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Stablecoins na Visa: pagamentos crescem 200% e mudam o jogo

Visa revela que cartões vinculados a stablecoins são a área de maior crescimento na rede, com liquidações 15 vezes maiores que no ano anterior.

Stablecoins na Visa: pagamentos crescem 200% e mudam o jogo
Foto: Marta Branco / Unsplash

A Visa divulgou um relatório que coloca os cartões vinculados a stablecoins como a área de maior crescimento dentro da sua rede global. Os números são expressivos: o volume de pagamentos com esses cartões avançou quase 200% em relação ao ano anterior, e as liquidações em stablecoins já projetam US$ 20 bilhões anualizados, uma expansão superior a 15 vezes o patamar registrado no período anterior.

São 160 programas de cartões ativos vinculados a stablecoins operando no segundo trimestre. A escala ainda é modesta frente ao volume total da Visa, que processa trilhões de dólares por ano, mas a velocidade de crescimento sinaliza uma mudança estrutural na forma como dinheiro programável se conecta à infraestrutura de pagamentos tradicional.

O que explica o crescimento dos cartões de stablecoins

A tese é simples: stablecoins como USDC e USDT já funcionam como camada de liquidação em diversas partes do mundo. O cartão resolve o problema da “última milha”, permitindo que o usuário gaste saldo em stablecoins em qualquer maquininha que aceite Visa, sem que o lojista precise saber que a origem do pagamento é cripto.

Para quem acompanha a evolução do mercado financeiro, a lógica é a mesma que transformou fintechs em concorrentes de bancos tradicionais: reduzir fricção. O usuário mantém saldo em dólar digital, sem depender de conta bancária em moeda estrangeira, e gasta como se fosse um cartão convencional.

O ponto de inflexão está na infraestrutura de bastidores. A Visa não precisa mudar sua rede para aceitar stablecoins. O que muda é quem emite o cartão e como a liquidação acontece entre emissor e bandeira. É nesse elo que surgem os desafios mais relevantes.

O gargalo do capital de giro e a solução on-chain

O relatório da Visa é transparente sobre um problema que limita a expansão desses programas: o acesso a capital de giro. No modelo tradicional, a emissora do cartão paga à Visa antes de receber do cliente final. Isso exige linhas de crédito rotativo, normalmente estruturadas via warehouse lending ou securitização.

Para programas grandes, o custo dessa estrutura se dilui. Para emissores menores, especialmente startups cripto em estágio inicial, essas linhas não fecham a conta. As liquidações acontecem todos os dias, inclusive fins de semana e feriados, e os valores individuais são pequenos. Montar uma estrutura tradicional de crédito para atender essa dinâmica é caro demais.

A consequência prática, segundo a própria Visa, é que alguns programas promissores travam não por falta de demanda ou tecnologia, mas por falta de financiamento adequado ao seu perfil operacional. Esse é um gargalo clássico de infraestrutura financeira, como já analisamos ao tratar da evolução da infraestrutura cripto nos últimos anos.

A solução destacada pela Visa usa contratos inteligentes para automatizar o fluxo de garantias e pagamentos. O modelo, desenvolvido pela Credit Coop em parceria com a Rain, funciona como uma lockbox digital: os recebíveis de liquidação passam por um contrato inteligente antes de chegar à conta operacional do tomador, e o pagamento ao credor é direcionado automaticamente.

Zero inadimplência em mais de 3.000 empréstimos on-chain

Os dados de desempenho chamam atenção. A infraestrutura já processou mais de 3.000 empréstimos e 9.000 pagamentos on-chain, com taxa de inadimplência zero. O tamanho de cada linha de crédito é calibrado diariamente com base nos dados de liquidação da Visa e no histórico de pagamentos registrado em blockchain.

Na prática, o modelo elimina o capital ocioso. Em vez de sacar uma linha antecipadamente e deixar dinheiro parado entre ciclos, o arquivo diário de liquidação dispara a liberação de recursos no mesmo dia, exatamente no valor líquido devido, enviado diretamente ao endereço de liquidação da Visa.

Para o mercado de crédito, isso representa uma mudança de paradigma. A verificação de crédito deixa de depender exclusivamente de balanços e demonstrações financeiras e passa a incorporar dados em tempo real, registrados de forma imutável. É o tipo de inovação que conecta blockchain à infraestrutura financeira real, muito além da especulação com tokens.

Por que isso importa para o mercado brasileiro

O Brasil é um dos maiores mercados de stablecoins do mundo. Segundo dados do Banco Central, as importações de criptoativos, em sua maioria stablecoins, já superam a entrada de dólares por canais tradicionais em alguns meses. A demanda por acesso a dólar digital é real, especialmente entre freelancers, exportadores de serviços e pequenas empresas com fornecedores internacionais.

Se a infraestrutura de cartões de stablecoins amadurece globalmente, o impacto no Brasil pode ser significativo. Hoje, quem recebe em USDC precisa converter para reais via exchange, pagar spread e taxas, para só então gastar. Um cartão Visa vinculado a stablecoins elimina essa etapa.

A Visa encerra o relatório com um recado direto a bancos, emissores e credores institucionais: uma nova classe de ativos está construindo histórico de desempenho público, conciliado com dados de liquidação verificáveis. Quem se posicionar cedo pode capturar essa demanda à medida que os programas amadurecem.

O sinal é claro. Stablecoins deixaram de ser um experimento de nicho cripto. Quando a maior rede de pagamentos do mundo dedica relatórios inteiros ao tema e destaca o segmento como sua área de maior crescimento, o mercado precisa prestar atenção.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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