Resumo
- 👉 Hack da Bybit foi o maior da história, com US$1,4 bilhão roubados em ETH, explorando uma vulnerabilidade na assinatura digital;
- 👉 Usuários entraram em pânico e sacaram mais de 20.000 BTC, em uma “corrida bancária” maior que a da FTX, mas a exchange sobreviveu;
- 👉 A Bybit conseguiu cobrir 80% das reservas perdidas por meio de empréstimos emergenciais, garantindo a continuidade dos saques;
- 👉 A exchange publicou um Proof-of-Reserve auditado, confirmando que todos os ativos dos usuários têm mais de 100% de colateralização;
- 👉 Apesar da resposta rápida, a Bybit ainda enfrenta uma dívida expressiva e precisa gerir sua solvência a longo prazo;
- 👉 O mercado cripto enfrenta um cenário de capitulação on-chain, com investidores de curto prazo vendendo em prejuízo;
- 👉 O SOPR de curto prazo caiu abaixo de 1, sinalizando liquidações semelhantes às de ciclos anteriores de capitulação;
- 👉 O preço realizado dos investidores de curto prazo foi rompido abaixo de US$92.800, indicando forte capitulação de novos entrantes;
- 👉 79 mil BTCs foram vendidos em prejuízo, totalizando US$1,7 bilhão de perdas realizadas em um único dia – a maior capitulação desde agosto de 2024;
- 👉 O nível de prejuízo não realizado na oferta circulante atingiu US$400 bilhões, um recorde histórico;
- 👉 Baleias estão acumulando BTC enquanto pequenos investidores liquidam, um padrão que historicamente antecede reversões de alta;
- 👉 A liquidez global é o maior fator que impacta o preço do Bitcoin, representando 40,7% de sua dinâmica;
- 👉 O CPI dos EUA caiu para 3,0% a.a., mas o núcleo do PCE segue acima de 3%, impedindo cortes de juros imediatos pelo Fed;
- 👉 O Truflation prevê inflação caindo para 2%-2,5% nos próximos meses, o que poderia abrir espaço para cortes de juros no segundo semestre de 2025;
- 👉 O RRP caiu de US$2,3 trilhões para menos de US$250 bilhões e pode se esgotar em breve, reduzindo liquidez do mercado;
- 👉 O Tesouro dos EUA precisará recompor o TGA, retirando ainda mais liquidez do sistema no segundo semestre;
- 👉 O índice VIX subiu recentemente, indicando aumento da aversão ao risco e impactando o preço do Bitcoin;
- 👉 Se a liquidez continuar fluindo no primeiro semestre de 2025, o BTC pode se manter forte, mas uma reversão no segundo semestre traria riscos de queda.
Introdução
Nos últimos dias, o mercado cripto foi abalado pelo maior hack da história, com a Bybit perdendo US$1,4 bilhão em ETH para o notório Lazarus Group. O ataque não só expôs vulnerabilidades nas exchanges centralizadas, como também gerou pânico no mercado, desencadeando saques massivos e aumentando a pressão vendedora. No entanto, os dados on-chain indicam que essa liquidação pode estar próxima de um esgotamento, com sinais típicos de capitulação surgindo – um padrão que historicamente antecede reversões de tendência.
Esse evento acontece em um momento delicado para os mercados globais, com a aversão ao risco aumentando e a liquidez global se aproximando de um possível ponto de inflexão. A inflação nos EUA desacelerou, mas o núcleo do PCE segue acima de 3%, o que mantém o Fed em modo restritivo, sem espaço imediato para cortes de juros. Ao mesmo tempo, a recomposição do TGA pelo Tesouro dos EUA e o esgotamento do RRP podem resultar em uma contração de liquidez no segundo semestre, um fator que historicamente pressiona ativos de risco como o Bitcoin.
O mercado agora se encontra em um ponto crítico, onde os sinais on-chain sugerem uma oportunidade cíclica de acumulação, mas as condições macroeconômicas ainda impõem riscos e abordaremos estes pontos no relatório de hoje.
Vamos lá!
Impactos do maior roubo de cripto da história – Hack da Bybit
Na manhã de 21 de fevereiro de 2025, a Bybit foi atingida por um ataque sem precedentes, executado por Park Jin, um dos membros-chave do notório Lazarus Group, que ficou conhecido por golpes como o da Sony Pictures e o roubo no Banco Central de Bangladesh. Durante uma transferência rotineira de ETH – movimentação de ativos de uma carteira fria (offline) para uma carteira quente (usada para trading diário) – os hackers exploraram uma vulnerabilidade na interface de assinatura digital.
