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Temores de um possível bear market

Da euforia ao prejuízo: o reset dos investidores de curto prazo e a acumulação silenciosa de baleias que pavimentam um cenário de incertezas

Resumo

  • 👉 Mais de 18,1 bilhões de dólares em bitcoin foram realizados em prejuízo nos últimos trinta dias, marcando a maior capitulação desde a FTX;
  • 👉 Cerca de 24 por cento dos holders de curto prazo estão em prejuízo contra apenas 8 por cento entre holders de longo prazo, indicando que a pressão de venda vem majoritariamente de investidores recentes;
  • 👉 A razão lucro/prejuízo realizado de curto prazo atingiu níveis extremos, comparáveis a poucos episódios desde 2022, todos seguidos por recuperação nos meses seguintes;
  • 👉 ETFs spot registraram mais de 19 mil BTC em saídas no mês, ampliando a pressão vendedora e reforçando o caráter emocional do movimento;
  • 👉A queda atual é marcada por capitulação spot, não apenas desalavancagem, com forte redução no interesse em futuros e redistribuição efetiva de moedas;
  • 👉 O drawdown de cerca de 26 por cento permanece dentro da faixa típica de correções profundas em bull markets, embora riscos aumentem se o movimento se aprofundar;
  • 👉 O NUPL de curto prazo entrou em zona negativa relevante, historicamente associada a esgotamento vendedor e início de reconstrução de base;
  • 👉Baleias acumularam mais de 69 mil BTC em trinta dias, absorvendo toda a distribuição desde agosto e reforçando a migração de oferta para mãos fortes;
  • 👉 O pano de fundo macro segue favorável ao bitcoin, com expansão monetária global e erosão do poder de compra das moedas fiduciárias;
  • 👉 As métricas de risco apontam para um ambiente clássico de capitulação, oferecendo assimetria positiva para acumulação gradual;
  • 👉 O posicionamento tático favorece reentrada escalonada e foco em horizontes de 30 a 90 dias, enquanto o longo prazo permanece intacto.

Introdução

O mercado de bitcoin entrou em uma das fases mais intensas de realização de prejuízos desde 2022, acompanhada por uma queda acelerada no preço e por um comportamento atípico de investidores de curto prazo, ETFs e derivativos. O ambiente on chain passou por uma mudança brusca de regime, revelando sinais claros de estresse, exaustão e redistribuição que merecem uma análise aprofundada.

Neste relatório, examinamos em detalhe quem está vendendo, quem está absorvendo essa oferta, como cada métrica de risco se comporta durante esse movimento e o que esse conjunto de dados indica sobre a dinâmica atual do ciclo. A ideia é construir uma leitura completa e fundamentada sobre o momento de mercado, integrando métricas de capitulação, fluxo de entidades e comportamento estrutural de longo prazo.

Vamos lá!

 

A maior realização de prejuízo desde a FTX, uma configuração de pânico extremo

O mercado de bitcoin atravessa neste momento a maior onda de realização de prejuízos desde a falência da FTX. Em apenas trinta dias, mais de 18,1 bilhões de dólares em moedas foram movimentados on chain abaixo do preço de aquisição, um choque que superou inclusive a correção de abril e que recoloca o debate sobre se ainda estamos em um bull market avançado ou se já ingressamos em uma estrutura de bear market. Essa dinâmica é típica de capitulação.

Temores de um possível bear market

Não se trata apenas de uma sequência de correções graduais com pequenas realizações de prejuízo, e sim de um bloco concentrado de perdas que indica desistência de parte relevante dos investidores que entraram a preços elevados. Quando comparamos com períodos como a guerra tarifária nos Estados Unidos, vemos que o nível de prejuízos atuais já supera aquele episódio, momento em que o bitcoin encerrou uma pressão vendedora prolongada e iniciou um novo movimento de alta nos meses seguintes.

Historicamente, ondas tão grandes de realização de prejuízo tendem a coincidir com zonas de exaustão de vendas, ainda que o fundo absoluto de preço possa ocorrer com algum atraso.

Temores de um possível bear market

A assimetria entre curto e longo prazo ajuda a explicar quem está vendendo. Hoje, aproximadamente 24 por cento dos holders de curto prazo se encontram em prejuízo, contra apenas 8 por cento entre os holders de longo prazo. Holders de curto prazo, definidos como aqueles com menos de 155 dias de inatividade, tendem a reagir de forma mais emocional à volatilidade. Eles compram mais próximos de topos locais, possuem menor convicção na tese e, portanto, são os primeiros a realizar prejuízos quando o preço recua.

