas do emissor. Se um grande número de detentores tentar resgatar ao mesmo tempo, o cenário é idêntico ao de uma corrida bancária clássica. Sem seguro-depósito, sem emprestador de última instância, o prejuízo recai integralmente sobre o usuário.
A Venezuela oferece um contraexemplo interessante. Como reportado por veículos internacionais, stablecoins se tornaram ferramenta essencial para venezuelanos contornarem sanções e preservarem poder de compra. O uso prático não elimina o risco, mas mostra por que a adoção cresce mesmo sem regulação clara.
O embate regulatório entre EUA e Reino Unido
O pano de fundo da fala de Bailey é a disputa por jurisdição. O GENIUS Act, que o Senado americano já discute, pretende exigir que emissores de stablecoins mantenham reservas em títulos do Tesouro americano e passem por auditorias regulares. A lei, porém, foi desenhada para supervisionar emissores domiciliados nos EUA.
O Reino Unido teme que essa abordagem crie uma assimetria: stablecoins reguladas nos EUA circulariam livremente em solo britânico sem cumprir as regras locais. Bailey mencionou explicitamente que Londres não aceitará uma “regulação por procuração” vinda de Washington.
A Europa já se adiantou com o MiCA (Markets in Crypto-Assets), que entrou em vigor em 2024 e impõe regras rígidas para emissores de stablecoins na União Europeia. A Tether, por exemplo, precisou reestruturar operações para continuar atendendo clientes europeus. O Reino Unido, pós-Brexit, precisa construir seu próprio arcabouço.
O que isso significa para o investidor brasileiro
O Brasil é um dos maiores mercados de stablecoins do mundo. Dados do Banco Central mostram que a maior parte do volume de criptomoedas transacionado no país envolve USDT, não Bitcoin. Brasileiros usam stablecoins para remessas, proteção cambial e acesso a serviços DeFi.
Se as duas maiores praças financeiras do mundo entrarem em conflito sobre padrões regulatórios, o efeito cascata atinge emissores, exchanges e, por consequência, o usuário final. Uma eventual exigência de que stablecoins cumpram regras de ambas as jurisdições pode encarecer operações ou restringir o acesso.
A regulação brasileira para criptoativos, sob o guarda-chuva do Banco Central, ainda está em construção. A tendência é que o Brasil observe o desfecho do embate anglo-americano antes de definir suas próprias regras para stablecoins, o que pode significar meses de incerteza regulatória.
Corrida bancária digital é diferente da tradicional
Bailey fez questão de apontar uma diferença crucial: corridas em stablecoins acontecem na velocidade da internet. No sistema bancário tradicional, filas em agências e limites de saque criam fricção natural que dá tempo para intervenções. No mercado de stablecoins, bilhões podem ser resgatados em horas via contratos inteligentes.
O colapso da UST, stablecoin algorítmica da Terra/Luna, levou menos de 72 horas para destruir US$ 40 bilhões em valor. Stablecoins lastreadas como USDT e USDC têm estrutura diferente, mas o princípio de confiança é o mesmo: no momento em que o mercado duvida da paridade, a espiral começa.
Para Bailey, a solução passa por exigir reservas segregadas, auditorias em tempo real e mecanismos de resgate ordenado. Nada disso existe hoje de forma padronizada no mercado global.
O debate não é se stablecoins devem ser reguladas, mas quem define as regras e quem as fiscaliza. A resposta a essa pergunta vai moldar o futuro do mercado cripto nos próximos anos.
Sobre o autor
Renato MouraJornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.