Risco fiscal e eleição pressionam juros longos no Brasil
Curva de juros brasileira abre nos vértices longos com investidores precificando risco fiscal e disputa eleitoral acirrada para 2026. Entenda o movimento.
A curva de juros brasileira voltou a dar sinais de estresse nesta quarta-feira. Os contratos de DI com vencimentos intermediários e longos fecharam em alta, refletindo um prêmio de risco que combina dois ingredientes conhecidos: fragilidade fiscal e incerteza eleitoral.
O movimento não foi explosivo. Comparado à véspera, quando o rebaixamento da recomendação do Brasil para neutra pelo JP Morgan sacudiu o humor dos investidores estrangeiros, a abertura dos vértices longos foi moderada. Mas a direção conta mais do que a magnitude.
A taxa do DI para janeiro de 2029 subiu de 14,197% para 14,25%. O vencimento de janeiro de 2031 avançou de 14,432% para 14,48%. Já o DI de janeiro de 2027, mais sensível à política monetária de curto prazo, ficou praticamente estável em 13,755%.
Por que os juros longos estão subindo
O economista Carlos Lopes, do banco BV, resume a lógica: o que se vê desde a semana passada é uma trajetória de alta na ponta mais longa da curva, alimentada por um fator central. O problema fiscal brasileiro.
Pesquisas eleitorais recentes mostram uma disputa acirrada pelo Palácio do Planalto em 2026, com vantagem para o presidente Lula. Para o mercado, isso significa menor probabilidade de ajustes fiscais profundos no curto prazo. A combinação de gastos públicos em expansão com um cenário eleitoral que desincentiva austeridade é o tipo de coquetel que faz investidores exigirem mais prêmio para carregar títulos longos.
Esse comportamento é consistente com o que temos acompanhado na cobertura de mercados no portal. Quando o risco fiscal domina, a curva de juros inclina: o curto fica ancorado nas expectativas de Selic, enquanto o longo abre para compensar a incerteza.
Atividade fraca reforça aposta em corte da Selic
Enquanto os vértices longos sobem por risco fiscal, a ponta curta da curva conta outra história. A Pesquisa Mensal de Serviços de junho mostrou estabilidade no volume de serviços prestados ante maio, resultado acima da mediana esperada pelo mercado, que projetava queda de 0,2%. Mesmo assim, os dados seguem apontando fraqueza na atividade econômica.
O Banco Central já vinha sinalizando essa desaceleração. Com a atividade perdendo fôlego, a curva de juros embute uma probabilidade majoritária de corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic em setembro. A precificação implícita indica cerca de 19 pontos-base de redução, o que traduz algo como 75% de chance de um corte de 25 pontos.
A dinâmica é aparentemente contraditória, mas faz sentido. O Banco Central pode reduzir os juros de curto prazo para estimular a economia, mas os investidores exigem mais retorno nos prazos longos porque desconfiam da sustentabilidade das contas públicas. É como se o mercado dissesse: acredito no BC no curto prazo, mas não confio no Tesouro no longo.
Para quem acompanha a relação entre juros e alocação de investimentos, esse descolamento entre curto e longo tem implicações práticas. Títulos prefixados longos ficam mais arriscados. Papéis atrelados à inflação com vencimentos estendidos embutem mais volatilidade. E o custo de financiamento de longo prazo para empresas sobe.
O problema fiscal virou global
Um aspecto relevante do pregão desta quarta é que o Brasil não está sozinho no desconforto fiscal. Nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries de 30 anos subiram para 5,248% após dados mostrarem que o governo americano tomou mais empréstimos nos primeiros 10 meses do ano fiscal de 2026 do que em todo o ano de 2025.
O CPI americano de julho veio em linha com o esperado: alta de 0,1% no mês e 3,4% em 12 meses. A ausência de surpresa inflacionária foi bem recebida nos vértices curtos dos Treasuries, reduzindo receios de pressão adicional sobre preços após tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Mas a inflação controlada não resolveu o elefante na sala. O déficit fiscal americano continua se expandindo, e os investidores passaram a cobrar mais prêmio nos títulos de prazo mais longo. É um fenômeno espelhado: tanto no Brasil quanto nos EUA, a curva de juros está dizendo que o risco fiscal de longo prazo é o problema dominante.
Segundo análise da Empiricus, o diferencial de juros entre Brasil e EUA também pesa. Com cerca de 40% de probabilidade precificada de alta nos Fed Funds em setembro, o diferencial de taxas fica menos favorável ao real. O dólar subiu 0,37% no dia, fechando a R$ 5,1799, o que retroalimenta a pressão sobre os juros longos brasileiros.
O que o investidor precisa monitorar agora
Para quem tem posições em renda fixa ou acompanha a dinâmica macro como referência para outros ativos, incluindo criptomoedas e ativos digitais, há três variáveis para ficar no radar.
Primeiro, a pesquisa mensal do comércio de junho, que sai na quinta-feira e pode reforçar ou contradizer a narrativa de desaceleração da atividade. Segundo, o índice de preços ao produtor dos EUA de julho, divulgado no mesmo dia, que pode recalibrar as expectativas para o Federal Reserve. Terceiro, e talvez mais importante, a evolução das pesquisas eleitorais e qualquer sinalização de política fiscal por parte dos candidatos.
O mercado de juros não está gritando pânico. Mas está, de forma consistente, cobrando um preço mais alto para financiar o longo prazo brasileiro. Enquanto o problema fiscal não ganhar uma resposta crível, independentemente de quem ocupe o Planalto em 2027, essa tendência tem pouca razão para se reverter.
A mensagem da curva é clara: cortar juros no curto prazo pode aliviar a atividade, mas não resolve a desconfiança estrutural. E essa desconfiança, cada vez mais, tem preço.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
