Resumo
- 👉 O ciclo clássico de quatro anos do Bitcoin perdeu previsibilidade, com maior influência de fatores macroeconômicos, liquidez global e mercado tradicional;
- 👉 O início de 2026 mostra uma estrutura de mercado mais equilibrada, com menor pressão vendedora e melhora no balanço entre oferta e demanda;
- 👉 A sazonalidade histórica sugere um primeiro trimestre de estabilização, sem sinais claros de exuberância;
- 👉 A distribuição por grandes detentores desacelerou, reduzindo o risco de choques adicionais de oferta;
- 👉 O varejo voltou a acumular de forma gradual, típico de fases iniciais de reconstrução de ciclo;
- 👉 Os fluxos de stablecoins retornaram ao campo positivo, sinalizando recomposição de liquidez no ecossistema;
- 👉 A queda da Treasury General Account e a inflexão da Fed Net Liquidity reduziram o viés contracionista sobre ativos de risco;
- 👉 Apesar da melhora de liquidez, a demanda on-chain aparente segue majoritariamente negativa e sem confirmação estrutural;
- 👉 Métricas on-chain de curto prazo indicam possível fundo local, com retorno do preço acima do Realized Price <1m;
- 👉 O cenário caracteriza um bom início de 2026, porém ainda distante de uma fase de expansão plena;
- 👉 O posicionamento mais eficiente é tático, com exposição controlada ao Bitcoin e menor uso de alavancagem;
- 👉 A manutenção de caixa em USD e o uso de estratégias conservadoras de rendimento aumentam a opcionalidade e o retorno ajustado ao risco.
Introdução
Após um período de férias, que acabou casando de forma positiva com uma longa lateralização no bitcoin e poucas mudanças em termos de estrutura de mercado. Retornamos a abordar as dinâmicas de ciclo com novas lentes, compreendendo que o nosso entendimento sobre os formatos padrões de ciclo do bitcoin provavelmente mudaram.
O que tínhamos antes tido como “certo” agora se mostra bastante limitado frente as mudanças que ocorreram na estrutura de mercado nos últimos anos. E por conta disso, as análises de 2026 precisarão ser ainda mais avançadas e unificadas com o mercado tradicional, geopolítica e macroeconômica.
Vamos lá!
O ciclo atípico para o Bitcoin e o fim do padrão de 4 anos
Quando analisamos o desempenho do Bitcoin após fundos de ciclo anteriores, o comportamento histórico sugere que o período atual deveria corresponder a uma fase de contração ou, no mínimo, de crescimento marginal. Em ciclos passados, os anos subsequentes ao topo costumavam apresentar retornos comprimidos ou negativos, refletindo o esgotamento do impulso especulativo e a digestão do excesso de alavancagem.
No entanto, o que se observa no ciclo atual é uma quebra parcial dessa lógica: 2025, que dentro do antigo modelo de quatro anos deveria ter sido um dos anos mais fortes em termos de expansão, apresentou desempenho significativamente abaixo do esperado, com volatilidade elevada e incapacidade de sustentar movimentos direcionais mais longos.
Essa distorção fica ainda mais evidente quando observamos a distribuição histórica de retornos anuais. Anos que tradicionalmente marcaram fases de aceleração pós-halving exibiram ganhos expressivos, enquanto anos de contração eram claramente identificáveis.
No entanto, o retorno agregado recente sugere uma compressão estrutural de performance, com o Bitcoin passando a responder de forma mais direta a choques de liquidez, política monetária e condições financeiras globais, reduzindo o peso relativo da dinâmica puramente endógena do ciclo de quatro anos. Esse comportamento indica que o ativo deixou de operar majoritariamente como um sistema fechado de oferta programada e passou a se integrar de maneira mais profunda ao ecossistema macro global.
Essa mudança levanta questionamentos relevantes sobre a validade do ciclo clássico de quatro anos como principal framework explicativo. A entrada de investidores institucionais, a presença de ETFs, o aumento da participação de derivativos e a maior correlação com variáveis externas parecem ter achatado as curvas de expansão e antecipado fases de exaustão.
Em vez de ciclos bem definidos de euforia e capitulação, o mercado passa a operar em regimes mais fragmentados, com múltiplas mini-fases de expansão e contração condicionadas pela liquidez global. Nesse contexto, o ciclo de quatro anos pode não ter desaparecido, mas tende a se manifestar de forma mais difusa, com menor previsibilidade temporal e maior dependência do ambiente macroeconômico externo.
Um bom começo de 2026, mas longe de ótimo
Após um período prolongado de consolidação ao longo do final de 2025, o Bitcoin inicia 2026 com uma estrutura de mercado mais equilibrada. Ao observarmos a sazonalidade histórica, dinâmica de liquidez e comportamento on-chain, podemos ver que o BTC começa o ano em um regime de reconstrução gradual de momentum, com redução da pressão vendedora e melhora relativa no balanço entre oferta e demanda.
A análise de sazonalidade baseada em ciclos anteriores de bear market indica que o intervalo entre janeiro e março tende a marcar fases de estabilização e transição, após períodos de fraqueza concentrados no último bimestre do ano. O comportamento observado até o momento permanece consistente com esse padrão histórico, com o preço se mantendo abaixo da média de recuperação desses ciclos, o que indica ausência de exuberância e espaço estatístico para normalização.