Eles replicaram essa interface de forma tão convincente que os signatários, inclusive com a última assinatura do CEO Ben Zhou, visualizaram os dados esperados, como o endereço e o valor correto, sem perceber que a lógica do contrato inteligente havia sido alterada nos bastidores.
No exato momento em que os signatários aprovaram a transação, a alteração maliciosa permitiu que os invasores assumissem o controle da carteira fria, dividindo os 400.000 ETH – totalizando aproximadamente US$1,4 bilhão – entre 53 wallets distintas para dificultar o rastreamento on-chain. O conhecido investigador @zachxbt identificou padrões, testes de transações e conexões com hacks anteriores, confirmando a ligação do golpe ao Lazarus Group, grupo que já também atacou a Axie Infinity e a Atomic Wallet.
O ocorrido causou pânico entre os usuários, desencadeando o maior volume de saques já registrado pela Bybit, com mais de 20.000 BTC retirados em uma “corrida bancária” que ultrapassou os níveis observados durante o colapso da FTX. Contudo, a exchange não entrou em colapso.
A equipe, liderada por Ben Zhou, agiu rapidamente em parceria com players estratégicos, assegurando empréstimos ponte que cobriram 80% das reservas em ETH perdidas, mantendo os saques e comunicando todas as ações em tempo real no X (Twitter).
Além disso, a Bybit publicou recentemente seu Proof-of-Reserve auditado pela Hacken, comprovando que 100% das reservas de ETH foram restauradas e que todos os ativos auditados possuem mais de 100% de colateralidade em relação aos fundos dos usuários. Esse PoR on-chain demonstra transparência, pois os endereços com os saldos dos usuários, inclusive os de Bitcoin, estão disponíveis no documento atualizado.
Apesar da gestão de crise exemplar – que forneceu uma verdadeira aula de transparência para o setor – a situação ainda não está completamente resolvida. Uma parte significativa dos fundos segue com os hackers e a Bybit agora enfrenta uma grande dívida a ser paga aos parceiros, indicando a necessidade de gerir cuidadosamente suas linhas de crédito para manter a solvência a longo prazo.
Com o volume de saques, a exchange perdeu mais de US$8 bilhões em ativos, mas ainda mantém mais de US$12 bilhões em reservas, demonstrando notável resiliência.
Este episódio não só abalou a confiança na segurança das exchanges, mas também evidenciou a crescente sofisticação dos métodos dos cibercriminosos. Fica claro que o setor precisa elevar seus níveis de segurança on-chain e que os investidores devem aprender a praticar a autocustódia para proteger seus ativos.
Estrutura de capitulação on-chain aparece novamente
O sentimento de mercado está extremamente pessimista, impulsionado por ventos macroeconômicos contrários – tarifas elevadas, inflação persistente – e por uma incerteza global que vem se intensificando. Esses fatores podem arrastar o Bitcoin para baixo e continuar pressionando o preço, mas ainda existe uma alta probabilidade de não termos chegado no topo deste ciclo, conforme nossos indicadores apontam.
Estamos num momento de “deja vu”, repetindo a estrutura de lateralização e capitulação que costuma ocorrer quando atingimos novas máximas dentro do ciclo atual. Esta estrutura, por mais complexa que seja, acaba favorecendo investidores pacientes e punindo novatos.
Em 2024, passamos oito meses operando próximo do antigo recorde (ATH), onde inúmeras moedas precisaram trocar de mãos. Holders de longo prazo, muitos arrependidos de não terem vendido no topo de 2021, foram substituídos por novos investidores que acreditavam que o Bitcoin ultrapassaria facilmente os US$70 mil.
Esse processo, que não ocorre de forma linear, exigiu alta volatilidade. Quando o ATH foi atingido, o otimismo era tão grande que poucos vendiam; contudo, quando o momentum se dissipou, surgiram ondas de liquidação que aceleraram a queda dos preços.
Além do declínio nos preços, a estrutura de capitulação se evidencia também na atividade on-chain. Indicadores como o SOPR dos investidores de curto prazo mostram que esses holders estão vendendo suas moedas com prejuízo. O preço realizado desses investidores, posicionado em torno de US$92.800, foi rompido para baixo, sinalizando que novos investidores — geralmente mais inexperientes — estão capitulando novamente, fenômeno semelhante ao ocorrido na metade do ano passado.
