Tesla Roadster com propulsores SpaceX: o que muda na indústria automotiva
Tesla apresentou o Roadster de segunda geração com propulsores de ar comprimido da SpaceX. O carro acelera de 0 a 100 km/h em um segundo e pode voar.
A Tesla revelou nesta semana o redesenho completo do Roadster de segunda geração, equipado com propulsores de ar comprimido desenvolvidos em parceria com a SpaceX. O veículo, apresentado em um evento nos arredores de Waco, no Texas, foi demonstrado subindo uma rampa invertida, girando no ar e pousando suavemente no asfalto. Também saltou sobre um Cybercab, um Cybertruck, um Tesla Semi, um Model Y e um Model 3 enquanto estava em movimento.
Elon Musk chamou o Roadster de “o melhor dos últimos carros dirigidos por humanos”. A frase não é apenas marketing. Ela sinaliza uma transição estratégica da Tesla, que aposta cada vez mais em veículos autônomos enquanto trata o Roadster como um produto de vitrine, não de volume.
O que o novo Roadster da Tesla entrega de fato
O carro será oferecido em três versões. A primeira, chamada “Performance”, é descrita como pronta para rua, com dois lugares, aerodinâmica ativa e um sistema de sucção multimodal projetado para desempenho em pista e fora dela. A segunda, “Thrust”, é voltada para corrida, também com dois lugares, e conta com propulsores traseiros de gás frio que permitem aceleração de 0 a 100 km/h em menos de um segundo. A terceira, “Rocket”, é a mais extrema: apenas um lugar e dez propulsores posicionados ao redor do veículo. Essa versão é “convidado apenas”.
Todas as três versões terão autonomia de aproximadamente 480 quilômetros e velocidade máxima acima de 370 km/h. Segundo Lars Moravy, vice-presidente de engenharia da Tesla, os dez propulsores estão conectados a 600 litros de ar comprimido armazenados em vasos de pressão revestidos de fibra de carbono (COPVs), a mesma tecnologia usada nos foguetes da SpaceX. O tanque de ar pode ser recarregado.
As reservas já estão abertas: 50.000 dólares para a versão Performance e 250.000 dólares para a Thrust. Musk afirmou que a produção em série deve começar em 2028, mas não divulgou o preço final do veículo.
Quase uma década de atrasos e o que isso revela sobre a Tesla
O Roadster de segunda geração foi apresentado originalmente em 2017, como surpresa no final do evento de revelação do Tesla Semi. Na época, a promessa era de entregas em poucos anos, e a empresa aceitou depósitos de 50.000 dólares, além de 250.000 dólares para as mil unidades da “Founders Series”.
Desde então, o projeto foi adiado repetidas vezes: em 2020, 2021, 2023 e 2024. A Tesla enfrentou o que Musk chamou de “inferno de produção” com o Model 3, priorizou o lançamento do Model Y, que se tornou o carro mais vendido do mundo, e lidou com o desempenho comercial abaixo do esperado do Cybertruck. Como mostramos na cobertura da vertical de tecnologia, empresas que acumulam atrasos em produtos de alto perfil enfrentam um dilema de credibilidade que afeta toda a cadeia de percepção dos investidores.
Musk chegou a marcar o evento de revelação para 1º de abril de 2026, dizendo que a data do Dia da Mentira lhe daria “alguma negabilidade” caso houvesse mais um adiamento. A apresentação foi empurrada novamente, com uma tentativa em 1º de outubro cancelada por mau tempo.
Halo car: por que a Tesla gasta tanto em algo que não vende volume
Musk foi direto ao afirmar que o Roadster provavelmente não vai “mover muito o ponteiro” em termos de receita. A lógica é outra. Na indústria automotiva, o conceito de “halo car” serve para redefinir a percepção de marca. A Ferrari faz isso com a LaFerrari. A Porsche, com o 918 Spyder. A Bugatti inteira existe para cumprir essa função dentro do grupo Volkswagen.
Para a Tesla, o Roadster com propulsores da SpaceX cumpre um papel ainda mais específico: demonstrar que a integração entre suas empresas produz resultados concretos. A tecnologia COPV vem diretamente do programa espacial. Os propulsores de gás frio são uma adaptação de sistemas já usados em foguetes. Essa convergência entre aeroespacial e automotivo não tem paralelo direto na indústria.
O risco, porém, é real. Musk declarou publicamente que “segurança não é o objetivo principal” do Roadster, comparando-o a uma Ferrari nesse aspecto. Disse que a Tesla “aspira a não matar ninguém neste carro”. Essa postura já gerou críticas de especialistas em segurança veicular e pode complicar a homologação em mercados regulados, como discutimos em análises sobre regulação e impacto financeiro de novas tecnologias.
O que isso significa para o mercado de veículos elétricos
O Roadster não vai competir com o Model Y ou com qualquer elétrico de volume. Mas o efeito colateral sobre o mercado é significativo. Três pontos merecem atenção.
Primeiro, a demonstração de que propulsores podem ser integrados a veículos de rua empurra a fronteira do que fabricantes tradicionais precisam considerar em seus planos de inovação. Segundo, o fato de a Tesla aceitar reservas de 250.000 dólares sem data firme de entrega mostra a força da marca como captadora de capital antecipado, um modelo que já analisamos em outras ocasiões no portal. Terceiro, a integração SpaceX-Tesla sugere que Musk está construindo um ecossistema industrial onde tecnologias migram entre empresas, algo que investidores institucionais acompanham de perto.
O design do novo Roadster também marca uma ruptura. Inspirado no avião de reconhecimento SR-71 e no caça F-35, o carro tem linhas angulares que lembram um Lamborghini ou o Lotus Esprit do filme “007: O Espião que Me Amava”, veículo que Musk possui e que estava exposto no evento.
Musk ainda mencionou que a Tesla pode tentar saltar o Snake River Canyon, local da famosa tentativa de travessia de Evel Knievel em 1974. Se isso acontecer, será o golpe de marketing definitivo para um carro que existe, por enquanto, mais como promessa do que como produto.
Com produção prevista para 2028, resta saber se a Tesla cumprirá o prazo desta vez. O histórico não inspira confiança cega. Mas a demonstração no Texas mostrou que, ao menos tecnologicamente, o carro é real. O desafio agora é transformar uma demonstração espetacular em um produto que sai da fábrica.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


