Finanças

SLC Agrícola vira top pick do agro e sobe 6% na B3

JP Morgan eleva recomendação da SLC Agrícola para compra e projeta alta de 36%. Entenda por que o banco vê o fim da crise de três anos no agro brasileiro.

SLC Agrícola vira top pick do agro e sobe 6% na B3
Foto: Junior Cazangi / Unsplash

Em um dia de queda generalizada na B3, com o Ibovespa perdendo os 185 mil pontos, uma ação do agronegócio destoou do cenário negativo. A SLC Agrícola (SLCE3) avançou cerca de 6,7% na manhã desta quarta-feira, cotada a R$ 17,98, após ser escolhida como a principal recomendação do JP Morgan para o setor agrícola brasileiro.

A decisão do banco não é trivial. O JP Morgan elevou a recomendação dos papéis de neutra para overweight (equivalente a compra) e aumentou o preço-alvo para dezembro de 2027 de R$ 18 para R$ 23. O novo alvo representa um potencial de valorização de aproximadamente 36% em relação ao fechamento da véspera, quando a ação encerrou a R$ 16,85.

A pergunta que importa: o que mudou para justificar esse otimismo em um setor que amargou três anos de margens comprimidas e alavancagem crescente?

O fim de uma crise de três anos no agronegócio?

Na avaliação dos analistas do JP Morgan, o setor agrícola brasileiro pode estar próximo de encerrar um ciclo negativo que se estendeu por cerca de três anos. A combinação de preços de commodities agrícolas mais favoráveis com custos de produção em queda começa a criar condições para a recuperação das margens.

Um fator determinante nessa equação é a redução dos preços dos fertilizantes para patamares anteriores à guerra entre Rússia e Ucrânia. Fertilizantes e defensivos representam, juntos, cerca de 40% dos custos da SLC. Com o avanço dos preços agrícolas superando os custos unitários, a perspectiva de melhora das margens para 2027 ganha corpo.

O banco projeta uma margem Ebitda ajustada de 34,2% para a SLC em 2027, um avanço de 3,1 pontos percentuais em relação ao ano anterior e acima da média de 33% registrada pela companhia nos últimos dez anos. O Ebitda ajustado projetado é de R$ 3,2 bilhões, montante 11% superior à estimativa anterior.

Porém, a recuperação não será uniforme. O JP Morgan ressalta que as condições de rentabilidade e endividamento variam bastante entre as empresas do setor. A nova ordem de preferência do banco ficou: SLC Agrícola, 3tentos (TTEN3), São Martinho (SMTO3) e Adecoagro (AGRO).

Hedge e compra antecipada de insumos: a vantagem competitiva da SLC

O que diferencia a SLC Agrícola de seus pares, segundo a análise, é a capacidade de antecipar decisões estratégicas. A companhia realizou operações de proteção de preços (hedge) em momentos considerados favoráveis e adiantou a compra de insumos de forma relevante.

Ao final do segundo trimestre, a SLC já havia adquirido 70% dos fertilizantes nitrogenados para a próxima safra, contra nenhuma compra registrada no trimestre anterior. Além disso, garantiu 90% das necessidades de potássio, 100% de fosfato e 96% dos defensivos agrícolas. Esse avanço nas compras dá maior visibilidade para a expectativa da administração de um aumento de apenas 2,4% nos custos desembolsáveis da safra 2026/27.

No lado da receita, a SLC já protegeu quase metade da produção de soja da safra 2026/27 a cerca de US$ 12 por bushel, enquanto o JP Morgan projeta preço de US$ 13 por bushel em 2027. Para o algodão, cerca de 55% da próxima safra foi travada a US$ 0,79 por libra-peso, contra uma projeção de US$ 0,85. Essas travas garantem um piso de receita, com upside caso os preços se mantenham acima.

Como destacamos em análises anteriores sobre o cenário macroeconômico brasileiro, empresas com gestão ativa de risco tendem a se destacar em ciclos de recuperação setorial.

Os números que o mercado ainda não precificou

Um dos argumentos mais relevantes do JP Morgan é que a recente valorização dos grãos ainda não está refletida no preço das ações. Caso as cotações permaneçam em patamares elevados, o Ebitda de 2027 poderá superar em aproximadamente 10% o consenso do mercado, atualmente em R$ 2,9 bilhões.

As estimativas de lucro por ação também foram revisadas para cima. A projeção para 2026 subiu 9,7%, de R$ 1,20 para R$ 1,32, enquanto a de 2027 avançou 6,3%, de R$ 1,34 para R$ 1,42. As revisões consideram aumentos de 10% a 22% nas estimativas médias para preços agrícolas.

Do lado da geração de caixa, o banco calcula um fluxo próximo de R$ 500 milhões em 2027, equivalente a um rendimento de 6,2%. A ação negocia a 5,9 vezes o Ebitda projetado, ligeiramente abaixo de sua média histórica, o que sugere que o mercado ainda precifica um cenário conservador.

A alavancagem da companhia deve cair para cerca de duas vezes ao final de 2027, apoiada pela melhora operacional e pela redução dos investimentos. O capex deve recuar de R$ 1,5 bilhão em 2026 para R$ 900 milhões em 2027, com os principais projetos de crescimento próximos da conclusão.

O risco climático que não pode ser ignorado

O El Niño é o principal risco para a tese. O JP Morgan projeta quedas anuais de produtividade de 7% para o algodão, 8% para a soja e 15% para o milho de segunda safra. As estimativas consideram um desempenho ligeiramente melhor do que o observado durante o forte El Niño de 2015/16, em função da maior participação de áreas maduras e irrigadas no portfólio da empresa.

Para o milho, o cenário é duplamente desafiador. Além do risco climático, a janela de plantio da segunda safra nos estados do Norte é mais estreita. Paralelamente, a expansão do etanol de milho no Brasil deve elevar o consumo doméstico e limitar os volumes disponíveis para exportação, o que pode sustentar preços internos. O banco projeta R$ 59 por saca para 2027.

Mesmo assim, o JP Morgan avalia que parte do impacto climático já está precificada nas ações. As chuvas previstas para setembro em Mato Grosso também devem favorecer a umidade do solo e o início do plantio, atenuando parcialmente o risco.

O que isso significa para o investidor

A movimentação do JP Morgan sinaliza algo maior do que uma simples troca de recomendação. Indica que o ciclo negativo do agronegócio listado na bolsa pode estar se esgotando, com a combinação de preços mais altos e custos mais baixos criando uma janela de recuperação de margens que o mercado ainda não incorporou aos preços.

A SLC se posiciona como a principal beneficiária por sua gestão ativa de insumos e hedge, disciplina de capital e proximidade da conclusão de seus projetos de expansão. O investidor que acompanha o setor precisa ponderar o risco climático real contra fundamentos operacionais que, pela primeira vez em três anos, voltam a apontar para cima.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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