Durante esse período, três ondas de vendas se sucederam, cada uma com maior velocidade e amplitude, esgotando a oferta de vendedores dispostos e transferindo as moedas para novos compradores institucionais, como ETFs, bilionários e fundos soberanos, o que impulsionou o salto para US$100 mil. Nas últimas 24 horas, o Bitcoin atingiu condições similares de sobrevenda pela primeira vez desde o crash de 29% em agosto, quando o preço caiu para US$49 mil.
Inclusive, acabamos de atingir a maior capitulação de 2025 em investidores novatos, distribuindo mais de 79 mil BTCs em prejuízo. Além disso, ao todo foram distribuídos mais de US$ 1,7 bilhão em moedas em prejuízo no dia 25, sendo a maior capitulação desde 5 de agosto.
A última capitulação desta magnitude ocorreu quando o Japão elevou suas taxas de juros, causando um processo de desalavancagem em massa no mercado global. Essa queda sistêmica também marcou o fundo daquele período de lateralização e o preço começou a reverter a partir deste momento até atingir os US$100.000 em dezembro.
Outro dado alarmante é o nível de prejuízo não-realizado na oferta circulante, que alcançou mais de US$400 bilhões no dia 25 – o maior valor já registrado. Em termos denominados em BTC, isso representa mais de 4,3 milhões de moedas em prejuízo, um patamar similar aos observados durante capitulações anteriores, como a queda pós-lançamento dos ETFs e a fase intermediária de vários meses de queda.
Se a estrutura de capitulações se confirmar de modo similar ao que ocorrer em agosto de 2024, é possível que estejamos num momento de oportunidade única no médio prazo. Estes momentos de extremo pânico generalizado, tanto visto pelo sentimento de mercado, quanto através de confirmações on-chain, apresentam as melhores entradas no ciclo de longo prazo.
Enquanto muitos investidores vendem moedas em prejuízo, geralmente grandes players aproveitam para absorver estas moedas, o que é futuramente neutralizado com o esgotamento da pressão vendedora. Podemos estar num cenário bastante similar neste momento, uma vez que carteiras de grandes participantes (baleias) cresceram bastante durante os últimos dias de queda.
Este desânimo atual no mercado pode se refletir numa valorização significativa nos próximos meses, mas ainda é cedo para afirmar que não poderemos cair mais nos próximos dias. Os preços de curto prazo são altamente aleatórios e precisamos nos focar em como absorver bitcoin nas melhores regiões de compra do ciclo, algo que possivelmente estamos agora.
Estagflação nos Estados Unidos e aversão ao risco macro
A liquidez global continua sendo o principal fator de influência no preço do Bitcoin, representando 40,7% da sua dinâmica, conforme estudo da CrossBorder Capital. Além disso, o preço do ouro responde por 25,9%, o apetite ao risco dos investidores pesa 22,2% e a relação entre ouro e Bitcoin contribui com 11,1%.
Esses dados reforçam a forte correlação do BTC com o fluxo de liquidez global e ativos de reserva, como o ouro, tornando a análise macroeconômica fundamental para entender a trajetória do Bitcoin nos próximos meses, algo que já sinalizamos anteriormente aqui no BlockTrends PRO.
Nos últimos 12 meses, a inflação nos EUA desacelerou, mas não foi totalmente resolvida. O CPI caiu de 6,4% a.a. (jan/23) para 3,0% a.a. (jan/25), enquanto o núcleo do PCE – métrica mais observada pelo Fed – recuou de 5,0% para 2,8% no mesmo período. No entanto, a inflação de serviços e habitação continua pressionada, mantendo o núcleo acima de 3%.
Esse patamar é problemático para o Federal Reserve, pois ainda está acima da meta de 2%, o que significa que o banco central não tem espaço para cortar juros agressivamente sem o risco de reativar uma espiral inflacionária. Este é um dos principais causadores da aversão ao risco existente nos mercados atualmente.
O Truflation, índice alternativo que monitora preços em tempo real, indica que a inflação pode cair para entre 2% e 2,5% até meados de 2025. Se isso se confirmar, o Fed poderá iniciar um ciclo de cortes de juros no segundo semestre. Entretanto, se a inflação persistir na faixa de 3% ou mais, Powell e sua equipe deverão manter juros elevados por mais tempo, o que apertaria ainda mais a liquidez.