Holders de longo prazo, ao contrário, exibem comportamento mais estável. A proporção relativamente baixa de LTHs em prejuízo mostra que a base estrutural continua em zona confortável, algo coerente com ciclos avançados de alta em que a maior parte das moedas antigas está em forte lucro e com custo muito abaixo do preço corrente, mesmo após uma queda de mais de vinte por cento.

O fato de apenas um dígito percentual dos LTHs estar em perda, em conjunto com a magnitude dos prejuízos realizados totais, implica que a maior parte das vendas atuais vem de moedas com idade jovem, ou seja, o varejo tardio e especuladores recentes.

Temores de um possível bear market

A intensidade dessa capitulação torna o quadro ainda mais claro. A razão lucro/prejuízo realizado dos holders de curto prazo atingiu uma das faixas de pressão vendedora mais intensas já registradas, comparável a apenas quatro grandes episódios desde 2022. Em todos esses episódios, a combinação de forte predominância de realização de perdas por STHs, queda relevante de preço em janelas curtas e manutenção da posição de holders de longo prazo foi seguida por recuperação nos meses seguintes.

Isso não garante repetição exata do padrão, mas indica que, estatisticamente, períodos de capitulação de STHs marcam resets dentro de ciclos altistas ainda em andamento. Hoje, a métrica aponta uma das maiores pressões de venda de curto prazo de toda a história do bitcoin, indicando que o mercado passou de lucro intenso para prejuízo intenso de forma abrupta, algo típico de exaustão de narrativa.

Temores de um possível bear market

Outro vetor adicional veio dos ETFs de bitcoin nos Estados Unidos. Em novembro, as reservas desses produtos recuaram mais de 19 mil BTC, equivalentes a cerca de 2 bilhões de dólares em saídas líquidas. É uma das maiores variações negativas já registradas em janelas de trinta dias desde o lançamento desses produtos.

Esse fluxo potencializa a pressão vendedora, pois o investidor via ETF tende a agir de forma semelhante ao varejo on chain, porém com maior sincronização durante o pregão tradicional. Em ciclos anteriores, grandes ondas de saída foram episódicas e seguidas de estabilização ou retomada, mas sua coincidência com a capitulação dos STHs amplifica o impacto atual nos preços.

Diferentemente de correções guiadas apenas por desalavancagem em derivativos, o movimento atual apresenta características claras de capitulação spot. O volume de prejuízo realizado on chain é similar ao de choques extremos, o interesse em aberto de futuros caiu significativamente e a pressão se espalhou por múltiplas exchanges.

Em eventos de desalavancagem mecânica, muitas moedas permanecem em custódia de grandes players, enquanto em capitulações spot ocorre redistribuição efetiva da propriedade. Isso faz com que o choque atual seja estruturalmente distinto de quedas por liquidações puramente alavancadas.

Temores de um possível bear market

Do ponto de vista de preço, o bitcoin recua aproximadamente 26 por cento em relação à máxima histórica recente. Esse patamar de correção é semelhante ao observado em agosto e setembro de 2024 e em março e abril de 2025. Em ambos os casos, as quedas foram resets dentro de um bull market, não reversões completas de ciclo. Correções na faixa de 25 a 30 por cento são típicas em mercados altistas do bitcoin, inclusive em estágios avançados.

O risco estrutural aumenta de maneira relevante caso o drawdown se aprofunde para regiões de 35 a 40 por cento, especialmente se combinado com deterioração persistente de métricas de longo prazo, reversão de fluxos institucionais e perda de apetite de grandes entidades.

Temores de um possível bear market

O NUPL de holders de curto prazo reforça a leitura de capitulação. A métrica se aproxima de regiões negativas consideradas historicamente como zonas de esgotamento, entre menos 10 e menos 12 por cento. Nessas faixas, em ciclos anteriores, grande parte das moedas em mãos frágeis já havia sido vendida e o mercado passava a reconstruir bases de custo mais sustentáveis. O quadro atual combina prejuízo realizado elevado, NUPL de curto prazo negativo e pressão de venda intensa, indicando que muitos dos investidores mais sensíveis já capitularam.

