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Reino Unido proíbe redes sociais para menores de 16 anos

Governo britânico apresenta lei que obriga plataformas a verificar idade dos usuários. Medida é a mais restritiva do Ocidente e pressiona Big Techs.

Reino Unido proíbe redes sociais para menores de 16 anos
Foto: www.kaboompics.com / Unsplash

O governo do Reino Unido anunciou nesta semana a proibição mais restritiva do Ocidente para o uso de redes sociais por menores. A partir da implementação da nova legislação, plataformas como Instagram, TikTok, Snapchat e X serão obrigadas a impedir o acesso de usuários com menos de 16 anos.

A medida vai além de qualquer regulação já aprovada por democracias ocidentais. A Austrália havia estabelecido restrição semelhante no fim de 2024, mas o modelo britânico traz mecanismos de fiscalização mais robustos e penalidades que podem chegar a 10% do faturamento global das empresas infratoras.

Como a verificação de idade vai funcionar na prática

O ponto central da legislação é a obrigação de verificação de idade. As plataformas terão que implementar sistemas que confirmem a identidade e a faixa etária de cada novo usuário. Os métodos aceitos incluem estimativa de idade por inteligência artificial, verificação por documento e validação por terceiros certificados pelo Ofcom, o regulador de telecomunicações britânico.

O prazo para adequação será de 12 meses após a aprovação final no Parlamento. Quem descumprir pode enfrentar multas pesadas. Para uma empresa como a Meta, que faturou cerca de US$ 160 bilhões em 2025, a penalidade máxima chegaria a US$ 16 bilhões, o que torna o risco financeiro significativo o bastante para forçar mudanças reais.

A lei também cria uma nova categoria de responsabilidade para os executivos das empresas. Diretores de plataformas que deliberadamente ignorarem as regras podem responder criminalmente, algo inédito nesse tipo de regulação.

O que motivou a decisão e por que agora

O debate sobre o impacto das redes sociais na saúde mental de adolescentes ganhou força nos últimos anos. Dados do NHS, o sistema de saúde britânico, mostram que internações de adolescentes por transtornos alimentares e autolesão cresceram 42% entre 2019 e 2024. Estudos do Surgeon General dos Estados Unidos, publicados em 2023, já haviam apontado correlação entre uso intensivo de redes sociais e aumento de ansiedade e depressão entre jovens.

O governo trabalhista de Keir Starmer transformou a pauta em prioridade. Como discutimos em análises anteriores sobre regulação de Big Techs, o movimento britânico não acontece isoladamente. A União Europeia também discute restrições semelhantes dentro do Digital Services Act, e nos Estados Unidos diversos estados já aprovaram leis locais com limitações de acesso para menores.

O diferencial britânico está na abrangência. Não se trata apenas de exigir consentimento parental, como propõem a maioria das legislações americanas. A responsabilidade recai integralmente sobre as plataformas, não sobre os pais.

Reação das Big Techs e impacto no setor

A reação inicial das empresas foi cautelosa. A Meta afirmou que já trabalha em ferramentas de verificação de idade e que apoia “regulação clara e uniforme”. O TikTok disse que colabora com reguladores globais. Nenhuma das duas, porém, se comprometeu publicamente com o prazo de 12 meses.

Para investidores, o ponto de atenção é o precedente regulatório. Se o modelo britânico for bem-sucedido, a tendência é que outros países repliquem a estrutura. Isso pode significar custos adicionais relevantes para empresas cuja receita depende de engajamento massivo, incluindo o público jovem. Segundo estimativas da Bernstein, adolescentes entre 13 e 17 anos representam entre 8% e 12% do tempo total gasto no Instagram e no TikTok.

As ações da Meta e da Snap recuaram levemente após o anúncio, mas analistas consideram o impacto de curto prazo limitado. O efeito maior, segundo analistas do setor de tecnologia, seria estrutural: se a verificação de idade se tornar padrão global, toda a arquitetura de coleta de dados e publicidade direcionada precisará ser reformulada.

O que isso significa para o mercado de tecnologia

A proibição britânica se insere num ciclo regulatório mais amplo que vem pressionando as Big Techs desde 2020. A diferença é que o foco agora não é mais concorrência ou privacidade genérica. É proteção de menores, um tema com apelo bipartidário em quase todas as democracias.

Isso muda o cálculo político. Diferente da regulação antitruste, que enfrenta resistência de lobbies poderosos e divide opiniões, a proteção de crianças nas redes é uma causa com apoio popular massivo. Pesquisa do Pew Research de 2025 mostrou que 78% dos adultos nos Estados Unidos e 83% no Reino Unido apoiam restrições de idade para redes sociais.

Para empresas de verificação de idade e identidade digital, como Yoti e Jumio, a legislação abre um mercado potencialmente bilionário. A convergência entre regulação e tecnologia de identidade é uma das tendências mais relevantes do setor neste momento, com implicações que vão muito além das redes sociais.

O Brasil, por sua vez, discute projeto semelhante no Congresso desde 2024, mas sem a mesma urgência legislativa. O PL 2628/2022, que trata da proteção de crianças em ambientes digitais, ainda aguarda regulamentação completa. Se o modelo britânico provar ser funcional, a pressão para que o Brasil acelere sua própria regulação tende a crescer.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Jornalista especializado em tecnologia e inteligencia artificial. Cobre big techs, startups, IA generativa, ciberseguranca e transformacao digital para o portal BlockTrends.
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