Samsung aposta em chips de IA para recuperar terreno contra TSMC
Samsung anuncia expansão de produção de chips HBM para servidores de IA e mira competir com a TSMC, que domina 60% do mercado global de fundição.
A Samsung Electronics está acelerando sua aposta em semicondutores voltados para inteligência artificial como estratégia para reduzir a distância em relação à TSMC, a gigante taiwanesa que domina o mercado global de fundição de chips. De acordo com informações da Nikkei Asia, a companhia sul-coreana planeja expandir significativamente a produção de memórias HBM (High Bandwidth Memory), componente essencial em servidores que executam modelos de IA generativa.
A movimentação acontece em um momento crucial para a indústria de semicondutores. A demanda por chips de alto desempenho explodiu nos últimos dois anos, impulsionada pela corrida de empresas como Microsoft, Google, Meta e Amazon para construir data centers capazes de treinar e rodar modelos de linguagem cada vez maiores.
Por que os chips HBM são estratégicos na era da inteligência artificial
A memória HBM é um tipo de chip de memória empilhado verticalmente que oferece largura de banda muito superior às memórias tradicionais. Enquanto uma memória DDR5 convencional entrega cerca de 50 GB/s de largura de banda, os chips HBM3E mais recentes alcançam mais de 1.200 GB/s. Essa diferença é o que permite que GPUs como as da Nvidia processem os imensos volumes de dados necessários para treinar modelos de IA.
A Nvidia, principal cliente desse tipo de componente, já utiliza HBM3E em suas GPUs H200 e B200, que equipam os data centers mais avançados do mundo. Segundo estimativas da TrendForce, o mercado global de HBM deve movimentar cerca de US$ 25 bilhões em 2025, um salto de 120% em relação a 2024.
Atualmente, a SK Hynix, também sul-coreana, lidera o segmento de HBM com aproximadamente 50% de participação. A Samsung ocupa a segunda posição com cerca de 40%, enquanto a americana Micron detém os 10% restantes. A estratégia da Samsung é inverter essa ordem até o final de 2026.
Samsung vs TSMC: a disputa que define o futuro da tecnologia
Na fundição de chips lógicos (os processadores propriamente ditos), o cenário é bem mais desafiador para a Samsung. A TSMC detém aproximadamente 60% do mercado global, segundo dados da Counterpoint Research, enquanto a Samsung responde por cerca de 12%.
A diferença se deve, em parte, ao rendimento de produção. A TSMC consegue taxas de aproveitamento (yield) significativamente superiores em processos avançados de 3 e 5 nanômetros. Isso significa que, para cada wafer de silício processado, a TSMC produz mais chips funcionais, reduzindo o custo unitário.
A Samsung reconhece o problema. Em sua última teleconferência de resultados, a diretoria afirmou que está investindo pesadamente para melhorar o yield de seus processos de 3nm com tecnologia GAA (Gate-All-Around), uma arquitetura de transistor que promete superar os limites do FinFET utilizado pela TSMC.
Se a Samsung conseguir entregar chips GAA com rendimento competitivo, poderá atrair clientes que hoje dependem exclusivamente da TSMC, como Qualcomm e até a própria Nvidia. A diversificação de fornecedores é um tema crescente entre as big techs, especialmente diante de tensões geopolíticas envolvendo Taiwan.
O fator geopolítico: por que governos estão subsidiando fábricas de chips
A concentração da produção de semicondutores avançados em Taiwan é considerada um risco estratégico por Estados Unidos, Europa e Japão. Um eventual conflito no Estreito de Taiwan poderia paralisar cadeias de suprimento globais de tecnologia, afetando desde smartphones até equipamentos médicos.
Por isso, governos ao redor do mundo estão oferecendo bilhões em subsídios para atrair fábricas de chips para seus territórios. O CHIPS Act americano destinou US$ 52,7 bilhões para incentivos à produção doméstica. O European Chips Act prevê mobilizar até 43 bilhões de euros. O Japão já aprovou pacotes que somam mais de US$ 13 bilhões.
A Samsung é beneficiária direta desse movimento. A empresa está construindo uma fábrica de US$ 17 bilhões em Taylor, no Texas, com apoio de subsídios federais americanos. A previsão é de que a unidade entre em operação no segundo semestre de 2025, produzindo chips em processos avançados para clientes de IA e computação de alto desempenho.
No Japão, a empresa negocia incentivos para uma possível unidade de produção de HBM em Yokohama, o que ampliaria sua capacidade de atender à demanda asiática sem depender exclusivamente de suas fábricas na Coreia do Sul.
Como a corrida por chips de IA impacta o investidor
O setor de semicondutores se tornou um dos pilares de valorização dos mercados globais nos últimos dois anos. O índice Philadelphia Semiconductor (SOX) acumula alta de mais de 80% desde o início de 2024, impulsionado pela narrativa de IA.
Para o investidor que acompanha tecnologia, entender a cadeia de valor dos chips é fundamental. No topo estão as empresas de design, como Nvidia e AMD. No meio, as fundições como TSMC e Samsung. Na base, os fabricantes de equipamentos de litografia, como a holandesa ASML, que produz as máquinas EUV sem as quais nenhum chip avançado pode ser fabricado.
As ações da Samsung negociam a múltiplos significativamente mais baixos que os da TSMC. Enquanto a taiwanesa é avaliada a cerca de 25 vezes seus lucros projetados para 2025, a Samsung opera em torno de 12 vezes. Essa diferença reflete tanto o desconto de conglomerado (a Samsung atua em dezenas de segmentos) quanto a percepção de desvantagem tecnológica na fundição.
O cenário pode mudar se a Samsung demonstrar avanços concretos em rendimento de produção e ganhar participação no mercado de HBM. De acordo com analistas do Morgan Stanley, a divisão de semicondutores da Samsung pode representar até 70% do valor da companhia caso a estratégia de IA se materialize.
O que esperar nos próximos trimestres
O segundo semestre de 2025 será decisivo para a Samsung. A empresa deve divulgar resultados do segundo trimestre em julho, e o mercado espera sinais claros de melhora nas margens da divisão de chips, que foi deficitária durante boa parte de 2024 devido ao excesso de estoque de memórias convencionais.
A recuperação do preço dos chips de memória DRAM e NAND, que segundo a DRAMeXchange já acumula alta de 15% a 20% no primeiro semestre de 2025, deve ajudar as margens. Mas é o desempenho no segmento de HBM e na fundição avançada que vai definir se a Samsung consegue, de fato, se reposicionar como protagonista na era da IA.
A disputa entre Samsung e TSMC ilustra um tema mais amplo: na economia global de 2025, quem controla a produção de chips controla o futuro da inteligência artificial. E quem controla a IA terá vantagem decisiva em praticamente todos os setores da economia, de finanças a saúde, de logística a entretenimento.