Do ponto de vista on-chain, os dados mostram desaceleração da distribuição por parte de grandes detentores, especialmente endereços entre 1.000 e 10.000 BTC, reduzindo a probabilidade de choques adicionais de oferta no curto prazo. Em paralelo, endereços de varejo voltaram a acumular de forma mais consistente desde novembro, movimento típico de fases iniciais de reconstrução de ciclo, quando o risco percebido já diminuiu, mas o retorno potencial ainda não foi totalmente precificado.
A dinâmica de liquidez reforça essa leitura. Após saídas líquidas relevantes de stablecoins no fechamento de dezembro, os fluxos voltaram ao campo positivo no início de janeiro, sinalizando recomposição gradual de poder de compra dentro do ecossistema.
Embora esse capital ainda não represente uma expansão agressiva de liquidez, a reversão de sinal reduz a probabilidade de movimentos de queda sustentados e aumenta a opcionalidade para continuação do movimento construtivo, desde que o ambiente macro não introduza novos choques.
Do ponto de vista macrofinanceiro, o início de 2026 também passa a contar com uma melhora relevante nas condições de liquidez doméstica nos Estados Unidos. A redução consistente da Treasury General Account ao longo do segundo semestre de 2025 liberou recursos de volta ao sistema financeiro, reduzindo o efeito de drenagem que vinha pressionando os ativos de risco.
Esse movimento cria um impulso mecânico positivo para a liquidez disponível nos mercados, especialmente em um momento em que o Tesouro reduz a necessidade de absorção via emissão líquida de dívida de curto prazo.
Essa dinâmica já começa a se refletir no indicador de Fed Net Liquidity, que apresenta inflexão positiva após atingir níveis deprimidos no final de 2025. Historicamente, reversões nesse indicador tendem a anteceder períodos de melhora na performance de ativos escassos e sensíveis à liquidez, como o Bitcoin, ainda que com defasagens variáveis.
A recomposição gradual da liquidez ocorre sem necessidade imediata de estímulos explícitos, funcionando como um alívio endógeno após meses de aperto financeiro.
Em paralelo, observa-se estabilização e leve recuperação no balanço do Federal Reserve após um longo período de contração. Embora ainda não se trate de um regime claro de expansão monetária, a desaceleração do ritmo de drenagem já reduz o viés contracionista sobre o sistema financeiro.
Esse conjunto de fatores sugere que o início de 2026 ocorre sob um pano de fundo macro menos restritivo do que o observado nos meses anteriores, criando condições mais favoráveis para absorção de risco sem depender, neste momento, de mudanças formais na política monetária.
Apesar da melhora observada nas condições de liquidez e da redução da pressão vendedora, os dados de demanda on-chain ainda não confirmam um retorno pleno do fluxo comprador estrutural. A métrica de demanda aparente permanece majoritariamente em território negativo no início de 2026, indicando que a absorção líquida de oferta ainda não superou de forma consistente a emissão diária e a reativação de moedas inativas.
Historicamente, fases de recuperação mais robustas no preço costumam ser acompanhadas por períodos prolongados de demanda on-chain positiva, o que ainda não se materializou de maneira sustentada neste momento.
A demanda on-chain do varejo reforça essa leitura mais cautelosa. Embora haja sinais pontuais de retomada e estabilização após a forte contração observada no final de 2025, o crescimento líquido permanece próximo de zero ou levemente negativo, sugerindo que o investidor de menor porte ainda atua de forma defensiva.
Esse comportamento é compatível com fases iniciais de reconstrução de ciclo, nas quais o ambiente melhora em termos de risco e liquidez, mas ainda carece de confirmação via aumento orgânico de atividade on-chain. Assim, o início de 2026 pode ser classificado como construtivo, porém incompleto do ponto de vista de demanda, caracterizando um bom começo, mas ainda distante de um regime de expansão plena.
Estrutura de Mercado de Curto Prazo
O cenário on-chain nesta semana apresenta um ponto de inflexão técnico relevante após semanas de pressão vendedora. A reversão de tendência nas principais métricas comportamentais — com destaque para a reentrada em zona de baixo risco por parte de quatro dos cinco indicadores — sugere que o mercado pode ter concluído um ciclo local de realização.
A sinalização de fundo pelo modelo de volatilidade, somada ao retorno do preço acima do Realized Price <1m, fortalece a leitura de recuperação cíclica no curto prazo. A convergência dos sinais aponta para uma assimetria favorável à retomada da dominância compradora nos próximos dias, ainda que o viés de confirmação dependa da sustentação do preço acima da região de US$ 89 mil.
Realized Price <1m: o preço do Bitcoin voltou a superar o Realized Price de curto prazo (RP<1m), com o ativo cotado a US$ 93.155,60 frente a um RP<1m de US$ 89.155,30. Com isso, o modelo reativou o sinal de otimismo (bullish signal) após uma sequência de sete semanas sob sinal de baixa. Historicamente, cruzamentos positivos após quedas acentuadas sugerem retomadas de fôlego comprador, principalmente quando sustentados por outros indicadores comportamentais.
