Finanças

Tokenização de títulos do Tesouro bate US$ 14,6 bi

Mercado de treasuries tokenizados cresceu 420% em 12 meses e já atrai BlackRock, Franklin Templeton e Securitize. Wall Street e cripto nunca estiveram tão próximos.

Tokenização de títulos do Tesouro bate US$ 14,6 bi
Foto: www.kaboompics.com / Unsplash

O mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos tokenizados em blockchain atingiu US$ 14,6 bilhões em valor total, segundo dados compilados pela rwa.xyz. O número representa um crescimento de cerca de 420% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o setor girava em torno de US$ 2,8 bilhões.

Mais do que um marco para entusiastas de cripto, o dado sinaliza uma convergência estrutural entre o mercado de capitais tradicional e a infraestrutura de blockchain. Nomes como BlackRock, Franklin Templeton e Securitize lideram o movimento, e a SEC começou a sinalizar disposição para criar regras mais claras para ativos tokenizados.

Por que Wall Street está tokenizando treasuries

A lógica é simples: títulos do Tesouro americano são o ativo mais líquido e seguro do planeta. Ao colocá-los em blockchain, gestoras conseguem oferecer acesso 24 horas por dia, 7 dias por semana, com liquidação quase instantânea. Isso elimina camadas de intermediários e reduz custos operacionais que, no sistema tradicional, envolvem custódia, câmaras de compensação e prazos de D+2.

O fundo BUIDL da BlackRock, lançado em parceria com a Securitize na rede Ethereum, já acumula mais de US$ 2,5 bilhões em ativos sob gestão. A Franklin Templeton opera seu fundo BENJI desde 2023, e nomes como Ondo Finance e Maple expandiram agressivamente suas ofertas no último ano. Como exploramos em nossa cobertura de finanças, a tendência de digitalização de ativos reais está entre as mais relevantes do mercado.

O apelo vai além da eficiência. Para protocolos DeFi, treasuries tokenizados funcionam como colateral de alta qualidade. Plataformas como Aave e MakerDAO já utilizam esses ativos como lastro para operações de empréstimo, criando uma ponte direta entre o rendimento dos títulos do governo americano e o ecossistema de finanças descentralizadas.

O gargalo regulatório que a SEC tenta resolver

Apesar do crescimento explosivo, o enquadramento legal de títulos tokenizados ainda é uma zona cinzenta. A SEC publicou recentemente orientações sobre como tokens lastreados em ativos reais podem se qualificar sob a legislação de valores mobiliários existente, mas analistas apontam que as diretrizes ficam aquém de uma regulamentação formal.

O problema central é a resiliência jurídica. Uma orientação (guidance) pode ser revogada por uma nova gestão da agência. Uma regra aprovada por processo formal (rulemaking) oferece previsibilidade de longo prazo, algo que gestores institucionais exigem antes de alocar capital em escala. Como discutimos na análise sobre regulação do mercado cripto, a falta de clareza regulatória continua sendo o principal freio para adoção institucional plena.

Ainda assim, o mercado não esperou. O volume de treasuries tokenizados quintuplicou mesmo sem regras definitivas, o que sugere que os participantes estão confortáveis o suficiente com o risco regulatório atual para seguir adiante.

O que muda para o investidor brasileiro

O Brasil não está alheio a essa tendência. O Mercado Bitcoin registrou R$ 284 milhões em ativos tokenizados apenas no primeiro trimestre deste ano, liderando o segmento no país. O Drex, a moeda digital do Banco Central, foi desenhado justamente para permitir a liquidação de ativos tokenizados em infraestrutura regulada.

Para o investidor brasileiro, a convergência entre treasuries e blockchain abre uma possibilidade concreta: acesso direto a rendimentos em dólar de títulos americanos, sem necessidade de conta no exterior, com liquidação em minutos. Plataformas como Ondo e Mountain Protocol já oferecem versões tokenizadas acessíveis por carteiras digitais.

O risco, naturalmente, está na camada de smart contract e na custódia do ativo subjacente. Se o contrato inteligente que representa o título tiver uma falha, ou se o emissor do token não mantiver a paridade com o lastro, o investidor pode ficar exposto. É um risco novo, diferente dos tradicionais, e que exige diligência.

A colisão que está apenas começando

O número de US$ 14,6 bilhões parece modesto quando comparado ao mercado total de títulos do Tesouro americano, que supera US$ 27 trilhões. Mas o ritmo de crescimento é o que importa. Em 18 meses, o setor saiu de uma curiosidade para um mercado que atrai os maiores gestores de ativos do mundo.

Larry Fink, CEO da BlackRock, tem repetido que “a tokenização de ativos financeiros será a próxima geração de mercados”. Quando o maior gestor do planeta, com US$ 11,5 trilhões sob gestão, diz isso, o mercado escuta. Conforme acompanhamos em nossa seção de tecnologia, a infraestrutura de blockchain está finalmente encontrando seu caso de uso institucional mais sólido.

A grande questão agora não é se a tokenização de ativos reais vai acontecer, mas quem vai controlar a infraestrutura. Redes como Ethereum, Solana e Avalanche disputam esse mercado, enquanto players tradicionais como JPMorgan (com a Onyx) e Citi constroem soluções proprietárias. A resposta definirá a arquitetura financeira da próxima década.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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