Finanças

Selic a 12% no radar: o que o Morgan Stanley vê no Brasil

Economista-chefe do Morgan Stanley para América Latina aponta que a posição comercial do Brasil abre espaço para corte de juros mais agressivo ainda em 2026.

Selic a 12% no radar: o que o Morgan Stanley vê no Brasil
Foto: Pixabay / Unsplash

Enquanto o mundo tenta calibrar os impactos de uma guerra comercial que se arrasta e tensões geopolíticas que não dão trégua, o Brasil aparece, na leitura do Morgan Stanley, como uma economia relativamente blindada. A conclusão do banco americano é que essa proteção relativa abre caminho para a Selic chegar a 12% ainda neste ciclo de cortes.

A tese foi apresentada pelo economista-chefe do Morgan Stanley para América Latina, em análise divulgada nesta semana e repercutida pelo NeoFeed. O argumento central: o Brasil combina superávit comercial robusto, baixa exposição direta às tarifas americanas e uma inflação que, embora persistente, dá sinais de acomodação.

De onde vem a tese de proteção do Brasil

O conceito de Brasil “protegido” não significa imunidade. Significa que, na comparação com outros emergentes, a economia brasileira tem menos flancos expostos ao choque externo atual. Três fatores sustentam essa leitura.

Primeiro, a balança comercial. O Brasil exporta commodities agrícolas e minerais com demanda global relativamente inelástica. Soja, minério de ferro, petróleo e proteína animal continuam sendo comprados mesmo em cenários de desaceleração. O superávit comercial acumulado nos últimos 12 meses supera US$ 80 bilhões.

Segundo, a baixa exposição às tarifas americanas. Diferente da China, do México e do Vietnã, o Brasil não é uma economia centrada em exportação de manufaturados para os Estados Unidos. As tarifas de Trump, portanto, atingem o país de forma oblíqua, via desaceleração global, mas não diretamente via barreira comercial.

Terceiro, o câmbio. O real se valorizou cerca de 8% frente ao dólar desde o pico de estresse no fim de 2024, o que alivia pressões inflacionárias importadas e dá mais margem de manobra ao Banco Central. Essa dinâmica cambial é um dos fatores que analisamos em nossa cobertura recorrente de política monetária.

O caminho até Selic a 12%

Hoje a taxa Selic está em 14,75% ao ano, após o ciclo de altas promovido pelo Banco Central para conter a inflação que acelerou entre 2024 e o início de 2025. O IPCA acumulado em 12 meses gira em torno de 5,5%, ainda acima do teto da meta de 4,5%.

Para o Morgan Stanley, o início dos cortes pode acontecer ainda no segundo semestre de 2026, com a Selic encerrando o ano em 13,25% e chegando a 12% no primeiro trimestre de 2027. A projeção é mais agressiva do que o consenso do mercado. O boletim Focus, compilado pelo Banco Central, mostra mediana de 14% para o fim de 2026.

A divergência existe porque o Morgan Stanley aposta em um cenário externo que, paradoxalmente, favorece o Brasil. Se a economia americana desacelerar por conta das tarifas e das incertezas políticas, o Federal Reserve tende a cortar juros, o que enfraquece o dólar globalmente e beneficia moedas de países com fundamentos sólidos.

Vale lembrar que Jerome Powell, em sua última reunião como presidente do Fed, manteve os juros americanos inalterados e descartou novos aumentos imediatos. A postura foi interpretada como dovish pelos mercados, o que reforça a narrativa de que o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos vai se estreitar.

O que o investidor precisa considerar

Uma Selic a 12% muda a equação de alocação de capital no Brasil de forma significativa. Em renda fixa, os retornos reais caem, o que historicamente empurra capital para a bolsa e para ativos de risco. No ciclo anterior de cortes, entre 2023 e meados de 2024, o Ibovespa subiu cerca de 22%.

Mas há riscos que a tese do Morgan Stanley subestima. O fiscal brasileiro continua pressionado. O déficit primário do governo central, embora em trajetória de melhora, ainda não convence os mais céticos. Se o mercado perder confiança na sustentabilidade das contas públicas, os prêmios de risco sobem e o espaço para corte de juros diminui, como já abordamos em análises anteriores sobre o Copom.

Outro ponto de atenção é a China. Se a segunda maior economia do mundo desacelerar mais do que o esperado, o preço das commodities cai e o superávit comercial brasileiro encolhe. Os PMIs industriais chineses divulgados nesta madrugada vieram mistos, com o índice oficial do governo em 49,6 (contração) e o Caixin em 50,7 (expansão marginal).

O contexto global desta manhã

Os futuros americanos operam perto da estabilidade nesta manhã, com investidores digerindo as declarações de Powell e monitorando as tensões entre Estados Unidos e Irã. Na Ásia, as bolsas fecharam sem direção única: Tóquio caiu 0,3%, Hong Kong subiu 0,5% e Xangai ficou estável.

Para o Brasil, o cenário externo morno é, neste caso, uma boa notícia. A ausência de choques agudos permite que o Banco Central conduza a política monetária olhando mais para a dinâmica doméstica do que para o pânico global. E é justamente essa tranquilidade relativa que sustenta a aposta do Morgan Stanley.

A questão é se essa janela de oportunidade vai durar. Como mostramos em nossa cobertura sobre a guerra comercial, os ciclos de escalada e trégua entre Washington e Pequim são imprevisíveis. O Brasil pode estar protegido hoje, mas a economia global tem o hábito de mudar de humor sem aviso prévio.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
Continue scrollando para a próxima matéria…