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Vale a pena ter Bitcoin e ouro na mesma carteira?

JPMorgan diz que Bitcoin está ganhando do ouro como hedge contra desvalorização monetária. Veja o que os dados mostram para quem monta carteira.

Vale a pena ter Bitcoin e ouro na mesma carteira?
Foto: Alesia Kozik / Unsplash

A pergunta não é nova, mas a resposta está mudando. Um relatório do JPMorgan publicado nesta semana aponta que o Bitcoin está ganhando terreno sobre o ouro como instrumento de proteção contra desvalorização monetária, a chamada “debasement trade”. Para quem monta carteira pensando em preservação de patrimônio, o dado é relevante e merece contexto.

A tese é simples: em um mundo de expansão fiscal permanente, juros reais negativos em várias economias e tensões geopolíticas crescentes, investidores buscam ativos que não podem ser diluídos por decisões de bancos centrais. Historicamente, o ouro ocupou esse espaço sozinho. Agora, o Bitcoin está dividindo o palco.

O que o JPMorgan está dizendo, exatamente

O banco americano analisou os fluxos de capital para ETFs de Bitcoin e de ouro nos últimos 12 meses. A conclusão: o Bitcoin vem capturando uma fatia crescente dos recursos que antes iam exclusivamente para o metal. Desde que os ETFs de Bitcoin à vista foram aprovados nos EUA em janeiro de 2024, mais de US$ 60 bilhões entraram nesses produtos. Só na primeira semana de maio de 2025, o ETF da BlackRock (IBIT) acumulou US$ 1 bilhão em novos aportes.

O relatório destaca que o conflito entre Irã e parceiros regionais acelerou essa dinâmica. Nos episódios anteriores de tensão geopolítica, o ouro subia de forma mais pronunciada que o Bitcoin. Desta vez, a cripto reagiu com força semelhante ou superior. Para o JPMorgan, isso sinaliza uma mudança estrutural no comportamento do investidor institucional.

É importante ressaltar que o banco não está abandonando a tese do ouro. A recomendação é que ambos os ativos coexistam nas carteiras como instrumentos complementares de proteção. A diferença é que, até dois anos atrás, o Bitcoin sequer era considerado nessa conversa por grandes bancos de investimento.

Os números que sustentam a comparação

Em 2025, o ouro acumula alta de aproximadamente 22%, impulsionado por compras recordes de bancos centrais e pela incerteza sobre a política monetária americana. O Bitcoin, por sua vez, sobe cerca de 30% no mesmo período, beneficiado pelos fluxos para ETFs e pela narrativa de escassez programada após o halving de abril de 2024.

A correlação entre os dois ativos permanece baixa, em torno de 0,15 nos últimos 12 meses. Isso significa que adicionar ambos a uma carteira diversificada pode reduzir a volatilidade total sem sacrificar o retorno. Como abordamos na seção de criptomoedas, a descorrelação é um dos argumentos mais fortes para a inclusão do Bitcoin em portfólios tradicionais.

Há, contudo, uma diferença crucial: a volatilidade. Enquanto o ouro tem volatilidade anualizada em torno de 15%, o Bitcoin opera próximo de 50%. Isso significa que, para o mesmo nível de exposição nominal, o risco é muito diferente. Gestores que tratam o Bitcoin como substituto direto do ouro podem estar subestimando a amplitude dos drawdowns.

Como montar uma alocação que faça sentido

A maioria dos gestores institucionais que adota a “debasement trade” trabalha com uma proporção entre 60% ouro e 40% Bitcoin dentro da fatia da carteira destinada a proteção contra desvalorização. Essa fatia, por sua vez, costuma representar entre 5% e 15% do portfólio total, dependendo do perfil de risco.

Para o investidor pessoa física no Brasil, a mecânica é semelhante. Os ETFs listados na B3, como o GOLD11 para ouro e o BITH11 ou IBIT39 para Bitcoin, oferecem acesso simplificado a ambos os ativos. A entrada massiva de capital nos ETFs de Bitcoin tem reduzido o spread e aumentado a liquidez desses produtos.

Um ponto frequentemente ignorado é o horizonte temporal. O ouro funciona como proteção em qualquer janela, incluindo meses de turbulência aguda. O Bitcoin, apesar de performar bem em ciclos de 12 a 48 meses, pode apresentar quedas de 30% ou mais em janelas curtas. Quem aloca sem estar preparado para essa volatilidade tende a vender no pior momento.

O que os dados on-chain mostram sobre o momento atual

Indicadores de rede reforçam a tese de acumulação institucional. O número de endereços com mais de 100 BTC atingiu o maior nível desde 2021, segundo dados da Glassnode. Ao mesmo tempo, o saldo de Bitcoin nas exchanges caiu para o menor patamar em três anos, sinalizando que investidores estão transferindo moedas para custódia fria com intenção de manter posições de longo prazo.

Esse comportamento é consistente com a narrativa de proteção patrimonial. Investidores que usam Bitcoin como hedge não fazem trading de curto prazo. Eles compram, tiram da exchange e seguram. O mesmo padrão se observa no ouro físico: em 2024, a demanda por barras e moedas subiu 20% globalmente, segundo o World Gold Council.

A conclusão prática é que Bitcoin e ouro não são concorrentes diretos, e sim complementares. O ouro oferece estabilidade e histórico milenar. O Bitcoin oferece potencial de valorização assimétrica e resistência à censura. Juntos, cobrem um espectro mais amplo de riscos do que qualquer um dos dois sozinho.

A mudança de postura do JPMorgan é simbólica. O mesmo banco cujo CEO chamou o Bitcoin de “fraude” em 2017 agora o posiciona como componente legítimo de uma estratégia de proteção patrimonial. Para o investidor que ainda trata a questão como “Bitcoin ou ouro”, a resposta do mercado em 2025 é cada vez mais clara: os dois. A proporção entre eles é que depende do apetite por risco e do horizonte de cada um.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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