No lado comprador, o movimento é oposto. Baleias com mais de mil BTC adicionaram mais de 69 mil BTC aos seus saldos nos últimos trinta dias, revertendo totalmente a distribuição iniciada após agosto. Isso significa que grandes players absorveram uma parcela relevante da oferta gerada pelo varejo, pelos STHs capitulando e pelas saídas de ETFs.

Temores de um possível bear market

O comportamento das baleias sugere visão de longo prazo e leitura de que a queda representa oportunidade, não ameaça estrutural.

A análise de curto prazo acontece dentro de um pano de fundo macro que permanece inalterado. Governos continuam ampliando bases monetárias, monetizando dívidas e promovendo ciclos de expansão de liquidez que penalizam moedas fiduciárias ao longo do tempo. Ativos escassos, como o bitcoin, tendem a se beneficiar estruturalmente desse ambiente, ainda que o curto prazo seja influenciado por ruídos táticos.

Para o investidor, esse ambiente exige estratégia e paciência. Não é possível afirmar com certeza absoluta se estamos em bull ou bear, pois ciclos se tornam mais voláteis à medida que amadurecem. Contudo, o conjunto de dados sugere maior probabilidade de estarmos diante de uma correção profunda dentro de um ciclo ainda altista, caracterizada por capitulação de curto prazo e absorção por parte de grandes players.

Nesse contexto, tentar acertar o fundo exato é menos importante do que manter uma estratégia de acumulação disciplinada, evitar alavancagem excessiva e alinhar decisões ao horizonte de longo prazo. A estrutura atual lembra fases históricas em que o mercado transferiu bitcoin de mãos instáveis para mãos pacientes, reforçando a dinâmica estrutural de valorização ao longo dos anos.

 

Perspectivas de Mercado de Curto Prazo

O mercado de Bitcoin acelerou a correção nos últimos dias, com o preço rompendo para baixo níveis críticos de suporte e consolidando uma configuração de risco reduzido nas principais métricas de curto prazo. A dinâmica técnica segue frágil, com múltiplos sinais de realização e perda de força por parte dos detentores de curto prazo, ao mesmo tempo em que os indicadores de sentimento e valor relativo atingem zonas historicamente associadas a oportunidades de compra. O painel DashRisk sinaliza, pela primeira vez desde abril, um ambiente de capitulação de curto prazo.

A métrica de Realized Price <1M sinaliza forte dominância dos vendedores, com o preço de mercado (US$ 91.827) negociando abaixo do preço realizado dos detentores recentes (US$ 102.260), o que gera um bear signal com intensidade máxima (10/10). O comportamento recente confirma o rompimento da média de custo de curto prazo como um divisor estrutural, reforçando o viés defensivo no curtíssimo prazo.

O STH-SOPR (7dma) despencou para 0.982, marcando o menor valor desde abril e entrando oficialmente na zona de low risk. A leitura abaixo de 1 indica que a maioria das transações está sendo realizada com prejuízo, o que caracteriza um comportamento típico de capitulação, impulsionado por vendas forçadas ou liquidações. A última vez que a métrica esteve nesse patamar coincidiu com os fundos locais do primeiro semestre.

O STH-MVRV caiu para 0.836, também rompendo de forma clara a faixa de baixo risco. Isso indica que os detentores de curto prazo estão, em média, com prejuízo de mais de 16%, o que amplia a probabilidade de esgotamento vendedor e início de redistribuição. Desde o fim de 2022, regiões abaixo de 0.9 precederam momentos de reversão e forte assimetria positiva.

O STH-NUPL aprofundou sua queda para -0.18, o menor valor do ano. A leitura negativa nessa métrica reforça o cenário de aversão ao risco e perda de confiança de curto prazo, com investidores realizando prejuízo não realizado de forma intensa. Em retrospectiva, essa métrica costuma funcionar como excelente marcador de fundo quando combinada com reversão de tendência no preço e melhora dos fluxos de stablecoins e derivativos.

