Finanças

SpaceX estreia na bolsa e Musk vira trilionário

A abertura de capital da SpaceX movimentou US$ 25 bi e elevou o patrimônio de Musk acima de US$ 1 trilhão. Entenda o que isso muda no mercado.

A SpaceX fez sua estreia na Nasdaq nesta semana com uma valorização de 29% no primeiro dia de negociação. O movimento não apenas confirmou a empresa como a startup privada mais valiosa da história antes do IPO, como também empurrou o patrimônio líquido de Elon Musk para além da marca de US$ 1 trilhão. Pela primeira vez, uma pessoa física ultrapassa esse patamar.

O IPO foi precificado a US$ 185 por ação, mas os papéis encerraram o pregão inaugural acima de US$ 238. A capitalização de mercado da companhia saltou para a casa dos US$ 350 bilhões, colocando a SpaceX entre as 30 empresas mais valiosas dos Estados Unidos. A demanda pelos papéis superou em sete vezes a oferta disponível, segundo dados compilados pela Bloomberg.

O que explica a euforia do mercado com a SpaceX

Diferente da maioria dos IPOs de tecnologia dos últimos anos, a SpaceX chegou ao mercado com fundamentos operacionais sólidos. A divisão Starlink, de internet via satélite, atingiu 5 milhões de assinantes e já opera com margem de lucro positiva. A receita anualizada da companhia gira em torno de US$ 15 bilhões, com crescimento de 40% sobre o ano anterior.

A outra ponta do negócio, os contratos de lançamento com a NASA, o Departamento de Defesa dos EUA e clientes privados, segue como uma máquina de caixa previsível. Em 2025, a SpaceX realizou mais de 90 lançamentos orbitais, consolidando o domínio absoluto no setor. Nenhuma concorrente, incluindo a Blue Origin de Jeff Bezos, chega perto desse volume.

O mercado também precifica a opcionalidade de longo prazo. O programa Starship, projetado para missões interplanetárias e transporte de carga em escala inédita, ainda não gera receita significativa, mas representa o tipo de assimetria que atrai capital especulativo em quantidade. Como explicamos em nossa cobertura de finanças, é o mesmo racional que levou investidores a apostar em Tesla antes da lucratividade.

Musk trilionário: o que significa para o ecossistema tech

O patrimônio de Elon Musk vinha oscilando entre US$ 750 bilhões e US$ 900 bilhões ao longo dos últimos meses, impulsionado pela recuperação das ações da Tesla e pelo valor de suas participações privadas. O IPO da SpaceX adicionou cerca de US$ 150 bilhões de uma só vez à conta, já que Musk detém aproximadamente 42% da companhia.

Para efeito de comparação, o segundo mais rico do mundo, Bernard Arnault, da LVMH, tem patrimônio estimado em US$ 580 bilhões. A distância entre o primeiro e o segundo colocado nunca foi tão grande na história do índice Bloomberg Billionaires.

Esse nível de concentração de riqueza levanta questões regulatórias e políticas que não devem ser ignoradas. Nos Estados Unidos, o debate sobre tributação de patrimônio não realizado ganhou força no Congresso. A abertura de capital da SpaceX, ao tornar líquida uma fatia relevante da fortuna de Musk, pode inclusive facilitar a aplicação de regras tributárias que antes esbarravam na natureza ilíquida de participações privadas.

O detalhe cripto que passou despercebido

Um ponto que chamou atenção de analistas foi a divulgação, no prospecto do IPO, de que a SpaceX mantém uma reserva de Bitcoin em seu balanço. O valor exato não foi detalhado, mas estimativas apontam para algo entre US$ 500 milhões e US$ 800 milhões, posicionando a empresa entre as maiores detentoras corporativas da criptomoeda no mundo.

Essa estratégia segue o modelo adotado pela Strategy (ex-MicroStrategy), que já demonstrou como reservas em Bitcoin podem funcionar como hedge de tesouraria. A diferença é que a SpaceX não faz da tese cripto o centro do seu pitch para investidores. O Bitcoin aparece como uma linha discreta no balanço, não como proposta de valor.

Para o mercado cripto, a entrada de mais uma empresa de peso no seleto grupo de treasuries corporativas em Bitcoin funciona como validação institucional. É o tipo de movimento que reforça a narrativa sem precisar de manchete sensacionalista.

O que investidores devem observar daqui para frente

O histórico de IPOs de alta demanda mostra que a euforia do primeiro dia raramente se sustenta de forma linear. Empresas como Arm Holdings, que estreou com alta de 25% em 2023, levou meses para encontrar um patamar estável de negociação. O risco de correção nos próximos 30 a 60 dias é real.

Outro fator é o lock-up period. Funcionários e investidores pré-IPO normalmente ficam impedidos de vender suas ações por 90 a 180 dias após a abertura de capital. Quando esse período expira, a pressão vendedora pode ser significativa. Segundo a Y Combinator, que foi investidora de fase inicial, o pipeline de IPOs de tecnologia está apenas começando a reabrir.

O mais relevante para quem acompanha mercados globais é o efeito-cascata. Um IPO bem-sucedido dessa magnitude costuma destravar uma fila de aberturas de capital represadas. Stripe, Databricks e a própria Anthropic estão na lista de candidatos. Se a janela permanecer aberta, o segundo semestre pode marcar o retorno do ciclo de IPOs de tecnologia que estava congelado desde 2021.

A estreia da SpaceX não é apenas sobre uma empresa ou sobre um bilionário. É um termômetro do apetite global por risco em ativos de tecnologia. E, por enquanto, esse termômetro está apontando para cima.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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