Stablecoins movimentam US$ 5 tri e desafiam bancos
Volume transacionado por stablecoins no primeiro semestre já supera o da Mastercard em 2024. O sistema financeiro tradicional começa a reagir.
O mercado de stablecoins cruzou uma marca que torna impossível ignorá-lo. No primeiro semestre de 2025, o volume total transacionado por esses tokens pareados ao dólar ultrapassou US$ 5,2 trilhões, segundo dados compilados pela Visa Onchain Analytics e DefiLlama. Para efeito de comparação, a Mastercard processou US$ 9 trilhões em todo o ano de 2024.
Não se trata mais de um nicho cripto. Stablecoins se tornaram infraestrutura financeira global, usadas para remessas internacionais, pagamentos corporativos, liquidação de comércio exterior e até reserva de valor em países com moedas instáveis. E o sistema bancário tradicional está percebendo que precisa reagir.
Tether e Circle dominam, mas a concorrência cresce
O USDT da Tether continua sendo a stablecoin dominante, com mais de US$ 145 bilhões em capitalização de mercado. O USDC da Circle ocupa a segunda posição, com US$ 62 bilhões. Juntas, as duas representam cerca de 90% do mercado.
Mas o cenário competitivo está mudando. O PayPal expandiu o uso do PYUSD para redes como Solana e Ethereum, atingindo US$ 1,5 bilhão em circulação. A Ripple lançou o RLUSD com foco em liquidação institucional. E bancos europeus começam a emitir stablecoins reguladas sob o marco MiCA, como detalhamos em nossa cobertura de criptomoedas.
Nos Estados Unidos, o projeto de lei Stablecoin Act avança no Congresso com apoio bipartidário. Se aprovado, criará um marco regulatório federal que exige reservas 1:1 em ativos líquidos e auditorias mensais, basicamente transformando emissores de stablecoins em quase-bancos.
Por que bancos tradicionais estão entrando no jogo
O JPMorgan já opera o JPM Coin para liquidação interbancária desde 2020, mas o banco ampliou o escopo em 2025. Agora, clientes corporativos podem usar a infraestrutura para pagamentos transfronteiriços em tempo real, eliminando a necessidade de bancos correspondentes e reduzindo custos em até 75%, segundo estimativa do próprio banco.
O Société Générale emitiu o EUR CoinVertible, uma stablecoin em euro que já transaciona na blockchain Ethereum. O Deutsche Bank anunciou parceria com a Taurus para oferecer custódia de stablecoins a clientes institucionais. No Brasil, o Itaú e o BTG Pactual exploram pilotos com tokenização de depósitos, uma variante do conceito.
O que motiva essa movimentação não é entusiasmo com cripto. É medo de desintermediação. Se stablecoins permitem que empresas enviem milhões de dólares ao redor do mundo em minutos, por uma fração do custo de uma transferência SWIFT, o modelo de receita dos bancos com câmbio e pagamentos internacionais fica ameaçado. Como analisamos em nossa seção de finanças, a tokenização de ativos financeiros é uma das maiores rupturas em curso no setor.
O caso de uso que explodiu: remessas e mercados emergentes
O crescimento mais expressivo no uso de stablecoins acontece em mercados emergentes. Na Nigéria, Argentina, Turquia e Brasil, esses tokens funcionam como dólar digital acessível. Dados da Chainalysis mostram que a adoção de stablecoins em países emergentes cresceu 48% entre o primeiro semestre de 2024 e o mesmo período de 2025.
O Brasil é um caso emblemático. Segundo o Banco Central, as remessas internacionais via cripto representaram 12% do total em 2024, acima de 4% em 2022. Boa parte desse fluxo passa por stablecoins, especialmente USDT na rede Tron, que oferece taxas de transação abaixo de US$ 0,01.
Para trabalhadores que enviam dinheiro entre países, a diferença é brutal. Uma remessa de US$ 500 via Western Union pode custar US$ 25 a US$ 40 em taxas. Via stablecoin, o custo cai para centavos. A velocidade também muda: de dois a cinco dias úteis para minutos.
Os riscos que o mercado ainda precisa precificar
O crescimento exponencial das stablecoins não vem sem riscos. A concentração no USDT gera preocupações recorrentes sobre a composição das reservas da Tether. Embora a empresa publique relatórios trimestrais auditados pela BDO Italia desde 2023, críticos apontam que a transparência ainda é inferior à de um banco regulado.
Há também o risco regulatório. Se o Stablecoin Act nos EUA impuser exigências muito restritivas, emissores menores podem ser eliminados, concentrando ainda mais o mercado. Na Europa, o MiCA já exige que stablecoins com volume superior a 200 milhões de euros tenham autorização bancária, o que favorece incumbentes.
O risco sistêmico é outro ponto. Com US$ 5 trilhões em volume semestral, uma eventual perda de paridade de uma grande stablecoin poderia gerar efeitos em cascata nos mercados de cripto e, cada vez mais, nos mercados tradicionais. O episódio do colapso da UST em 2022, que evaporou US$ 40 bilhões, serve como lembrete. Discutimos os impactos desse tipo de evento em nossa análise sobre stablecoins.
O sistema financeiro em transição
O que os números de 2025 mostram é que stablecoins deixaram de ser um experimento e se tornaram uma camada de infraestrutura financeira paralela. O volume já rivaliza com redes de cartão de crédito. A adoção institucional acelera. E a regulação, em vez de frear, está legitimando o setor.
Para o sistema bancário tradicional, o dilema é claro: integrar a tecnologia ou perder receita para ela. Os próximos 12 meses devem definir se bancos conseguem absorver stablecoins em seus trilhos ou se uma nova geração de empresas de pagamentos construídas sobre blockchain vai capturar essa fatia de mercado. O tamanho da oportunidade, e da ameaça, já está nos números.