Temores de um possível bear market

Resumo das métricas principais:

  • Realized Price <1M: preço abaixo do RP1M, com 10/10 sinais de venda ativos (US$ 91.827 < US$ 102.260);

  • SOPR: queda para 0.982, indicando forte predominância de vendas com prejuízo e sinal de capitulação;

  • MVRV: métrica rompe para 0.836 e entra em zona de oportunidade, com holders de curto prazo em prejuízo médio significativo;

  • NUPL: valor em -0.18, sinalizando pessimismo extremo e pressão vendedora de curto prazo;

A leitura consolidada das métricas aponta para um ambiente clássico de capitulação de curto prazo. A combinação de prejuízo médio elevado, aumento de venda no prejuízo e esgotamento técnico sinaliza que o mercado pode estar se aproximando de uma janela de oportunidade tática. Historicamente, momentos como o atual são seguidos por reversões acentuadas de tendência no horizonte de semanas a poucos meses.

Com o DashRisk entrando em zona de low risk nas cinco métricas simultaneamente, o viés direcional passa a ser construtivo para quem busca aumentar exposição com foco tático. Não há sinais confirmados de reversão ainda, mas o nível de assimetria se tornou significativamente mais favorável. Investidores que operam baseado em risco-retorno encontram, nesse momento, uma das melhores configurações do ano até aqui.

A recomendação para posições táticas é de acumulação gradual e reentrada parcial, com foco em horizontes de 30 a 90 dias. Para quem já está posicionado, o momento pede resiliência e disciplina, com monitoramento próximo da dinâmica de fluxo em derivativos, stablecoins e das próximas confirmações de reversão estrutural.

 

Perspectivas de Mercado de Longo Prazo

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Conclusões

A capitulação intensa de investidores de curto prazo, aliada ao pico de prejuízo realizado e ao colapso em métricas como SOPR, MVRV e NUPL, indica que a maior parte da oferta marginal sensível já foi drenada. Ao mesmo tempo, a absorção agressiva por grandes entidades mostra que o mercado está transferindo moedas de mãos instáveis para mãos pacientes, algo típico de resets dentro de ciclos altistas. Essa combinação reduz o risco de quedas prolongadas por razões fundamentais, embora não elimine a volatilidade de curto prazo.

Com o painel de risco sinalizando low risk nas principais métricas, o posicionamento tático passa a favorecer reentrada gradual. Ainda não há sinais de reversão confirmada no preço, mas a assimetria entre risco e retorno se tornou significativamente melhor do que há algumas semanas.

Para quem possui liquidez, faz sentido iniciar acumulação escalonada e evitar buscar o fundo exato, já que historicamente esses períodos de capitulação são perceptíveis apenas retrospectivamente. Para quem já está posicionado, esse é um momento que exige disciplina, paciência e foco no horizonte de semanas e meses, evitando decisões impulsivas baseadas em volatilidade diária.

Do ponto de vista prático, como navegar esse ambiente?

Alguns pontos a considerar nesse momento:

  1. Reconhecer a incerteza de regime
    Ninguém consegue afirmar com certeza absoluta se o mercado está em bull ou bear. O que é possível é trabalhar com probabilidades. Hoje, os dados sugerem maior probabilidade de estarmos em uma correção profunda dentro de um ciclo ainda altista, mas essa probabilidade cai caso a queda se aprofunde.

  2. Evitar extrapolar o pânico de curto prazo para a tese de longo prazo
    A capitulação atual é intensa, porém concentrada em STHs, ETFs e derivativos, enquanto LTHs e baleias se mantêm resilientes ou compradores. Esse padrão é mais compatível com redistribuições de bull market do que com colapsos definitivos de ciclo.

  3. Priorizar estratégia sobre timing perfeito
    Em ambientes de alta volatilidade, tentar capturar o “fundo exato” costuma ser menos eficiente do que manter um plano de acumulação gradual, alinhado com o horizonte de longo prazo. Compras escalonadas em quedas, respeitando limites de risco individuais, historicamente se mostram mais eficazes do que tentativas de adivinhar reversões diárias.

  4. Evitar alavancagem excessiva
    A combinação de alta volatilidade, liquidez concentrada e fluxo emocional de varejo aumenta o risco de movimentos violentos contra posições alavancadas. Em ciclos avançados, preservar capital é tão importante quanto buscar novos ganhos.

Em síntese, o investidor que enxerga o bitcoin como um ativo para a “maratona” de longo prazo encontra hoje um ambiente de curto prazo ruidoso, porém coerente com oportunidades históricas de redistribuição.

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