Criptomoedas

USDT, da Tether, recebe pior nota da S&P; CEO reage e mercado testa resiliência

S&P rebaixa a avaliação de estabilidade do USDT para 5 (fraca) citando maior exposição a ativos de risco. Tether rebate, aponta supercolateralização e dados mostram operação estável, enquanto o USDC supera o USDT em volume mensal pela primeira vez.

USDT, da Tether, recebe pior nota da S&P; CEO reage e mercado testa resiliência

Agência rebaixa avaliação de estabilidade do USDT para 5 (fraca) citando aumento de ativos de maior risco; Ardoino critica modelo e dados mostram operação estável

A stablecoin USDT, da Tether, recebeu nesta quinta-feira (27) a pior avaliação possível na métrica de estabilidade da S&P Global Ratings, que reduziu a nota de 4 (restrita) para 5 (fraca). A mudança colocou o token na mesma faixa de rivais como TrueUSD (TUSD) e USDe, da Ethena, e reacendeu o debate sobre a composição e a transparência das reservas. Para o mercado, o rebaixamento testa a percepção de risco de um ativo que hoje é central para a liquidez em cripto.

Segundo o relatório, a S&P citou o aumento da exposição a ativos considerados de maior risco, que passou de 17% no ano passado para 24%. Entram nessa cesta Bitcoin, ouro, metais preciosos, títulos corporativos e empréstimos garantidos, instrumentos que, na leitura da agência, carregam menor transparência e riscos adicionais de crédito e câmbio. O ponto mais sensível foi a alocação em Bitcoin, agora cerca de 5,6% das reservas, acima da margem de sobrecolateralização de 3,9%.

O que está em jogo

Na prática, a crítica mira a capacidade de manter o peg em momentos de estresse caso haja uma queda brusca desses ativos voláteis. Stablecoins colateralizadas dependem de um mecanismo simples: resgates a 1:1 contra reservas líquidas e de alta qualidade. Quanto maior a fatia em instrumentos sujeitos a oscilação ou menor visibilidade, maior o risco de mismatch entre liquidez imediata e passivos à vista. A S&P também apontou pouca visibilidade sobre parte da gestão de investimentos fora dos Treasuries de curto prazo, onde a Tether detém mais de US$ 130 bilhões.

Apesar do rebaixamento, não houve desancoragem relevante nem saída expressiva das exchanges. De acordo com Jake Kennis, analista da Nansen, os dados on-chain e de plataformas indicam estabilidade operacional, em linha com ciclos anteriores de estresse nos quais o USDT manteve resgates na paridade. Ou seja, por ora, o risco percebido pela agência não se traduziu em corrida por liquidez.

Liquidez, volumes e a disputa com o USDC

O USDT segue dominante, com mais de 60% da capitalização entre stablecoins atreladas ao dólar, em um setor que superou US$ 300 bilhões recentemente. Ainda assim, houve um sinal competitivo relevante: pela primeira vez, o USDC, da Circle, superou o USDT em volume mensal, com US$ 764,6 bilhões contra US$ 724,8 bilhões. Historicamente, o USDT costumava negociar o dobro do USDC, e essa inversão sugere que parte dos fluxos pode estar priorizando critérios de transparência e acesso bancário, sobretudo em ambientes regulatórios mais rígidos.

A resposta da Tether

O CEO Paolo Ardoino reagiu publicamente, classificando a S&P como uma “máquina de propaganda” e argumentando que modelos tradicionais de avaliação falharam no sistema financeiro legado. A empresa, hoje sediada em El Salvador, reportou US$ 181,2 bilhões em reservas para US$ 174,4 bilhões em USDT, sugerindo supercolateralização. Desse montante, 77,23% estariam em caixa, com mais de 80% alocados em títulos do Tesouro dos EUA de curto prazo, enquanto o restante se reparte entre títulos corporativos, metais preciosos, Bitcoin e empréstimos garantidos– justamente os itens que motivaram o alerta da S&P.

Como interpretar o risco

O cerne do debate não é apenas o tamanho das reservas, mas sua qualidade e liquidez. Em cenários extremos, oscilações de Bitcoin e metais podem exigir vendas rápidas ou haircuts, pressionando a manutenção do peg. Por outro lado, a presença massiva de Treasuries de curto prazo sustenta a capacidade de resgate, enquanto a evidência empírica recente aponta resiliência. O equilíbrio entre retorno marginal de portfólio e previsibilidade de caixa continua sendo o ponto de fricção entre a Tether e avaliadores externos.

Para investidores e empresas que usam stablecoins como caixa operacional ou hedge de curto prazo, a lição é clara: entenda o mecanismo de lastro, a composição das reservas e a política de resgates. Stablecoins servem para mitigar a volatilidade típica de cripto, mas não eliminam riscos de contraparte, regulação ou liquidez. O mercado, até aqui, dá ao USDT o benefício da dúvida; a S&P, não. O desfecho, como sempre, dependerá menos de declarações e mais do comportamento em eventos de estresse.

Para quem deseja compreender melhor o papel das stablecoins como hedge, diferenças entre modelos de colateralização e como avaliar riscos de paridade, o BlockTrends oferece o curso Stablecoins: Qual é o Melhor Hedge?, que explora fundamentos, mecanismos de peg e implicações práticas para investidores e empresas.

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