Artigo

Tokenização: a Blockchain Chegou ao Mercado Financeiro


Janeiro 16, 2020 | nenhum comentário
Por Gabriel Aleixo

A tokenização é uma expressão que vem ganhando atenção crescente em múltiplos mercados. Embora ainda não seja um termo corriqueiro em muitas indústrias, nos próximos anos isso tende a mudar. Em especial devido à adoção que se espera por parte de setores como o mercado financeiro e o mercado imobiliário, não somente o número de instituições construindo soluções baseadas em ativos digitais deve aumentar, mas também o números de usuários de serviços dessa natureza.

 

No contexto dos criptoativos, o nome “token” se refere genericamente à unidade de conta de uma rede ou aplicação construída a partir da tecnologia blockchain. Caso se trate de rede de pagamentos e reserva de valores como a do Bitcoin em seu desenho original, o “token” representará unidades monetárias. Caso se trate de uma aplicação de eleição, o “token” transacionável por meio da blockchain representará “votos”. E assim sucessivamente… Logo, tokenizar nada mais é do que digitalizar um ativo, criando uma representação dele na forma de um token transacionável via blockchain, preservando boa parte ou a integralidade das características financeiras que este possui.

 

Esses ativos mantêm todas as qualidades inerentes à rede blockchain em cima da qual operam, o que em alguns casos significa dizer que as transações correspondentes a eles podem ser consideradas imutáveis, transparentes e seguras. Tudo depende unicamente da maturidade e da tecnologia da rede escolhida para “tokenizar” um determinado ativo, o que pode ser feito com os mais variados propósitos. Representar unidades de participação financeira em uma companhia, estabelecer um mecanismo para pontos de milhagem ou fidelidade de uma companhia, operacionalizar o registro de propriedade de bens digitais como domínios de websites ou mesmo emitir títulos financeiros diversos (precatórios, propriedades de imóveis, títulos de renda fixa, etc) numa rede blockchain são apenas alguns dentre os vários exemplos possíveis.

 

A programabilidade desses tokens é outro grande atrativo. Podem haver controle estrito e transparente de acesso, auditabilidade sobre quando e como se deu a emissão de novas unidades e até mesmo a ativação de um comportamento no token, uma vez que determinada condicionante tenha sido cumprida. É vasta a gama de novos serviços possíveis a partir de funcionalidades como a automação de pagamentos e empréstimos, concessão de heranças, remuneração automática pelo desempenho de tarefas específicas, distribuição de proventos, etc.

 

A Ethereum é uma plataforma descentralizada que implementou em 2015 uma blockchain para uso geral, criada com o intuito de que qualquer usuário tenha a liberdade de escrever linhas de código em sua base distribuída de dados, permitindo assim que contratos digitais sejam executados nela. Pode-se compreendê-la como uma tentativa pioneira de generalização da tecnologia blockchain, oferecendo pela primeira vez um conjunto complexo de ferramentas a partir das quais seria possível construir de maneira descentralizada o que quer que um computador fosse capaz de executar. Múltiplos experimentos nesse sentido foram e vêm sendo criados desde então, mas o maior caso de uso da rede, evidenciado pelo boom ocorrido em 2017, é a possibilidade de se criar tokens programáveis na rede.

 

Embora a funcionalidade tenha sido largamente utilizada de má fé ao longo de 2017, uma vez que inúmeros projetos buscavam levantar recursos financeiros por meio de financiamento colaborativo via blockchain nas famosas ICOs (initial coin offerings) sem ter um produto funcional ou viável, essa euforia desmedida vem dando lugar a um crescente amadurecimento. Com isso, não apenas as funcionalidades de tokenização abertas pela própria rede Ethereum vêm sendo utilizadas de forma um pouco mais racional nesse mercado (ainda que scams ocorram), como também evoluíram a padronização e a diversidade de plataformas disponíveis no segmento.

 

Onde antes a Ethereum reinava praticamente sem concorrentes hoje já existem nomes de peso e muito bem capitalizados, como a rede Liquid (que roda paralela ao Bitcoin) e a plataforma Tezos, além de projetos mais recentes sendo lançados como a Hathor. Criada pela gigante Blockstream, que reúne alguns dos maiores especialistas do mundo em segurança da informação, a Liquid é uma rede “agregada” ao protocolo Bitcoin. Logo, assegurada pelo imenso poder computacional que a mantém, ela torna possível a criação de ativos digitais transacionáveis de forma rápida e privativa.

 

Por sua vez, a Tezos se destaca por ser uma rede focada em estabilidade, pensada do zero para evitar qualquer forma de disrupção. Assim, trata-se de uma plataforma interessante na qual construir tokens com abordagem mais conservadora e que necessitam dessa previsibilidade a longo-prazo. “Correndo por fora”, mas com potencial de atingir um nicho que hoje segue ignorado pelas plataformas prevalentes, a Hathor é focada na simplicidade. Operando sob a ideia de que utilizando a tecnologia desenvolvida pela empresa qualquer pessoa ou empresa pode criar seu próprio token em menos de um minuto, todo o processo de tokenização pode ser feito a partir do próprio aplicativo de carteira sem a necessidade de programação.

 

Não restam dúvidas de que com tanto esforço e capital sendo aportado nesse mercado, a tokenização já é uma das maiores tendências para os próximos anos quando se fala de criptoativos. Resta saber se as barreiras tecnológicas, regulatórias e de usabilidade que ainda atrasam a adoção em mais larga escala serão superadas. Em caso positivo, a tendência deverá “furar” a bolha dos que hoje já investem em ativos digitais, tornando-se, na melhor acepção da expressão, lugar comum no mercado financeiro como um todo.

 

 

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