Esse dilema se assemelha aos erros cometidos pelo Fed nos anos 1970, quando o banco central afrouxou a política monetária cedo demais após uma primeira onda inflacionária. O resultado? A inflação reacelerou, exigindo um aperto ainda mais severo nos anos 1980, o que levou a uma recessão profunda. Powell e sua equipe querem evitar esse erro, o que significa que as taxas de juros permanecerão altas até que haja uma confirmação clara de que a inflação está resolvida.
Desde 2023, apesar da política de juros elevados, a liquidez global se manteve favorável para ativos de risco. Isso ocorreu porque a saída de US$ 1,5 trilhão do Reverse Repo Facility (RRP) e o esvaziamento temporário do TGA (Treasury General Account) injetaram capital nos mercados, mascarando o aperto monetário. O Bitcoin se beneficiou desse efeito, conseguindo sustentar uma trajetória de alta.
Porém, essa dinâmica está perto do fim. O RRP já caiu de US$ 2,3 trilhões para menos de US$ 250 bilhões e pode se esgotar nos próximos meses. Paralelamente, o Tesouro dos EUA precisará recompor o saldo do TGA no segundo semestre de 2025, drenando liquidez do sistema. Isso significa que a maré de liquidez global pode começar a se reverter no segundo semestre, o que historicamente pressiona ativos de risco.
Esse possível aperto ocorre justamente no momento em que o mercado de ouro registra um forte aumento de estoques no COMEX, indicando que investidores estão buscando proteção em metais preciosos. Historicamente, essa mudança de fluxo antecipa períodos de recessão ou estresse econômico, fortalecendo a tese do Bitcoin como ativo escasso. Se essa tendência persistir, o BTC pode se beneficiar no longo prazo, mas sofrer com a volatilidade no curto prazo.
O mercado já está precificando esses riscos. O índice VIX, que mede a volatilidade dos mercados, apresentou picos recentes, coincidindo com quedas no Bitcoin. Isso reforça a tese de que, apesar de sua narrativa de reserva de valor, o BTC ainda é tratado como um ativo de risco em momentos de aversão ao risco.
Se a liquidez continuar se expandindo no primeiro semestre de 2025, o BTC pode sustentar sua trajetória positiva. Mas o segundo semestre representa riscos crescentes, pois o aperto do Tesouro dos EUA e a possível persistência da inflação podem resultar em uma nova contração de liquidez, levando a um período de maior volatilidade e possível correção.
A chave para os próximos movimentos do mercado está nos fluxos de liquidez, na política do Fed e nos dados de inflação nos próximos meses. Se os indicadores macroeconômicos apontarem para um aperto mais agressivo, ativos de risco, incluindo o BTC, poderão sofrer. Mas, se a desinflação for mais acelerada do que o esperado, o Bitcoin poderá se beneficiar e capturar o fluxo que esteve indo para o ouro desde o final de 2024.
Conclusões
Apesar do atual cenário macroeconômico sinalizar maior aversão ao risco, pressionando a demanda por Bitcoin e favorecendo uma continuidade da queda no curto prazo, há indícios de que estamos nos aproximando de um extremo na pressão vendedora. A recente capitulação do mercado trouxe sinais on-chain que historicamente marcam oportunidades de compra raras, sugerindo que boa parte dos vendedores já pode ter sido eliminada do mercado.
Além disso, nossos indicadores de topo ainda não sinalizam a conclusão do ciclo de alta do Bitcoin, embora o contexto macroeconômico exija cautela com as expectativas. O ambiente de baixa liquidez, crescimento econômico fraco e inflação persistente pode impedir que vejamos altas explosivas como em 2021, mas ainda há espaço para preços significativamente acima dos níveis atuais ao longo do ano.
O fator determinante será o comportamento da inflação nos EUA, que continua sendo uma das maiores preocupações do mercado. Caso a inflação continue desacelerando e o Federal Reserve comece a considerar cortes de juros, a liquidez poderá melhorar, criando um ambiente mais favorável para ativos de risco. Nesse cenário, esperamos que o Bitcoin reconstrua gradualmente sua estrutura de alta, tornando as atuais quedas oportunidades estratégicas de posicionamento.
Ainda assim, devido à baixa demanda on-chain no momento, novas quedas no curto prazo são possíveis, mas isso não representa o início de um bear market estrutural, como alguns participantes do mercado têm sugerido. Pelo contrário, é provável que a liquidez se fortaleça nos próximos meses, ajudando a sustentar uma recuperação do BTC. A paciência será fundamental para atravessar esse período de incerteza e se posicionar de forma estratégica para capturar os próximos movimentos de alta.
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