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Tether lucra US$ 1 bi no trimestre e acumula reserva recorde

Emissora da maior stablecoin do mundo reportou resultados trimestrais robustos, com reserva excedente recorde de US$ 8,2 bi reforçando a tese de solidez financeira.

Tether lucra US$ 1 bi no trimestre e acumula reserva recorde
Foto: Marta Branco / Unsplash

A Tether, empresa por trás do USDT, reportou lucro superior a US$ 1 bilhão no primeiro trimestre de 2025. O número já seria expressivo para qualquer fintech, mas o dado que chamou mais atenção do mercado foi outro: a reserva excedente, o colchão financeiro que sustenta a paridade do token com o dólar, atingiu o recorde de US$ 8,2 bilhões.

Para contexto, essa reserva excedente era de US$ 5,4 bilhões no final de 2023. O crescimento de 52% em pouco mais de um ano reflete uma estratégia deliberada da empresa de acumular capital acima do exigido, justamente para blindar a operação contra crises de confiança como as que abalaram stablecoins concorrentes no passado.

De onde vem o lucro bilionário da Tether

A principal fonte de receita da Tether são os rendimentos sobre os ativos que lastreiam cada USDT em circulação. A empresa mantém a maior parte de suas reservas em títulos do Tesouro americano, que seguem pagando juros elevados diante da política monetária restritiva do Federal Reserve. Com a taxa básica americana ainda acima de 4% ao ano, cada dólar depositado por usuários que compram USDT gera retorno significativo para a companhia.

É um modelo que poucos negócios no setor cripto conseguem replicar. Enquanto exchanges dependem de volume de negociação e protocolos DeFi oscilam conforme o apetite por risco, a Tether lucra independentemente da direção do mercado. Basta que o USDT continue sendo usado como moeda de liquidação, e o fluxo de receita se mantém.

No trimestre, o USDT ultrapassou a marca de US$ 145 bilhões em circulação, consolidando uma dominância superior a 60% no mercado de stablecoins. O USDC, principal concorrente emitido pela Circle, ficou na faixa de US$ 60 bilhões, menos da metade.

Stablecoins como infraestrutura financeira global

Os resultados da Tether reforçam uma tendência que vem se consolidando: stablecoins deixaram de ser apenas ferramentas de trading para se tornarem infraestrutura de pagamentos internacionais. A Venezuela, por exemplo, viu o uso de USDT disparar como alternativa ao sistema bancário tradicional sob sanções, conforme reportou a Blockworks nesta semana.

Essa dinâmica interessa particularmente ao Brasil. O país é um dos maiores mercados de stablecoins per capita do mundo, com fluxos significativos de remessas e comércio exterior sendo processados via USDT. A questão regulatória segue em aberto, com o Banco Central ainda definindo as regras para emissores de stablecoins sob o Marco Legal de Criptoativos.

No Congresso brasileiro, a discussão sobre transparência em transações com criptomoedas ganha novos capítulos. Uma proposta no Ceará quer usar blockchain como ferramenta de transparência pública, enquanto o Paraná Eleitoral publicou estudo pedindo regulação de doações em criptomoedas para campanhas eleitorais. São sinais de que o ativo digital está se integrando à vida institucional do país de maneira irreversível.

O que a reserva recorde significa para quem usa USDT

A reserva excedente de US$ 8,2 bilhões funciona como um seguro contra cenários extremos. Em tese, mesmo que todos os detentores de USDT pedissem resgate simultâneo, a Tether teria capital de sobra para honrar os compromissos e ainda manter bilhões em caixa.

Isso contrasta com o colapso da TerraUSD em maio de 2022, quando a stablecoin algorítmica perdeu a paridade e evaporou US$ 40 bilhões em valor de mercado em poucos dias. A Tether enfrentou pressão de resgate na época, processou mais de US$ 7 bilhões em saques sem quebrar a paridade, e usou esse episódio como argumento de solidez desde então.

Mas há ressalvas. A Tether nunca passou por uma auditoria completa de seus livros. Os relatórios trimestrais são atestações feitas pela BDO Italia, que verificam os saldos em pontos específicos no tempo, sem o nível de escrutínio de uma auditoria Big Four. É um ponto que críticos e reguladores continuam levantando.

Comparação com o setor financeiro tradicional

Para dimensionar o resultado: US$ 1 bilhão de lucro trimestral coloca a Tether numa faixa comparável a instituições financeiras relevantes. O Nubank, por exemplo, reportou lucro de US$ 553 milhões no quarto trimestre de 2024. A Tether faz quase o dobro com uma fração dos funcionários, estimados em cerca de 100 pessoas.

A eficiência operacional é brutal. A empresa não tem agências, não oferece crédito, não precisa provisionar para inadimplência. Seu produto é essencialmente um dólar tokenizado que cobra zero de taxa ao emissor, e a receita vem integralmente da gestão das reservas.

O modelo levanta uma pergunta incômoda para o sistema bancário: se uma empresa com dezenas de funcionários consegue lucrar mais de US$ 4 bilhões ao ano apenas administrando reservas em Treasuries, o que isso diz sobre a eficiência das instituições financeiras tradicionais?

O que observar nos próximos meses

Três variáveis vão determinar se a Tether mantém essa trajetória. Primeiro, a decisão do Fed sobre juros. Qualquer corte na taxa americana reduz diretamente a receita da empresa. Segundo, a regulação europeia sob o MiCA, que impõe exigências específicas para emissores de stablecoins operando na Europa. Terceiro, a evolução do Marco Legal brasileiro, que pode criar requisitos de reserva e auditoria para stablecoins usadas no mercado doméstico.

O lucro bilionário da Tether não é apenas uma curiosidade financeira. É a prova de que stablecoins se tornaram um negócio gigantesco e que a disputa por regular esse mercado será uma das mais relevantes no sistema financeiro global nos próximos anos.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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