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Wall Street sem rumo: o que o mercado sinaliza antes do CPI

Bolsas de NY encerraram mistas em dia de baixa liquidez. O mercado espera o CPI de setembro, enquanto chips caem e o Fed reforça tom restritivo.

Wall Street sem rumo: o que o mercado sinaliza antes do CPI
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

As bolsas de Nova York fecharam sem direção definida nesta segunda-feira (12), em uma sessão de liquidez reduzida por feriado nos Estados Unidos. O Dow Jones subiu 0,38%, aos 51.850 pontos. O S&P 500 recuou 0,06%, para 7.807 pontos. O Nasdaq perdeu 0,44%, fechando em 27.245 pontos.

O pregão refletiu um mercado em compasso de espera. Investidores optaram por cautela antes da divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) de setembro, dado que pode redefinir as apostas sobre os próximos passos do Federal Reserve na condução da política monetária americana.

Mais do que um dia sem grandes movimentos, a sessão revelou tensões estruturais em dois dos setores mais relevantes para o mercado global: inteligência artificial e semicondutores. A divergência entre esses segmentos conta uma história que vale acompanhar.

Meta avança enquanto setor de chips tropeça

A Meta foi o destaque positivo do dia, com alta de 3,38%. O CEO Mark Zuckerberg apresentou o Muse Wonder, novo modelo de inteligência artificial que, segundo a empresa, coloca a dona do Facebook na vanguarda do desenvolvimento de IA. O mercado reagiu bem ao posicionamento, reforçando a tese de que as big techs seguem disputando a liderança no segmento de IA generativa.

O cenário foi oposto para as empresas de semicondutores. Broadcom caiu 1,88% e Intel recuou 3,20% após seus CEOs alertarem sobre um risco que poucos investidores estavam precificando: o acesso a financiamento pode se tornar o maior gargalo para a construção de infraestrutura de IA.

Hock Tan, CEO da Broadcom, declarou em conferência em Singapura que questões de capital podem superar até a escassez de processadores, chips de memória ou energia elétrica como obstáculo para o crescimento do setor. Não é um alerta trivial. Se a infraestrutura de IA depende de chips, e os fabricantes de chips não conseguem financiar a expansão, o ciclo inteiro de crescimento fica comprometido.

Ameaça chinesa pressiona fabricantes de memória

Outro vetor de pressão veio da China. A fabricante de chips de memória CXMT anunciou avanços no desenvolvimento de um design que compete diretamente com os líderes globais do setor, com capacidade ampliada de armazenamento de dados.

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O impacto foi imediato. Micron e a ADR da SK Hynix recuaram cerca de 4%. A Sandisk caiu quase 6%. Seagate e Western Digital perderam 3,8% e 2,6%, respectivamente. A reação mostra que o mercado leva a sério a possibilidade de uma nova frente competitiva que pode comprimir margens dos fabricantes ocidentais.

Para quem investe no setor de tecnologia, a mensagem é dupla: os custos de capital estão subindo e a concorrência está ficando mais acirrada. É uma combinação que historicamente precede revisões de lucro para baixo.

Fed mantém discurso duro às vésperas do CPI

Beth Hammack, presidente do Federal Reserve de Cleveland, reforçou o tom restritivo da autoridade monetária. Segundo ela, será necessário manter juros elevados para trazer a inflação de volta à meta de 2%, diante de pressões de preços que classificou como “amplas” e de uma economia que continua crescendo em ritmo sustentado.

Esse discurso ganha ainda mais peso com a divulgação iminente do CPI de setembro. O dado é o principal termômetro que o Fed utiliza para calibrar suas decisões. Uma leitura acima do esperado pode empurrar as expectativas de corte de juros ainda mais para frente, o que tende a pressionar ativos de risco.

Vale lembrar que o mercado de trabalho americano segue aquecido, o que limita o espaço para flexibilização monetária. Como analisamos em nossa cobertura sobre o cenário macroeconômico, a combinação de emprego forte e inflação persistente é exatamente o tipo de ambiente que mantém o Fed conservador por mais tempo.

Petróleo sobe e adiciona mais uma variável à equação

O petróleo Brent para dezembro subiu 1,84%, fechando a US$ 106,65 o barril na ICE de Londres. A alta adiciona uma camada de complexidade ao cenário inflacionário. Energia mais cara se traduz em custos de transporte, produção e logística mais elevados, alimentando justamente o tipo de pressão que o Fed quer conter.

Com o barril acima de US$ 100, o risco de a inflação surpreender para cima no CPI de setembro não é desprezível. Se isso acontecer, o impacto sobre mercados de renda variável tende a ser negativo, especialmente para setores sensíveis a juros como tecnologia e small caps.

O que esperar nos próximos dias

A agenda da semana é densa. Além do CPI, o mercado aguarda os balanços dos grandes bancos americanos, que darão pistas sobre a saúde do crédito, a inadimplência e o apetite por risco do sistema financeiro. Resultados fracos podem confirmar o temor de que o financiamento está, de fato, ficando mais escasso.

Para o investidor brasileiro, o cenário merece atenção redobrada. O Ibovespa acompanhou a indefinição de Nova York, e a direção do mercado doméstico nos próximos dias dependerá em grande medida do que vier dos EUA. Juros americanos mais altos por mais tempo significam dólar mais forte, pressão sobre emergentes e menos espaço para o Banco Central brasileiro flexibilizar sua própria política monetária.

A sessão de segunda-feira não foi sobre grandes movimentos. Foi sobre o que está por vir. E o mercado, claramente, ainda não tem certeza do que esperar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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