STH-SOPR (7d): o indicador de lucro por unidade transacionada dos holders de curto prazo permanece levemente abaixo do ponto de equilíbrio, com valor de 0.9977, reforçando que a maioria das moedas ainda está sendo movimentada com prejuízo marginal. No entanto, a métrica saiu da zona de risco e tende a se aproximar da neutralidade, o que pode sinalizar estabilização da pressão vendedora. A última entrada na zona de baixo risco (abaixo de 0.985) marcou um dos fundos locais de 2025.
STH-MVRV: a métrica segue dentro da zona de baixo risco, com valor de 0.9321, apontando que os holders de curto prazo ainda detêm prejuízo não realizado em média. Apesar do movimento de recuperação recente, a relação entre preço de mercado e preço realizado ainda não atingiu a média histórica de neutralidade (região de 1.0). O contexto sugere que o mercado ainda apresenta assimetria favorável ao comprador nesse horizonte de tempo.
STH-NUPL: o Net Unrealized Profit/Loss de curto prazo aponta para uma recuperação estrutural da confiança, com valor de -0.0075, próximo da linha de neutralidade. A métrica já saiu da zona de baixo risco e vem acompanhando a recuperação do preço, o que pode reforçar a validade do fundo comportamental registrado entre o final de dezembro e o início de janeiro.
Volatilidade + Sinal de Squeeze: o modelo de compressão de volatilidade foi acionado novamente no dia 05/01/2026, indicando provável retomada de expansão de volatilidade nos próximos dias. Esse comportamento historicamente precede movimentos bruscos de preço. Dado o contexto dos demais indicadores, o viés implícito desse squeeze tende a favorecer o lado comprador, desde que não haja rejeição abaixo de US$ 89 mil.
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Realized Price <1m: BTC cotado em US$ 93.155, acima do RP<1m em US$ 89.155 → bullish signal ativo
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STH-SOPR (7d): 0.9977, fora da zona de risco, mas ainda abaixo de 1 → prejuízo marginal persistente
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STH-MVRV: 0.9321, abaixo de 1.0 e dentro da zona de baixo risco
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STH-NUPL: -0.0075, recuperação rumo à neutralidade → sinal de retomada de confiança
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Volatilidade: squeeze ativo desde 05/01 → alerta de possível breakout próximo
Com quatro das cinco métricas em zona de baixo risco e o retorno do preço acima do Realized Price <1m, o modelo volta a sinalizar recuperação cíclica no curto prazo. A ativação do squeeze de volatilidade indica que um movimento direcional relevante está por vir. O suporte técnico imediato está na faixa entre US$ 89.000 e US$ 90.000, cuja sustentação será crucial para validar a mudança de regime. A perda dessa faixa invalidaria parcialmente o cenário de reversão. Por outro lado, uma confirmação com nova máxima acima de US$ 95.000 reforçaria o novo impulso de alta. O viés técnico é de otimismo moderado, com ponto de atenção para confirmações em volume e continuidade.
Estrutura de Mercado de Longo Prazo
Conclusões
Diante desse cenário, o posicionamento mais eficiente tende a ser tático e flexível, em vez de estruturalmente agressivo. A ausência de um viés claro de expansão plena, somada à maior sensibilidade do Bitcoin a variáveis macro e choques exógenos, reduz a assimetria favorável de estratégias altamente alavancadas. Nesse contexto, uma exposição controlada ao bitcoin, dimensionada de acordo com o risco total da carteira, parece mais adequada do que apostas concentradas em movimentos direcionais de curto prazo.
A manutenção de um fundo de caixa relevante em USD também ganha importância neste estágio do ciclo. Além de funcionar como proteção em cenários de volatilidade inesperada, o caixa preserva opcionalidade, permitindo alocações mais eficientes caso surjam assimetrias mais claras, seja por eventos macro, mudanças no regime de liquidez ou confirmações mais robustas de demanda on-chain. Em um ambiente de incerteza estrutural, liquidez passa a ser um ativo estratégico, não apenas defensivo.
Paralelamente, o uso de mecanismos de rendimento pode contribuir para melhorar o retorno ajustado ao risco da carteira enquanto o mercado permanece em transição. Estratégias conservadoras de yield, quando bem selecionadas e com gestão rigorosa de risco contraparte, permitem capturar retorno marginal sem depender exclusivamente de apreciação de preço. Esse tipo de abordagem tende a ser mais eficiente em períodos de consolidação ou reconstrução de ciclo, nos quais o custo de oportunidade de permanecer totalmente direcional é elevado.
Outras estratégias complementares podem incluir rebalanceamentos sistemáticos, exposição parcial via instrumentos menos voláteis ou estruturas que se beneficiem de compressão e posterior expansão de volatilidade (opções), desde que o risco seja claramente delimitado. Em síntese, o momento favorece uma postura de disciplina e gestão ativa, priorizando preservação de capital, optionalidade e eficiência, enquanto o mercado fornece sinais mais claros sobre o regime dominante ao longo de 2026.
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